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Professor-mediador atua em conflitos

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 8 min

Arquivo/Neide Carlos

Gina Sanches revela que, no período de três anos da implantação do programa do professor-mediador em Bauru, conflitos graves não progrediram e os problemas menores não evoluíram

Aprender a conhecer, a fazer, a viver juntos e a ser. Esses são os quatro pilares do relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI para a Unesco, o Relatório Delors, elaborado e organizado em 1996 por Jacques Delors, político francês ex-presidente da Comissão Europeia. De acordo com o documento, a escola, hoje, tem a responsabilidade, além de transmitir o conteúdo pedagógico, de ensinar aos alunos as habilidades necessárias ao seu desenvolvimento social e pessoal. No contexto, a capacidade de resolução de conflitos ganha destaque. Neste conceito de educação se insere outro, o da justiça restaurativa em ambiente escolar, o que cria a figura do professor-mediador. O objetivo é, no caso de conflitos, não apenas punir, mas atender às necessidades da vítima com o “agressor” participando do processo, visando à reeducação e conscientização de ambas as partes.

Vale a lógica de que prevenir é melhor do que reprimir ou punir. Assim, o professor-mediador atua na detecção e na administração de conflitos, prevenindo a incidência e o avanço dos problemas de relacionamento para questões mais sérias. Quando intervém diretamente no conflito, o professor-mediador lida com casos de bullying, agressão, desinteligência, desavença, inimizade, desrespeito, implicância, zombaria e racismo, por exemplo. Bauru conta com 39 profissionais trabalhando na função na rede estadual de ensino - a cidade tem um total de 51 escolas estaduais. O professor-mediador, que existe em Bauru há três anos, trabalha com alunos do sexto ao nono ano do ensino fundamental e dos três anos do ensino médio e tem carga horária mínima de 20 e máxima de 40 horas por semana, optando por uma das duas jornadas.

Apesar de se afastar de suas aulas, dedicando-se exclusivamente à função, o mediador tem salário normal de professor. “Ele tem as suas aulas, mas se afasta para poder executar a mediação com mais tranquilidade. Ele faz o horário de acordo com a necessidade da escola, podendo atender na mediação de manhã, à tarde ou à noite”, explica Gina Sanches, dirigente regional de Ensino de Bauru.

De acordo com Sanches, o programa é expandido de acordo com a demanda das escolas e está implantado, atualmente, naquelas onde foi constatada sua maior necessidade. “São as que têm um maior número de conflitos e precisam deste profissional”, relata. “Conforme a escola vai sentindo a necessidade, vai solicitando a adesão a este programa e nós autorizamos a abertura deste programa lá e o profissional é selecionado”, explica a dirigente.

O professor-mediador surgiu, de acordo com Sanches, como uma exigência em função das mudanças cada vez mais rápidas na sociedade. “É a necessidade do dia a dia mesmo. Com pessoas de diferentes formações juntas no campo da escola e cada vez mais com a própria sociedade se modificando, percebemos conflitos entre alunos e mesmo entre alunos e professores que antes não tínhamos”, expõe. “Então, sentimos a necessidade de ter um profissional preparado - e a própria Secretaria de Educação tomou a iniciativa - para agir na prevenção de conflitos. Muito mais na prevenção do que quando os conflitos acontecem”, complementa.

O professor-mediador trabalha de acordo com necessidade da escola atendida. A demanda é que determina o período e faixas etárias que receberão atenção. O profissional age detectando problemas e atua na prevenção e intervenção quando o conflito ocorre e trabalha na formação, dinâmicas e orientação.

“Quando se percebe uma situação ou um professor indica ou mesmo um aluno ou funcionário traz uma situação que é interna da escola, o mediador vai até os alunos, conversa, chama os pais quando necessário, orienta os pais também, para que não aconteça um conflito maior”, observa Sanches. Caso o conflito ocorra, o próprio mediador, junto à direção da escola, cuida e, se necessário, dá outros encaminhamentos, esclarece a dirigente.

Além do trabalho direto, pontual na identificação e mediação de conflitos, o profissional executa ações complementares. “Ele faz trabalho de conversa com pequenos grupos, atende pais, chama os pais para orientação quando necessário e trabalha junto à direção da escola, passando as situações onde professores e alunos podem agir de outra forma, tendo outro comportamento. Faz também um trabalho mensal de formação, de estudo e acompanhamento dos casos que ele julga ter uma necessidade maior”, comenta Sanches.

Resultados

De acordo com Sanches, no período de três anos da implantação do programa do professor-mediador em Bauru, já é possível perceber resultados claros. A dirigente ressalta que conflitos sérios não têm progredido e os pequenos conflitos não caminham para casos mais sérios. “Quando o problema começa a acontecer, com a figura do professor-mediador, isso consegue se resolver de maneira mais rápida que antes. Porque é uma figura voltada para esta questão, de orientação, e não mais uma tarefa para o diretor, para o orientador, para que cada um possa desempenhar com mais tranquilidade suas funções”, conclui.


