Empurrou para dentro da cozinha a velha bicicleta e o botijão de gás e armou a geringonça que dispararia barulhenta buzina se sua casa mais uma vez fosse invadida, enquanto a mulher aprontava as crianças. A menina com a creche em férias ficava com a vizinha (R$ 5 por dia com comida) e o menino iria para a escola porque a greve dos professores por melhoria da escola pública prorrogara o calendário. O velho automóvel cheio de pontos de ferrugens e com pneus quase lisos não poderia ser usado enquanto a rua continuasse intransitável com imensos buracos após as chuvas. Não tinha conta em banco e de discreto esconderijo situado num pé oco da cama tirou duas notas para pagamento, no intervalo do almoço, da conta de água na lotérica ao lado do emprego, mais uma vez lamentando o assalto sofrido pelo vizinho que iria pagar com dinheiro vivo seu IPTU num banco do Centro.
Sabia que a prefeitura demorava em cobrar e no futuro, talvez com o 13.º salário, haveria de dar um jeito. Homem, mulher e menino saíram juntos desviando dos buracos até a rua asfaltada pela qual passavam os ônibus. A mulher seguiria a pé para o emprego e o homem e o menino esperariam o ônibus, que costumava passar quase no horário apinhado pelos mesmos passageiros de todos os dias. O motorista era camarada, fingia não ver o menino passar por baixo da catraca e sempre parava fora do ponto bem defronte do portão da escola para que os pais acompanhassem a entrada das crianças em segurança. Despediu-se da mulher combinando encontrá-la no fim do dia no pronto-socorro para saber da sogra que desde alguns dias aguardava em maca vaga hospitalar para cirurgia de vesícula e, se chegasse em tempo de expediente aberto da farmácia pública, aproveitaria para saber, como vinha fazendo desde muitos dias, se a medicação de uso contínuo indispensável para a asma da menina finalmente chegara.
E seguiu no ônibus superlotado, filando com olhar esticado o JC do passageiro vizinho com notícias sobre aviões do governo usados para ir a casamento e a jogo da Seleção e sobre os últimos protestos, imaginando que se os protestos fossem nos domingos talvez pudesse participar desde que não atrapalhasse nem a igreja da manhã e nem o futebol da tarde. Apesar das coisas, a vida não estava tão ruim. Tinha emprego com carteira assinada e a mulher, mesmo sem carteira assinada enquanto tivesse pendência trabalhista num processo que não acabava nunca, também tinha emprego certo, moravam numa casinha quase paga e tinham automóvel, usado quando a rua esburacada permitia circulação. Mas no dia a dia da vidinha tinha alguns pontos especiais de desconforto sobre o prometido asfalto que não vinha, sobre o excesso de buracos e de pivetes atormentando os moradores do bairro, sobre a falta constante de água, sobre o preço do ônibus e sobre a creche e a escola que os próprios professores reclamavam que não eram boas e isso justificava somar seu protesto aos protestos coletivos dos outros, ainda que ignorasse as causas dos protestos de cada um.
Esses fragmentos fictícios de momentos de vida carregados de verdade diante do ambiente de nossas periferias revelam a existência de multidões de brasileiros que não protestam, não invadem e nem cometem atos de vandalismo e que enfrentam pacientes e silenciosas a batalha de cada dia com mínima dignidade num quadro nacional de histórica indignidade, apesar do que vem proclamado na Constituição. Essas multidões anônimas e desorganizadas precisam se tornar preocupação primeira e imediata dos governos porque rompido o silêncio delas o perigo se aproximará das portas dos palácios e gabinetes sem que estejam disponíveis justas e razoáveis explicações e justificativas que possam afastar desdobramentos trágicos e indesejados por parte daqueles que vêm mantendo contidas suas indignações por muitos e muitos anos ou por quase toda a vida. Se ações efetivas e concretas perfeitamente identificáveis não vierem logo pode ser que, então, seja um pouco tarde e providências extraídas das cartolas no sufoco podem não ser nem o bastante e nem o suficiente para aplacar as multidões silenciosas e desorganizadas.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado