Em pleno aniversário de Bauru, a alegria da data contrastava com a situação da saúde na cidade. No Pronto-Socorro Central (PSC), 37 pessoas aguardavam uma vaga de internação pela manhã. O problema foi tamanho que, sem leitos para atender a todos, macas que chegavam com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram usadas. Com isso, viaturas, que deveriam estar socorrendo a população, ficaram paradas no pátio do PS.
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João Rosan |
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Lotação do PSC e falta de vagas de internação tem afetado até mesmo o atendimento do Samu |
A situação alarmante foi denunciada pelo Conselho Gestor da unidade e confirmada pelo próprio município. De acordo com o que a reportagem apurou, teve viatura do Samu que ficou mais de 40 minutos parada esperando o “retorno” da maca.
Segundo o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, o PSC conta atualmente com 20 macas e 15 leitos. “Consigo, então, deixar 35 pacientes deitados. Algumas vezes, quando não é suficiente, acabamos tendo que deixá-los em cadeiras de rodas”, revela.
O improviso, contudo, não se restringe a deixar os pacientes em cadeiras de rodas. “O que ocorre é que nossas viaturas chegam e a maca entra com o paciente. Como não tem leito para colocá-lo, ele acaba ficando na nossa maca mesmo”, relata uma funcionária do Samu, que pediu para ter a identidade preservada.
Com isso, a viatura fica estacionada no PSC, aguardando a volta da maca após findar o atendimento do paciente levado até lá ou a liberação de um leito.
Ricardo Barbosa, coordenador do Conselho Gestor do PSC, e o próprio Sabbag confirmam o preocupante sintoma da superlotação da unidade de urgência e emergência. A divergência está apenas nas situações em que isso vem ocorrendo.
“Isso ocorreu na manhã de quinta-feira, exatamente por conta do número de pacientes que estavam lá aguardando uma vaga de internação”, afirma Luiz Sabbag.
Contudo, segundo Barbosa, é algo que não ocorre de forma esporádica. Pessoas de dentro do Samu também disseram que o problema é frequente. “Sabemos que o mesmo vem ocorrendo com as Unidades de Resgate do Corpo de Bombeiros que levam pacientes até o PS”, disse um funcionário.
Lotação
Na sexta-feira, 31 pessoas ainda aguardavam nos corredores do pronto-socorro por vagas de internação. O diretor do DUE afirma que a greve dos funcionários da Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp), que já se arrasta ao seu 12.º dia e sem previsão para acabar, está deixando ainda pior a questão crítica da falta de vagas.
“No começo da greve, sentimos esse efeito. Mas, depois, normalizou. Nesta semana (semana passada), voltamos a sentir. Na quarta e na quinta, a situação ficou complicada. Tanto que, na quinta, 37 pessoas estavam aguardando uma vaga”, relata Sabbag.
Ainda de acordo com ele, o HE enviou um ofício dizendo que, exatamente por conta da paralisação, está mais difícil conseguir internações na unidade.
A assessoria de comunicação da Famesp foi contatada para saber tais supostos efeitos, porém, não retornou à reportagem.
18 ‘contemplados’
Da grande demanda de pacientes à espera de uma vaga, na semana passada, 18 conseguiram a internação. “Nesta semana, a Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross) regulou 39 pacientes da região de Bauru, 18 deles (isto é, 46%) provenientes do pronto-socorro municipal de Bauru para diversas unidades estaduais”, disse, por meio de nota, a assessoria de comunicação da pasta.
Além de criticar “a falta de investimentos do poder público municipal de Bauru”, o Departamento Regional de Saúde (DRS) afirmou que também cumpriu integralmente todas as 14 determinações judiciais para regulação de atendimento na semana passada.
“É importante frisar mais uma vez que um estudo realizado pelo DRS constatou que, das cinco principais causas de internações solicitadas pelo município, três fazem parte da rede de assistência básica à saúde, sob a responsabilidade da esfera municipal – pneumonia, insuficiência cardíaca e transtornos de trato urinário”, criticou, em nota.
Lei que torna pública lista de espera em hospitais passa a valer amanhã
Aprovada em junho, a lei que obriga a prefeitura de Bauru a dar publicidade aos casos de pacientes que esperam, nas unidades municipais de urgência e emergência, a liberação de leitos hospitalares começa a valer amanhã.
Na lista, irão constar os nomes daqueles que aguardam 48 horas ou mais dias pela internação. A relação deverá ser publicada em todas as edições do Diário Oficial de Bauru, no site da prefeitura e em cartazes nas unidades de saúde.
Serão divulgadas as iniciais dos pacientes; o número do documento de entrada; a idade; o sexo; a cidade em que reside; a data em que o paciente entrou na unidade; a data, o dia e a hora em que foi solicitado o pedido de internação; para qual hospital foi dirigida a solicitação; além do tipo de internação (UTI, leito normal, outro).
