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Da Batista à Zona Sul

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 7 min

Da rua Batista de Carvalho à avenida Getúlio Vargas são apenas dois quilômetros. Apesar de curto, este trajeto foi trilhado pelo comércio bauruense em algumas décadas. Do surgimento, estabelecimento e apogeu no Centro, foram aproximadamente 60 anos de avanço contínuo rumo à Zona Sul, reivindicando novas “fronteiras comerciais” pouco a pouco e estabelecendo o principal eixo comercial bauruense: Batista-Getúlio. Com o crescimento da cidade, o comércio também se fortaleceu nos bairros e ganhou peculiaridades em cada comunidade, além de vitalidade, oferecendo produtos e serviços sem a necessidade dos moradores irem ao Centro.

O comércio na zona central de Bauru teve início na rua Araújo Leite, principal via na época e referência no arruamento do Centro. A expansão da Batista surgiu a partir da construção da Estação da Noroeste, de acordo com o historiador e jornalista Luciano Dias Pires. “O pessoal que ia trabalhar na Noroeste, operários que moravam na Araújo Leite, faziam aquele caminho de terra até a estação”, conta. Atentos, alguns comerciantes começaram a instalar lojinhas naquele percurso. “Aquilo foi crescendo, crescendo até que recebeu o nome de Batista de Carvalho, tirou da Araújo Leite toda a importância comercial e passou a ser o centro nervoso, financeiro e comercial de Bauru”, relata o historiador.

Nas primeiras décadas do século passado, alguns estabelecimentos marcaram época no Centro de Bauru, não só na rua Batista de Carvalho, mas também na avenida Rodrigues Alves e na rua Primeiro de Agosto. Pires cita a antiga Casa Sampaio, a Casa Pinto, Casa Vissotto, Casa Savastano Secos e Molhados, que contava com serviço de atendimento de bufê. “Tinha a famosa Casa Lusitana, na Rui Barbosa, esquina com a rua Gustavo Maciel, uma verdadeira loja de departamento como existe hoje. Dentro desta loja se vendia desde uma caixa de fósforo até tecidos vindos da China, casimira que vinha da Inglaterra, cristais da Boêmia. Ela vendia de tudo”, observa Pires.

O segmento de tecidos cidade contava com grandes lojas em Bauru como a Loja Síria, a Casa Royal, a Lojas Dabus, Casa Kaplan, Casa São Paulo e Casa Gebara. “Algumas vendiam até ternos feitos, mas isso não era muito procurado. Eram mais os sitiantes que compravam aqueles ternos feitos”, lembra Pires. No segmento de ferramentas, o historiador cita a Casa Rasi, a Casa Ribeiro e a Casa Pupo. Pires destaca que o comércio já contava com boa diversificação de produtos. “A Loja do Sol, por exemplo, vendia disco, rádio, geladeira... televisão ainda não tinha naquela época. E tinha a Casa Cristo também de eletrodoméstico”, recorda.

A relação com o cliente tinha uma característica própria da época, mais pessoal, humana. Em uma cidade menor, era comum o comerciante conhecer o consumidor e a confiança entre ambos norteava a relação. “Todas estas firmas comerciais desta época vendiam no sistema da caderneta. Você comprava, o cidadão anotava na caderneta, no final do mês somava a despesa, você pagava a conta e ganhava de presente uma lata de goiabada, uma lata de marmelada. Sempre ganhava presente”, comenta. Aquele jeito de trabalhar e os próprios estabelecimentos não resistiram ao “progresso”. “Foram lojas tradicionais que, com o passar dos anos, desapareceram completamente”, constata Pires.

Pós-guerra foi divisor de águas

As mudanças foram aceleradas pelo pós-Segunda Guerra Mundial. Com os Estados Unidos contando com uma gigantesca indústria de guerra, a estrutura que produzia armas foi direcionada para criar produtos comerciais, gerando, consequentemente e propositalmente, uma sociedade de consumo. No Brasil, como no restante do mundo, o reflexo foi rápido e a tendência das novas “leis de mercado” se impuseram. Bauru mudou com a chegada de novas firmas comerciais à cidade, invadindo o mercado dominado pelos locais. Grandes empresas dos maiores centros urbanos aportaram na “Sem Limites” se unindo às Casas Pernambucanas, o primeiro “gigante” a desembarcar em terras bauruenses no distante ano de 1919.

“Chegaram, por exemplo, as Lojas Americanas na Batista de Carvalho, o que foi uma grande novidade na época. Depois, teve a Drogadada. Na frente da Drogadada tinha uma lanchonete, sorveteria e era ponto de encontro da moçada que saia do cinema e ia lá tomar um lanche, um refresco. Era uma grande firma no ramo de medicamentos, uma rede muito grande. A inauguração foi um acontecimento, vieram autoridades, o presidente da entidade”, aponta Pires. O historiador relata que o comércio se acelerou, impulsionado pelo próprio rápido progresso de Bauru no pós-guerra. “Chegaram outras grandes firmas de São Paulo, como a Regional Clipper. A primeira Renner se instalou aqui e a cidade começou a ampliar seu comércio”, acrescenta.

