Apesar de todas aquelas flores, o ambiente era de muita tristeza. É que elas estavam desempenhando o mais triste de todos os seus papéis: enfeitar a morte.
Isso mesmo: elas compunham as coroas de flores, que, ali em grande número, são uma das maneiras mais significativas de demonstrar solidariedade e apoio às famílias que perdem um ente querido. E o jovem cujo corpo estava sendo aguardado era uma pessoa realmente querida, na acepção máxima da palavra. E a forma como tudo aconteceu tornava a situação ainda mais dramática: um acidente de carro ceifara cruelmente a sua vida. A previsão era de que o corpo chegaria às dezessete horas. Não chegou. Mas era compreensível: IML, necropsia, burocracia, etc. Depois, as previsões passaram para as vinte, vinte e duas horas. Ocorriam novos atrasos e novas previsões, mas as desculpas continuavam as mesmas.
Passava da meia-noite quando ocorreu a surpresa das surpresas: O moço (supostamente morto) chegou. E chegou andando com as suas próprias pernas. As reações foram as mais desencontradas: risos e lágrimas, espanto e alegria. Algumas pessoas chegaram a passar mal. Ninguém entendeu nada. Muito menos o "morto". Afinal, quem imaginaria voltar para casa e encontrar tudo pronto para um velório? Pior ainda: para o seu próprio velório?
Agora surge a questão: a cena descrita faz parte de um filme? Talvez de uma novela? Ou seria uma cena da vida real? Não sei se alguém arriscou um palpite, mas, se escolheu a opção mais improvável acertou: Trata-se da mais pura realidade. Entretanto, quem imaginaria que uma coisa dessas poderia acontecer? Mas ninguém precisa imaginar nada. Basta lembrar o que aconteceu.
Dois jovens - um de Bauru e outro de um distrito próximo - tinham alguma amizade. Que se fortaleceu sobremaneira quando ambos ingressaram na Polícia Militar e passaram a residir em São Paulo.
Estavam sempre juntos, no trabalho, nos passeios e nas vindas para casa. Num domingo à noite, conforme haviam combinado, encontraram-se no terminal rodoviário de Bauru. Aí surgiu um imprevisto: Só havia lugar para uma pessoa no (último) ônibus para São Paulo. E ambos teriam que se apresentar no dia seguinte, bem cedo. As consequências seriam desastrosas, caso não o fizessem. O bauruense não teve dúvidas: foram até sua casa, pegaram o seu carro e partiram para a Capital.
Já era tarde da noite, o "carona" estava dormindo e o motorista, segundo se presume, cochilou. O veículo capotou várias vezes e ficou imobilizado no acostamento, bem próximo a uma ribanceira. Os paramédicos chegaram e constataram a morte do motorista. Não havia indícios da existência de um acompanhante. Através dos documentos identificaram a vítima e avisaram a sua família, em Bauru. Em nenhum momento foi falado a respeito do acompanhante - mesmo porque ninguém sabia da sua existência. Entretanto, devido à gravidade do acidente, os familiares da vítima concluíram que os dois moços haviam falecido. E telefonaram para a outra família, dando a triste notícia.
Mas, o que teria acontecido com a outra vítima? Naquela época, não era obrigatório o uso do cinto de segurança. Muitos carros nem o possuíam. Pois bem: Com o impacto a porta se abriu, o carona foi arremessado para fora e despencou ribanceira abaixo, onde permaneceu desacordado. Muitas horas, recobrou os sentidos: Subiu a ribanceira e encontrou somente cacos de vidro - o carro já havia sido removido. Depois de muita insistência e várias caronas, conseguiu chegar em casa. Sem imaginar a surpresa que o aguardava.
São fatos que extrapolam, destruindo todos os limites e tornando impossível descobrir onde termina a realidade e onde começa a ficção.
O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador de Opinião