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Retração

Antonio Delfim Netto
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Estamos chegando ao sexagésimo mês desde a eclosão da crise de 2008 no mercado financeiro americano e a economia mundial continua em retração. Na Comunidade Europeia - com exceção da Alemanha, que cresce moderadamente e tem baixo nível de desemprego - não se espera crescimento para este ano, com suas taxas de desemprego sinistras sustentando o namoro com o caos social; os Estados Unidos - que desde o início do ano ameaçam retomar um ritmo decente de crescimento - aparentemente "puseram as barbas de molho" diante da fraca reação da oferta de emprego nos cinco primeiros meses, forçando o presidente do FED, Ben Bernanke, a manter por mais algum tempo a escandalosa política de afrouxamento monetário, pelo menos até que a taxa de desemprego caia abaixo de 7%, que ele considera a melhor indicação de retomada firme da atividade econômica.

Os Estados Unidos (e também o Brasil, pela parceria comercial) já estão tendo de lidar com as "ondas de choque" da desaceleração da economia da China, que pela sinalização do presidente de seu Banco Central, Zhou Xiaochuan, não terá como escapar do "doloroso ajuste", o que foi interpretado pelos "mercados" como o aviso de que o gigante chinês vai se contentar com um crescimento do PIB de "apenas" 7% ao ano, no curto prazo. Uma impressão sublinhada talvez pela singeleza da justificativa do Sr.Zhou, conforme registro na mídia: "Há muitos fatores instáveis e incertos e bastante pressão descendente sobre a economia"...

O Brasil sofre as consequências dessa retração da economia mundial, mas está longe de entrar em estagnação. Nós vamos crescer menos, sem poder contar com estímulos externos. Internamente precisamos melhorar os níveis de confiança entre o setor privado e o governo. A esperança de um crescimento do PIB superior a 2% este ano reside na possibilidade de sucesso nas concessões para melhorar a infraestrutura dos transportes: em rodovias, estradas de ferro e a ampliação de instalações portuárias e dos leilões para as parcerias de exploração do petróleo do pré-sal.

É possível realizar leilões inteligentes neste segundo semestre, especificando claramente o que a sociedade espera das obras de melhoria da infraestrutura e nas condições que permitam ao mercado fixar as taxas de retorno dos empreendimentos. Não tenho dúvidas de que, atendidas essas condições básicas, o governo terá bons resultados.

Nossa economia já deu exemplos de superação das enormes dificuldades que teve de enfrentar na crise financeira. Apesar de manifestações pessimistas que ganharam espaço na mídia recentemente, organismos internacionais importantes estão reconhecendo publicamente que "o Brasil teve um dos melhores desempenhos econômicos do mundo, nos últimos cinco ou seis anos".

Isso aconteceu nos piores momentos da crise de confiança, que não apenas desorganizou profundamente os mercados financeiros, mas abalou (e continua abalando) a crença de muitas sociedades democráticas no funcionamento do regime de mercado e do próprio sistema representativo.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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