Há duas semanas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, participou de uma audiência na Câmara dos Deputados onde se discutiu a política fiscal e a questão dos cortes de gastos nas despesas do governo. Ele colocou a sua posição, mostrando que o governo está empenhado na redução do déficit e que reconhece que alguns cortes já poderiam ter sido feitos. Para o ministro Mantega, a questão fiscal é o mais importante problema a ser resolvido pelo governo. Restou claro que um dos objetivos futuros é realizar uma política que em três, quatro ou cinco anos leve ao déficit nominal zero.
Em meio às críticas da oposição parlamentar, ele lembrou que no exercício da política econômica o governo da presidente Dilma tem enfrentado com sucesso alguns dos nossos mais sensíveis problemas estruturais como o da Previdência do funcionalismo público; a desoneração das folhas de pagamento no setor privado e a limitação das despesas nos próximos três anos com os reajustes do funcionalismo público; e mais a redução das taxas reais de juros, além da redução das tarifas de energia elétrica, dentre outros.
É preciso reconhecer que tem havido muito mais acertos do que erros na administração dos problemas econômicos, às vezes um aprendizado lento prejudicado por uma comunicação defeituosa que gera um clima pouco amistoso e aumenta os ruídos no curto prazo. O que importa, no entanto, é que as soluções estão apontando na direção correta: as medidas vão maturar e num prazo de dois ou três anos seus efeitos sobre a produtividade da economia nacional serão sentidos.
Alguns "sinais vitais" da conjuntura preocupam, mas não temos nenhuma situação dramática: 1) nossa dívida não é exagerada, apesar de ser uma das mais altas dentre os países emergentes; 2) nossa taxa de inflação não está fora de controle, mas é desconfortável; e 3) nosso déficit em conta corrente não é ainda uma preocupação, mas seguramente não é uma coisa sustentável.
Além de incertezas do setor privado e sugestões extravagantes sobre a política monetária, há ainda preocupações justificadas sobre o futuro da indústria nacional dizimada por uma política cambial descuidada e pela falta de clareza da política para o setor.
Tudo isso, entretanto, não justifica a afirmação que parece ter diminuído o apetite do capital estrangeiro de participar nos grandes projetos de desenvolvimento nacional. Há aqui, também, um evidente exagero por parte dos analistas do setor financeiro. Senão, como conciliar a dimensão dessas dúvidas com as recentes manifestações positivas do capital estrangeiro?
Em primeiro lugar, como explicar o sucesso do financiamento obtido justamente pela Petrobras que praticamente construiu uma "curva de juros"? É verdade que agora alguns analistas mudaram de posição: não é mais a falta de recursos da empresa, mas o nível de seu endividamento (que eles mesmos financiaram!) que é a nova preocupação...
Em segundo lugar, como entender a resposta do mercado ao lançamento do Banco do Brasil? E, por último, como negar o sucesso da 11ª licitação de blocos exploratórios de petróleo e gás, feito pela Agência Nacional do Petróleo, que arrecadou quase 3 bilhões de Reais em bônus de assinatura de 142 blocos numa área equivalente a 100 mil quilômetros quadrados, depois de cinco anos de espera?
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC