Tribuna do Leitor

Reflexões sobre a greve da Saúde


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O país vive, desde o mês de junho, um despertar do poder coletivo. O povo anda a caminhar a esmo, fechando ruas e avenidas, tanto nas grandes, como nas pequenas cidades. Vão sem aparatos, desguarnecidos de qualquer proteção, abandonam suas casas e colocam-se como escudos humanos.

Nessa batalha, infelizmente, muitos jovens foram mortos covardemente por alguns que não entenderam a razão da luta. Outros, por conta de sua incauta vida, se deixaram dominar pela imprudência e desespero juvenis e para fugir de prováveis violências perderam suas vidas.

Comoventemente, vimos muitos de gerações anteriores, com 30, 40, 50 ou até 90 anos abraçarem a causa dos jovens e marcharem com eles. Era a união da experiência com o ímpeto. Equação esplêndida de sucesso! Era o povo moralizando a democracia, desbancando a política do bem viver para poucos escolhidos. O povo saía para relembrar os governantes que "democracia é o governo do povo para o povo", era o grito de basta dos oprimidos para um governo que deveria libertá-los e protegê-los.

Penso, então, no Tratado da Razão, escrito por Immanuel Kant em 1783. Nele, o filósofo e matemático prussiano questionava o fato de que a razão não pode ser apenas teórica, mas que ela deve responder de maneira prática a algo. Em palavras mais simples, Kant (1724-1804) estava dizendo: "Vocês acreditam em algo?" "Esse algo é ético e justo?" Não basta apenas falar sobre isso, é preciso agir racionalmente para defender aquilo em que acreditam. E foi isso o que, maravilhados observamos e ainda temos observado no Brasil.

"O uso da razão pública", proposto por Kant, ao final de 1700, ecoava pelas ruas do país, e a sociedade brasileira se impregnava de um clamor pela "ética e razão", mesmo a maioria nunca tendo ouvido falar de Immanuel Kant. E o que esse longo prelúdio tem a ver com os protestos dos médicos e da saúde pública no Brasil? Talvez porque devemos refletir sobre alguns aspectos. O primeiro diz respeito ao interesse, ou seja, "a quem ou ao que servem esses interesses? O que estão defendendo?" O segundo se refere à seguinte questão: "Por que apenas nesse momento? Se a saúde e todo o sistema de saúde pública no Brasil não estão funcionando como devem ou deveriam, e esses profissionais vivenciam e têm consciência disso, qual é a razão de tão poucos protestos?"

"Contra fatos, não há argumentos", a realidade é que as pessoas não têm sido atendidas humanamente nos prontos-socorros e hospitais e muitos têm morrido por falta de atendimento ou por um atendimento inadequado. Logo: "Como especialistas na área, quais são as propostas alternativas para um atendimento médico mais digno para a sociedade brasileira?" "Como permitir que usuários do Iamspe - todos os funcionários públicos estaduais em Bauru - não tenham um pronto-atendimento e nem um atendimento hospitalar há quase dois meses? E as nossas contribuições mensais?"

Como aplacar a tristeza e a indignação de familiares e amigos provocadas pela ausência inesperada de jovens, ainda na segunda década da vida, como os bauruenses Drielly e Thiago e outras tantas pessoas que tiveram suas existências ceifadas, sem explicação razoável em atendimento médico?

Como profissional da educação, posso dizer que os professores da educação pública paulista vêm honrando corajosamente sua responsabilidade pública ao denunciar constantemente os desmandos e desacertos de políticas públicas ineficazes e duvidosas. E se, em algumas vezes, nos calamos, foi porque estávamos desalentados quanto às nossas representações políticas e de classe. É o custo da democracia representativa.

No entanto, nunca deixamos de promover a conscientização de nossos educandos e por isso, sozinhos, eles se organizaram e reivindicaram suas vozes na construção democrática desse país... "Arrepio puro", "É adrenalina, moçada". Parabéns, meninos! Nos orgulhamos de vocês! Mas cuidado, esse "bebê democrático" gerado por vocês exige vigilância constante, ao mínimo descuido e "vupt"...já era! É preciso estar despertos!

Parabéns, brasileiros que agora "acordaram", a luta deve sempre ser por toda a sociedade brasileira, pelo fim dos conchavos e pela vitória do bem e da verdade! Vamos continuar lutando... Vamos honrar nossas vidas e construir uma história política mais digna para o Brasil!

Professora Solange Esmeralda

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