Com a mais respeitosa licença ao refinado Cartola, mas que bobagem, as ruas não falam. Simplesmente as ruas exalam as esperanças que roubam de ti, de mim, de nós, brasileiros. Ontem, éramos um País autoritário, rico e injusto e não podíamos sequer expressar nossa revolta sem sofrer repressão, seja pela censura, pela prisão ou pela eliminação, e aqui você a entenda como quiser.
Indignados, saímos às ruas para conquistar o direito de escolher diretamente nosso presidente, o maior dos mandatários, símbolo de um poder capaz de livrar-nos de todos os males. Frustrados, fomos às ruas para tirar o nosso presidente, símbolo de um poder culpado por todos os nossos males. Enfim, conquistamos a democracia!
Hoje, somos um País de liberdades democráticas, e ainda rico, mas ainda injusto. E como democracia não é necessariamente um fim, mas um meio, voltamos às ruas. Primeiro para testá-la. De fato. Será que ela só existe nos artigos de jornal e nas fotos da ONU? Exercer a democracia não é, não pode e não deve limitar-se ao apertar de uma tecla que define os donos de nossas vidas a cada quatro anos.
Passada a emoção ideológica do ato, você se sente seguro em apontar, racionalmente, quem é de direita ou esquerda, ou mesmo o que é direita ou esquerda nas práticas e conchavos do momento atual? O trilhar de caminhos que levem a equilíbrios e avanços sociais e econômicos mínimos não pode ser letra morta em cartas de intenção de partidos, empresas ou imprensa. Deve ser essência.
No mesmo Brasil que um jovem de 21 anos de nome Neymar marca um gol de placa num Maracanã lotado e vai para os braços da torcida, aos gritos de alegria, outro jovem brasileiro, de 20 anos, de nome Diego, mata um menino boliviano nos braços da mãe, por seus gritos de medo e terror. Que gritos traduzem melhor aquilo que somos? As ruas talvez nos ajudem a encontrar alguma resposta. "Devias vir. E, quem sabe, sonhavas meus sonhos. Por fim".
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador de Opinião