Eu sou professor-mediador

São 39 profissionais trabalhando diariamente nas escolas estaduais de Bauru para evitar ou minimizar os conflitos e melhorar os relacionamentos no ambiente escolar. Dois deles são José Silas do Nascimento Gonçalves e Rogéria Moura de Brito, que atuam nas escolas Azarias Leite e Vera Campagnani, respectivamente. Ambos falam sobre a escolha de ser professor-mediador e as implicâncias para desempenhar bem o papel e contribuir para o bom andamento das relações no ambiente escolar.

Gonçalves revela o que o levou a optar por ser professor mediador. “Por serem as escolas palco de constantes conflitos interpessoais e pela experiência de ex-conselheiro tutelar, professor na Fundação Casa por dez anos e pastor evangélico, me considero útil nessa área”, declara. Ele aponta onde deve estar o foco do mediador. “Os conflitos são resultados de vulnerabilidades diversas, o mediador deve trabalhar essas vulnerabilidades e tentar erradicar, restaurando a harmonia do ambiente escolar”, explica.

Brito, que já trabalhou na Secretaria do Bem-Estar Social em função direcionada diretamente a crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidades, afirma que a escola é um espaço social privilegiado para desenvolver atividades ligadas às mesmas faixas etárias. “Entendi que teria maior contribuição participando do projeto do professor-mediador e isso despertou em mim a vontade de aperfeiçoamento. Para tanto, resolvi fazer mais uma faculdade de Serviço Social”, revela.

A mediadora elenca qualidades indispensáveis para exercer bem a função. “Acolher sem pré-julgamentos ou pré-conceitos, ganhar a confiança por meio da imparcialidade, introduzir o respeito, mais pelo exemplo pessoal do que pela hierarquia, conseguir cooperação eliminando disputas, promover a criatividade na resolução do conflito e solução do mesmo, capacitar, estudar, organizar em administração de conflitos e promover a co-responsabilidade entre as partes envolvidas e não a culpabilidade”, lista. Brito ressalta ainda que não existe a fórmula ideal na resolução dos problemas. “Cada mediação é única e personalizada, pois está inserida em seu contexto peculiar”, aponta.

De acordo com Gonçalves, o trabalho diário é diagnosticar o início de conflitos e agir para evitar que caminhem para questões mais graves, como a agressão física. Para isso, expõe o “arsenal” do mediador. “O mediador atua em todos os conflitos relacionados ao ambiente escolar, entre  alunos, alunos e professor, alunos e funcionários e outros mais. Trabalha-se  práticas restaurativas como valores, respeito, reparação do dano causado à vítima”, destaca.

Além do trabalho diretamente nos conflitos, outro aspecto da ação do professor-mediador implica em evitar o surgimento dos problemas. “Divido o meu trabalho através de prevenção com palestras, parcerias com o entorno escolar e também com as redes de proteção, como Cras, Creas, Conselho Tutelar, Delegacia da Infância e Juventude, Base Sudeste, Paróquia do Redentor e Posto de Saúde”, explana Brito. Agindo diretamente no conflito, a mediadora frisa que a estratégia é ouvir e orientar. “Busco contribuir na reflexão de atitudes de indisciplina em sala de aula, ajudando na aceitação da co-responsabilidade dos atos”, discorre. A mediadora salienta, entretanto, que nada funciona se não houver a participação, interação e apoio de toda equipe pedagógica, direção, professores, inspetores e secretaria.

O professor-mediador tem no diálogo sua principal ferramenta para manter a harmonia na escola. “O diálogo sempre foi o melhor caminho para se chegar a acordos e a finais de conflitos. Um bom diálogo pode ajudar o aluno à autoestima, levando-o a compreender o valor que ele tem para si mesmo, para sua família e para o mundo ao redor”, discorre Gonçalves. “A mediação é um processo que analisa o conflito em si e em suas manifestações”, define Brito.

Neste processo, conquistar a confiança do aluno é imprescindível, o que é possível, segundo Brito, com uma relação imparcial, sem julgar, sabendo ouvir e orientar. “Para acontecer um bom diálogo, é necessário um bom acolhimento antes para que, assim, possamos entender os motivos, os porquês de cada fala, do que as pessoas dizem. É a chave na resolução dos conflitos”, observa a mediadora. “Em muitos casos percebe-se uma carência de atenção e diálogo nos alunos por parte das famílias, o mediador conquista o aluno através de um bom diálogo, ajudando-o na construção de relacionamentos e da personalidade”, acrescenta Gonçalves.

O professor que se inscreve para a mediação escolar passa, primeiro, por um curso on-line com videoconferências realizadas por especialistas, oferecido pela Secretaria de Educação. Mensalmente, os mediadores têm um encontro para orientação técnica e troca de experiências.

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