Com as locomotivas da ferrovia puxando a economia bauruense, o comércio floresceu e o Centro ganhou o perfil comercial que mantém até hoje. “A Noroeste do Brasil injetava muito dinheiro no comércio através dos ferroviários. Muitos bancos funcionavam na Batista. Quando recebia o pagamento, este pessoal todo estava na Batista de Carvalho e Primeiro de Agosto pagando contas, fazendo compras”, explica Pires. Existia até uma disputa entre ruas pelo título de “capital comercial” da cidade. “A Primeiro de Agosto era uma espécie de rival da Batista de Carvalho em termos de comércio”, diverte-se Pires.


Rumo à Zona Sul

Luciano Dias Pires destaca que o comércio tradicional de Bauru passou a ser engolido pelas firmas que vieram principalmente de São Paulo e, com o tempo, já “globalizado” migrou rumo à Zona Sul da cidade. “Outras empresas de Bauru nasceram e nosso comércio saiu da Batista, atingiu todas as ruas verticais. Você passa nas avenidas Getúlio Vargas, Nossa Senhora de Fátima, Nações Unidas e estão lá lojas sofisticadas, riquíssimas, substituindo aquele antigo comércio da rua Batista”, verifica. Alguns estabelecimentos tradicionais resistiram à invasão e se mantêm. “A Casa Carvalho continha na Batista, a Casa São Jorge continua na rua Azarias Leite”, destaca. As duas lojas estão entre as mais antigas em atividade ininterrupta em Bauru.

Até pela grande concentração de estabelecimentos e problemas de estacionamento, o comércio passou por descentralização e invadiu bairros adjacentes. A expansão comercial na cidade primeiro atingiu os Altos da Cidade, bairro com perfil originalmente residencial. “Foi natural esta transferência do comércio para os Altos da Cidade. Antes era tudo residência”, constata Pires. O avanço do comércio segue firme para a Zona Sul e as avenidas Getúlio Vargas, Nossa Senhora de Fátima, Comendador José da Silva Martha tornaram se importantes corredores comerciais. Além disso, a região passou a concentrar boa parte da vida noturna de Bauru, com bares, boates e restaurantes.


Graxa, jornais e concurso de vitrines

Um passeio pelo Centro de Bauru nos finais de semana ali pelos anos 40, 50 poderia passar por alguns rituais típicos da época. O bauruense chegaria ao centro nervoso da cidade, circularia pelas ruas para ver o movimento, compraria um jornal e, enquanto se inteirava das novidades, aproveitaria para engraxar o sapato. “Na Primeiro de Agosto tinha o Salomão Gantus, distribuidor de jornais, que vinham de São Paulo para Bauru de trem. Ele tinha uma loja instalada em frente ao Dante Alighieri e, ali, vendia todos os jornais de São Paulo e revistas daquela época”, discorre o historiador e jornalista Luciano Dias Pires. A leitura e o brilho no “pisante” eram obtidos no mesmo local. “Lá, tinha a parte de salão de engraxates. Então, todo sábado você ia engraxar o sapato. Eram umas dez cadeiras e, às vezes, fazia fila para engraxar o sapato. Hoje, não tem mais, todo mundo usa tênis, acabou”, diverte-se.

Já informado e com o sapato devidamente limpo e lustrado, o bauruense encomendaria um terno sob medida, adquirindo o tecido nas muitas lojas especializadas disponíveis e deixando a confecção aos cuidados dos alfaiates da região. Mais tarde, encontraria a namorada, tomariam um sorvete na lanchonete da Drogadada, ouvindo no rádio uma das músicas de Francisco Alves, o “Rei da Voz”, e o apaixonado rapaz entregaria aquele presente comprado, antes, na Casa Lusitana - quem sabe até mimo importado - e ambos poderiam registrar aquele momento feliz na própria Batista de Carvalho. “Tinham os fotógrafos instalados na Batista. O Giaxa, que era o fotógrafo mais tradicional de Bauru, por exemplo. Tinha também o Foto Chamorro, na Primeiro de Agosto”, relata Pires.

Já à noite, o casal poderia encerrar o passeio apreciando as vitrines da Batista de Carvalho, atividade muito concorrida. “À noite, as vitrines era todas iluminadas. Os casais de namorados ficavam desfilando pela Batista de Carvalho e vendo os produtos à venda. Tinha concurso de vitrines, patrocinado pela Associação Comercial. Era uma festa naqueles áureos tempos”, conclui Pires.

 

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