Fotos/Malavolta Jr. |
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Marcha em defesa da educação especial contou com participação maciça ontem |
Uma multidão formada por pais, educadores, cuidadores, funcionários e alunos matriculados em entidades que atendem pessoas com deficiência em Bauru saiu às ruas na manhã de ontem para protestar em defesa da educação especial. As manifestações se estenderam também a outras cidades da região.
Com cartazes, apitos, faixas e gritos, cerca de 500 pessoas, segundo estimativa feita pela Polícia Militar (PM), participaram ontem de uma passeata no Centro da cidade promovida pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e com apoio da Associação de Pais para a Integração Escolar da Criança Especial (Apiece) Bauru.
O protesto visa prestar apoio à aprovação por parte do Senado do texto da Meta 4 do Plano Nacional de Educação (PNE), que mantém a opção das pessoas com deficiência intelectual serem matriculadas nas escolas de educação especial.
Caso contrário, elas serão encaminhadas exclusivamente ao ensino regular, situação que decretaria o fim das escolas de educação especial, no entendimento das associações.
“Lutamos pela modificação da meta e para que as pessoas tenham o direito de escolher qual escola elas querem frequentar, se regular ou com acompanhamento técnico e especializado”, explica a psicóloga da Apae, Juliana Rodrigues Sigolo.
À frente da passeata, que saiu da praça Rui Barbosa por volta das 9h e terminou às 11h com protestos na escadaria da Câmara Municipal, a presidente da Apae, Olga Bicudo, reforçava o cenário negativo diante da proposta considerada inclusiva pelo plano.
“O governo federal não tem estrutura física e nem de recursos humanos para atender os alunos que hoje estão na rede especial. Foram mais de meio século de investimentos e pesquisas nas Apaes”, critica Olga.
Juntas, a Apiece e a Apae atendem um média de 600 pessoas com algum tipo de deficiência em Bauru.
No prédio do Legislativo, os manifestantes foram recepcionados pelos vereadores Telma Gobbi (PMDB) e Fábio Manfrinato (PR) e pelos assessores de Fernando Montovani (PSDB) e Lima Júnior (PSDB), que protocolou na Câmara uma moção de repúdio à meta e a favor da educação especial.
Membros do movimento Bauru Acordou também participaram da mobilização.
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A dona de casa Richarla Cruz com a filha Nicole: “Nós, pais, temos que decidir o que é melhor para nossos filhos” |
Descontetamento
O descontentamento frente à meta do PNE também era dividido pela cuidadora Maria Tereza da Silva, de 48 anos, que ajudava a portadora de deficiência física, Rita de Cássia Leal, 51 anos, a se locomover durante a passeata. “Tenho um filho autista na Apae e lá ele tem tudo o que precisa para se desenvolver melhor”, aponta a cuidadora. “Nas escolas comuns, a acessibilidade é precária e seríamos vítima de preconceito”, reforça Rita.
Com a filha Nicole, de 16 anos, matriculada há mais de dez anos na Apae, a dona de casa Richarla Marquezani Cruz, de 43 anos, também reclamava. “Somos nós, pais, quem temos que decidir o que será melhor para nossos filhos. Minha filha estudou em escolas comuns, mas foi descriminada. Tenho medo que ela volte a sofrer bullying se voltar para lá. Na Apae, ela se desenvolveu rápido, aprendendo a falar e a se alimentar sozinha”, conta a mulher sobre a filha que possui uma síndrome rara que causa atraso neuropsicomotor.
O ato realizado em Bauru aconteceu em outras localidades do País nas últimas semanas. Em Brasília, apoiadores das Apaes também se reuniriam, ontem, em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios.
A inclusão
Em matéria publicada em 26 de maio deste ano, o JC mostrou que as escolas parecem passar longe da inclusão. Na ocasião, o Ministério Público informou que recebe em média cinco denúncias por mês envolvendo estabelecimentos de ensino, principalmente unidades estaduais, que resistem em oferecer cuidadores para acompanhar crianças e adolescentes com alguma deficiência física ou cognitiva durante as aulas.
Na ocasião, a pedagoga Maria José Monteiro Benjamin Buffa defendeu a inclusão de pessoas na rede regular de ensino. “É uma forma de todos aprenderem a lidar com a diversidade e exercitar a tolerância e a solidariedade”, pontuou.
Dificuldades
Em matéria publicada pelo JC em julho do ano passado, a presidente da Apae, Olga Bicudo, já falava sobre a possibilidade da interrupção dos atendimentos e fechamento da unidade diante do déficit causado por dívidas acumuladas em R$ 600 mil na época, principalmente em decorrência da interrupção do teste do pezinho, maior angariador de fundos na história da entidade.
Em entrevista concedida ao JC ontem, Olga não informou o valor atual da dívida em questão, mas confirmou que a Apae continua lutando contra as dificuldades.
“Conseguimos saldar mais da metade da dívida e dispensamos funcionários para equilibrar a folha de pagamento. Também colocamos o prédio do laboratório à venda”, pontua.

