O que faz um bom comerciante? E o que é preciso para melhorar a atividade de quem trabalha com comércio por parte dos políticos? Para responder as duas questões, o Jornal da Cidade conversou com diretores das principais entidades comerciais de Bauru e constatou que existe praticamente um consenso: um bom comerciante precisa principalmente ter conhecimento de sua área, que vem de aprimoramento e experiência. A reivindicação principal é uma reforma tributária para desonerar e simplificar o trabalho de quem vive do que vende. Além disso, a figura do comerciante cedeu espaço à do empresário do comércio, o que acabou de certa maneira ratificado pelas mudanças que o Código Civil sofreu em 2002 e pelas inovações.
Agente primordial na economia bauruense, o comerciante tem seu dia comemorado nesta terça-feira, 16 de julho, e na capacidade de adaptação um requisito primordial para se manter competitivo em uma área que se transforma rapidamente, seguindo uma tendência da sociedade em geral. “A gente vê que o empresário hoje tem que estar antenado para sobreviver com todas estas mudanças constantes”, declara Paulo Martinello, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), salientando que hoje não basta a preocupação de comprar bem para vender seu produto de maneira competitiva. “É preciso fazer cursos, se reciclar. O consumidor está muito exigente, tem que estar atento a tudo”, alerta.
Walace Garroux Sampaio, presidente do Sindicato de Comércio Varejista de Bauru (SinComércio), ressalta que o conhecimento de sua área é imprescindível para identificar tendências e necessidades com antecedência e eficiência. “As coisas acontecem muito rapidamente e precisa ter um conhecimento profundo do mercado e uma relação de trabalho com seus funcionários bastante positiva. Este é o trabalho do comerciante, que identifica as necessidades dos consumidores para trazer o produto ou serviço até eles com um bom atendimento”, observa.
A relação com funcionários e clientes é apontada por Aldemiro José Alves, vice-presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Bauru (CDL), como primordial para o sucesso do comerciante. Cativar o cliente para se manter saudável no comércio. “Você precisar estar dentro do ramo, fazer o que gosta. Precisa ter contato com o cliente para ele saber quem é o dono da loja. Aí você dura no mercado”, receita. E valorizar o funcionário. “É importante também manter seus funcionários, não ficar trocando. É melhor ter quatro, cinco funcionários bem qualificados do que dez sem qualificação. É pensar em qualidade, não em quantidade”, considera. Alves ressalta que a combinação ideal para o comerciante é vocação, amor e conhecimento da área.
Quando a questão é o que a classe política poderia fazer para melhorar o trabalho do comerciante, a resposta é unânime: menos burocracia e impostos. A reforma tributária é a cobrança para simplificar e desonerar os empresários do comércio. “Temos uma carga tributária extremamente elevada no País. Não bastante isso, o retorno do Estado é muito pequeno proporcionalmente àquilo que é contribuído e é extremamente complexa a apuração destes tributos. A reforma tributária é algo que se impõe”, define Sampaio. “É um absurdo o que se paga de imposto, tanto o consumidor quando o próprio lojista. É o principal problema”, concorda Alves, lembrando que uma desoneração poderia abrir perspectiva de melhor remuneração aos funcionários.
Martinello revela que o imposto único seria o ideal, mas admite a dificuldade para que mudança ocorra. “Uma reforma tributária, sem dúvida, seria a melhor coisa que poderia acontecer para nosso comércio. Aliás, para o povo brasileiro em geral. A dificuldade em relação aos impostos e à burocracia é muito grande. O custo é muito grande. Mas sabemos da dificuldade de uma reforma. Se nós conseguíssemos implantar o imposto único seria um sonho realizado, uma grande força para o comércio. E um pouco menos de burocracia. Tem muitas leis que são aprovadas e não são cumpridas porque não tem como fiscalizar”, argumenta.
Caderneta, intuição e intimidade
Que o jeito de trabalhar com comércio mudou rapidamente e radicalmente é inegável. Com a chegada da Internet e a popularização dos cartões de crédito e débito, trazendo novas formas de compra e pagamento, a relação comerciante/consumidor sofreu alterações. A “nova ordem” trouxe mais segurança ampliou as possibilidades nas relações de compra e venda, mas deixa saudade de um jeito antigo de fazer comércio, mais pessoal e humano.
Paulo Martinello lembra da famosa cadernetinha, do fiado, que era avalizado na confiança entre comerciante e consumidor. “Você ia lá e comprava no fio do bigode. Hoje não tem mais nada disso. Hoje, o cheque já discriminado. O que vale é o cartão de crédito ou débito. Hoje, a loja já fica até receosa de pegar um cheque pré-datado, tem que ter muita confiança naquele consumidor, saber que é um consumidor que está ali há anos. Sinto falta do tempo que se assinava uma notinha e sabia no trigésimo dia vencia a primeira e, depois, vencia outra... Mas não volta mais”, conforma-se.
Walace Garroux Sampaio recorda o domínio prático que imperava entre os comerciantes e a prerrogativa de se preocupar apenas com sua empresa em um mercado menos acirrado. “A falta que os comerciantes têm é daquele conhecimento mais intuitivo, ou seja, você tinha um conhecimento prático. Hoje, somente a prática não é suficiente, há uma necessidade do comerciante se aprimorar permanentemente, acompanhar as tendências do mercado, que mudam muito rapidamente e acompanhar o comércio eletrônico. Hoje, o ambiente concorrencial é muito maior do que no passado”, analisa. “Você tem que estar com o olhar muito mais voltado para fora de sua empresa. Antigamente, você olhava praticamente apenas para dentro dela”, comenta.
A relação mais íntima com o cliente, com vendedores com instinto natural para o comércio, é o que desperta saudade em Aldemiro José Alves. “Eram vendedores que gostavam do que faziam, eram feras. Ganhava-se muito bem consequentemente. Hoje, as pessoas estão sumindo do mercado. Em qualquer área a qualificação está difícil. Tem também muito autoatendimento e não tem mais vendedores que chegam no cliente, pegam, por exemplo, o telefone para ligar quando um produto chegar, que têm aquele contato”, conclui.