Diz-se de um homem, ainda jovem, que não recusava um convite à uma boa "garfada". Sempre que lhe sugeriam que comesse, qualquer tipo que fosse de comida, sempre aceitava. Dizia que não poderia perder a oportunidade de provar, quando não conhecia aquele prato e, quando já conhecia, aceitava, pois havia gostado quando provou. Comia por prazer, por apetite, muito mais que por necessidade.
O esperado fim foi que muito adoeceu e precisou de reeducação para evitar danos mais graves à saúde, e para amenizar os já inevitáveis. Aprendeu a recusar as sugestões de gulodice. As sugestões de gulodice, nesta pequena história, traduzem uma outra gulodice de nossa época: a de informação.
Dizem que informação pode lhe ajudar a escolher o melhor caminho a seguir. Esta afirmação é bem pouco verdadeira, pois que para uma informação ter, efetivamente, tal utilidade, é preciso que, primeiramente, se saiba qual caminho deseja, e, após, que a informação sugerida seja realmente útil.
Estes dois requisitos apontados quase nunca nos ocorrem. Isto porque a informação, a sugestão, acaba por nos direcionar o caminho, e não nos ajudar no nosso próprio caminho, pois não temos, com a firmeza necessária, um caminho pré-estabelecido. A sociedade de consumo cria caminhos, estilos de vida e de comportamento. Estabelece as ideias, o modo de ver o mundo que nos rodeia, e caímos de gaiato no navio das sugestões.
Resolvemos juntar dinheiro suficiente para comprar aquele telefone celular dos sonhos e, quando conseguimos juntar o dinheiro suficiente, lançam um modelo mais novo, mais sofisticado e, claro, bem mais caro. O que fazemos com o dinheiro e com o sonho? É fácil perceber: assistimos ao noticiário relatando o problema do trânsito. Nos preocupamos, por vezes ficamos revoltados, mas, por poucos minutos, até que o intervalo comercial anuncia a promoção de um belo automóvel e logo pensamos: "Como queria comprar este carro". Assistimos a um programa sobre saúde e cuidados com a alimentação e pensamos, novamente, por breves minutos, que devemos cuidar do modo com que nos alimentamos, minutos estes que duram até o comercial da rede de fast food.
Sugestões diversas, e quase sempre contraditórias, somente não causam dúvida, ansiedade, medo, naquele que sabe aceitar tão somente as sugestões que realmente lhe interessem, e que se adequa aos seus anseios, suas vontades, sua forma de ver o mundo. Só sabe recusar as sugestões quem sabe o que quer.
O autor, Mário Henrique da Luz do Prado, é colaborador de Opinião