Dezenas de islamitas foram mortos ontem no Egito durante a madrugada no que pode vir a ser o pior episódio de violência desde a deposição do presidente Mohammed Mursi, em 3 de julho.
De acordo com a Irmandade Muçulmana, organização à qual Mursi está ligado, as forças de segurança dispararam contra manifestantes antes das preces do amanhecer, durante uma vigília pacífica em prol da restituição do islamita à Presidência.
Há controvérsia a respeito do número de mortos. Enquanto o Ministério da Saúde diz que foram 29 vítimas, a Irmandade informou, durante entrevista, terem sido mais de 200 mortos.
“O governo está falsificando a contagem”, diz Laila Musa, porta-voz da Aliança Anti-Golpe, da qual a organização islamita faz parte.
“Houve ataques desde as 2h da manhã em nosso protesto pacífico. A polícia tentou nos retirar à força. Os hospitais estão recebendo mais mártires”, diz.
O Ministério do Interior apresenta outro relato. Em comunicado, o órgão afirma que “em uma tentativa deliberada de escalar a crise, manifestantes marcharam [da mesquita] Rabia al-Adawiya para bloquear as ruas.”
Segundo o governo, as forças de segurança agiram para liberar as vias, após islamitas incendiarem pneus e entrarem em confrontos com os moradores dos entornos.
Em coletiva de imprensa, o ministro Muhammad Ibrahim afirmou que as manifestações de grupos islamitas serão “resolvidas em breve”.
Ele disse ainda que há um arranjo entre o ministério e as Forças Armadas para dispersar os protestos “de maneira a evitar baixas”.
Diante da situação crítica, o governo egípcio anunciou ontem que irá reinstaurar departamentos extintos nas forças de segurança para o monitoramento de atividades políticas e religiosas. Essas prerrogativas haviam sido abolidas durante uma reestruturação técnica, após a insurgência de 2011.
Ultimato
Venceu ontem durante a tarde o ultimato dado ao Exército para que a Irmandade Muçulmana concordasse em fazer parte da transição política liderada pelo presidente interino Adly Mansur. A organização islamita se recusa, porém, a reconhecer a autoridade do governo instituído após um golpe militar.
Não estava claro quais serão as consequências para a Irmandade, ao não aderir aos chamados do governo.
Mursi, detido e incomunicável desde sua deposição, é acusado pela conspiração com a facção palestina Hamas para a sua fuga de uma prisão no norte do país, em 2011. Outros líderes da Irmandade estão detidos ou sob uma ordem de prisão.
O Ministério do Interior afirmou, ontem, que o ex-presidente “provavelmente” deverá ser transferido à prisão de Torah - onde está detido, também, o ex-ditador Hosni Mubarak, deposto durante a Primavera Árabe, em 2011.
A deposição de Mursi tem sido criticada pela comunidade internacional nas últimas semanas e colocou os EUA em uma saia justa diplomática, uma vez que o país tem de interromper seu auxílio financeiro ao Egito a partir do momento em que classificar a transição política como um golpe de Estado. “As pessoas que foram à Tahrir deram um mandato ao Exército para a violência e são, portanto, conscientemente cúmplices do massacre de hoje (ontem)”, diz o ativista Omar Robert Hamilton.