Além desta lei, número reduzido de leitos hospitalares em Bauru gerou também a instauração de inquérito civil por parte do Ministério Público Federal (MPF), além de ter culminado em mortes, como a da jovem Drielly, em julho do ano passado. Outros óbitos de pacientes à espera de leitos, principalmente de UTI, foram divulgados pelo Jornal da Cidade ao longo de 2013.
PSC teve nova morte à espera de vaga
Na sexta-feira, foi publicado nas redes sociais que sete pessoas haviam morrido no PSC de Bauru. O munícipio nega o fato. A informação oficial é de que “só” foi registrado um óbito à espera de internação.
“Havia uma pessoa na Unidade de Pacientes Graves (UPG) que acabou falecendo. Ela realmente estava esperando uma vaga”, confirma o diretor do DUE, Luiz Antônio Bertozo Sabbag.
Por conta de ser ponto facultativo na sexta-feira, não foi possível precisar o estado em que o paciente chegou à unidade e tampouco há quantos dias ele aguardava uma vaga.
A carência nos leitos de internação é um fantasma que assusta os bauruenses há algum tempo. Conforme o JC noticiou no último dia 27, três pessoas morreram no PS à espera de uma vaga. Há um ano, a cidade teve um dos casos mais simbólicos, quando a estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, morreu nas mesmas circunstâncias.
Não é de agora
A discussão em torno das responsabilidades do município na retaguarda hospitalar ganhou força após a morte da jovem Drielly Carla Alves de Brito, que foi a óbito aos 22 anos, em julho do ano passado, enquanto aguardava a liberação de leito hospitalar no PSC.
Em meio à campanha eleitoral de 2012, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) e o Estado discutiram a transferência da gestão do Hospital de Base para o município. A proposta não vingou e, agora, cogita-se que a Fundação Regional de Saúde possa assumir esse papel em médio ou longo prazo.
O vereador Raul Gonçalves Paula (PV), na última sessão legislativa, defendeu a construção de um hospital municipal. “Portarias do Ministério da Saúde disponibilizam R$ 100 mil para cada leito de UTI”.
A vereadora Telma Gobbi (PMDB), também na última segunda-feira, fez um desabafo sobre os problemas da saúde e o que chamou de “empurra-empurra” de responsabilidades.
Câmara quer ‘leitos’ com reforma
Há anos, as cenas no Pronto-Socorro Central (PSC) são as mesmas: pacientes amontoados nos corredores do prédio, em sua maioria, esperando a liberação de vagas hospitalares. Essa responsabilidade, de fato, não é da Prefeitura de Bauru. No entanto, vereadores trabalham para viabilizar a criação e ampliação de leitos na unidade, que deverá ser reformada a médio prazo.
Presidente da Câmara Municipal, Sandro Bussola (PT) convocou setores da administração e da sociedade civil para discutir o assunto no dia 7 de agosto. Segundo o petista, há um projeto que pleiteia R$ 3 milhões para a obra junto ao Ministério da Saúde.
“Apesar do alto valor, a ampliação de leitos não está contemplada. É um absurdo. Não podemos persistir nesse jogo de empurra. Se o Estado não faz sua parte, o município não pode se furtar de fazer a sua. Pouca gente sabe, mas já existe uma mini UTI no Pronto-Socorro”, defende o vereador.
Ele entende que, mesmo com a impossibilidade de tratar a doença com as mesmas condições oferecidas por um leito hospitalar comum ou de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o PSC deve oferecer dignidade à população que espera pelo atendimento adequado. “O que não pode é continuar do jeito que está”, frisa Sandro.
Foram convocados para a audiência pública os secretários municipais de Saúde, Obras e Planejamento, Fernando Monti, Sidnei Rodrigues e Paulo Ferrari, respectivamente.
O presidente do Legislativo também convidou o Conselho Municipal de Saúde, Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm) e a Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag).
“Queremos discutir a necessidade desses leitos no projeto de reforma sobre todos os aspectos. Além da questão da assistência, as possibilidades físicas. Em razão disso, fiz questão de chamar a Assenag. Entre a terra e o céu, existe bastante espaço. Então deve haver um jeito de viabilizar a criação dos leitos”, pontua Bussola.
Só ‘porta de entrada’
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) contesta a proposta, alegando que o PSC é apenas a porta de entrada para os pacientes e não um hospital. Questionado sobre a necessidade de um local para, ao menos, humanizar o atendimento, ele responde: “Não há como fazer leito pela metade”.
Imediatamente, o peemedebista recuou ao afirmar que, dentro das possibilidades, é possível fazer adequações ao projeto de reforma. “Só é difícil porque o terreno não comporta”, alega.
Rodrigo se defende, dizendo que as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) já possuem estruturas melhores em relação ao PSC. “Vamos fazer algo bem parecido. Inclusive, brincamos dizendo que a unidade vai virar um Upão”.