A violência estaria migrando da Capital para o Interior? A resposta afirmativa a esse questionamento foi uma das conclusões do Mapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil, que foi divulgado ontem. Bauru é apontada como um dos exemplos dessa realidade preocupante. A pesquisa mostra que a taxa de homicídios na cidade é mais alta do que na própria Capital. A polícia, porém, argumenta que não é possível fazer tal análise.
O Mapa da Violência analisa dados do Subsistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, é elaborado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e publicado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela) e Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso).
Os dados da análise mais recente são referentes a 2011 e, entre diversos contextos da violência nacional (leia mais abaixo), mostram que a proporção de mortes em Bauru não é pequena. Naquele ano, a cidade registrou 47 homicídios. Na Capital, foram 1.347 pessoas assassinadas.
O problema, porém, surge ao verificar a taxa proporcional à população de cada cidade. O índice do estudo é calculado com base em cada 100 mil moradores. Assim, a taxa de homicídios em Bauru fica em 13,6, enquanto, na Capital, o índice é 11,9.
“É o que chamamos de interiorização, quando os polos dinâmicos da violência se deslocam das capitais e/ou regiões metropolitanas rumo ao interior dos Estados”, explica o estudo. “Trata-se, em realidade, de uma única mudança que vai de umas poucas metrópoles rumo a cidades de menor porte, seja no interior dos Estados, seja em outros Estados”, complementa.
Nos dados da pesquisa, o número de homicídios na Capital confeccionou uma curva somente decrescente. Em 2009, foram 1.681 assassinatos. No ano seguinte, 1.535. Até chegar em 2011, com 1.347 ocorrências.
Em Bauru, a evolução foi praticamente inversa. 2009 registrou 41 assassinatos. Já em 2010, foram preocupantes 54 vítimas fatais, enquanto, no ano seguinte, 47 casos.
Apesar da quantidade de homicídios, a cidade está longe de ser uma das mais violentas. Neste ranking dos locais onde há mais assassinatos, Bauru ocupa somente a 86.ª posição no Estado e a 1.005.ª em todo o País.
Crime pontual
Mesmo diante do estudo, a Polícia Militar (PM) aponta que não é possível falar em migração de homicídios para o Interior. Segundo o oficial de Relações Públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra, o homicídio é um crime muito pontual.
“Pelo que conheço da região, não dá para falar que isso esteja ocorrendo. Se pensar em crimes contra o patrimônio, pode-se até traçar essa migração. Porém, não nos crimes contra a vida”, teoriza.
De acordo com o capitão, o que ocorre hoje, em todo lugar, é uma banalização muito grande da vida, o que resulta nos assassinatos. “Algo que mudou na nossa região nesses últimos anos foi a transformação de penitenciárias em unidades de regime semiaberto. Mas isso pode ser apenas um fator”.
O oficial ainda faz a ressalva de que, de 2011 a 2013, Bauru teve estabilidade nos casos de homicídio, apresentando até certa “tendência de queda”. “Como é um crime pontual, o trabalho da polícia é prender os agressores e apreender armas de fogo e brancas das ruas”, finaliza Alan Terra.
Acima do aceitável
Vale lembrar que, em referência aos assassinatos, tanto Bauru quanto São Paulo estão além do limite considerado aceitável de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).
O órgão aponta que tal índice seria de um caso para cada 10 mil habitantes. Assim, em 2011, Bauru deveria ter tido, no máximo, 35 homicídios. Na Capital, seriam 1.132 vítimas fatais naquele ano.
Bauru tem baixo índice de violência contra jovens
Quando se fala no homicídios de jovens, porém, a situação de Bauru é menos preocupante. De acordo com o Mapa da Violência divulgado ontem, a taxa de jovens assassinados em 2011 foi de 17,6. Naquele ano, o índice da Capital foi de 20,1.
Fora a comparação com São Paulo, outros dados mostram que a situação é boa. Entre 2009 e 2011, a quantidade de jovens assassinados não cresceu. 2009 e 2010 registraram 12 casos cada e 2011, dez vítimas fatais.
Para se ter uma ideia, dos 573 municípios com mais de 10 mil jovens, Bauru, com 57 mil pessoas nesta faixa etária, ficou apenas na posição 447 das mais violentas.
Em 2012, o JC já havia divulgado que a situação da juventude em Bauru era “confortável”. Com base nos dados do Mapa da Violência daquele ano, a cidade ficou de fora dos 100 municípios mais violentos para a faixa etária compreendida entre 0 e 19 anos.
Além dos homicídios, aquele estudo compreendia ainda outras situações de violência, como acidentes no trânsito e suicídios.
Na reportagem veiculada em 17 de julho de 2012, o mesmo quadro positivo foi comprovado no tocante à violência física e sexual contra jovens na cidade.