Ciências

Cães, coisas invisíveis e "biópsia líquida"

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Biópsia identifica um conjunto de procedimentos cirúrgicos para se obter uma amostra de tecido doente a ser analisado pelo patologista para identificar a doença com a maior precisão possível. As pessoas ligam este procedimento ao diagnóstico de câncer, mas não deveriam, pois a biópsia pode servir para várias doenças, mas quando o médico diz: vamos à biópsia!, logo pensam “estou com câncer”!

A peça cirúrgica obtida em um recipiente com solução fixadora, junto com as informações do paciente e doença, é enviada ao laboratório para que seja analisada de várias formas para o patologista emitir um laudo com o diagnóstico. Em algumas doenças o cirurgião faz uma punção com uma agulha conectada à seringa e faz uma sucção com o êmbolo, aspirando líquidos e células. O conteúdo será analisado pelo patologista e o procedimento chamado de biópsia por punção e ou aspiração. A superfície de lesões podem ser raspadas e erosionadas com espátulas e curetas para coletar material a ser analisado no procedimento de citologia esfoliativa, como o exame de Papanicolau.

Nestas formas de coleta o material é sólido e o profissional da análise se chama Patologista ou Anatomopatologista. Esta parte da medicina se chama Histopatologia ou Anatomia Patológica. Quando os produtos para análise são líquidos e secreções para verificar se a composição e quantificação química, os equipamentos e treinamentos são diferentes e requer outra especialização conhecida como Patologia Clínica e atua no Laboratório de Análises Clínicas.


Coisas “invisíveis”

Entre nossos corpos existe muito mais que ar: partículas como neutrinos, bósons, radiações e muitos outros componentes que não enxergamos! Há muitas formas de energias e seres como vírus, bactérias, fungos, parasitas e nem percebemos! Pode-se ter outras energias como fantasmas, espíritos, almas e seres errantes por aí! Uauuuu!

Nos corpos e líquidos também existem partículas que não individualizamos com os sentidos. Geram cheiros, sons e gostos sem percebermos: incrível! Agora inventou-se o termo “biópsia líquida”. Aparelhos e sofisticadas reações químicas analisam as secreções como o sangue, suor, saliva ou lágrima e descobre-se moléculas ou células isoladas que existem apenas em paciente com certas doenças, como o câncer. Isto no câncer que ainda nem apareceu, as alterações ainda são moleculares com uma ou outra célula afetada, mas já pode ser detectado muito antes de qualquer sinal clínico: incrível!

Cães e Câncer

Isto só não é mais incrível por que os cães já fazem isto há muito tempo! Pelo olfato, cães descobrem estágios muito preliminares de câncer humano, mesmo naqueles em que nem apareceram ainda em biópsias e tomografias. Células cancerosas liberam substâncias como os alcanos, derivados de benzeno que não existem em tecido normal.

Nas pesquisas com centenas de pacientes, quando os cães detectavam câncer em pacientes saudáveis parecia erro, mas meses depois o paciente iniciava o quadro clinico muito precocemente detectado pelos animais. Seus sentidos podem ser mais apurados. O pioneiro em detecção de câncer pelos cães foi James C. Walker em 2004 quando atuava na Universidade Estadual da Flórida. Em câncer de pulmão o acerto dos cães é de 99%, nos de mama, 88%. Efetividade parecida são observadas em pesquisas recentes com câncer de bexiga e de próstata.

Proposta da “biópsia líquida”: antes dos sinais clínicos, diagnosticar o câncer e outras doenças quando ainda estão no nível molecular, alterando os produtos secretados pelas células. Ou, diagnosticar a partir de uma única célula alterada captada entre 1 bilhão de células sanguíneas normais! Mutilações cirúrgicas poderão ser evitadas, radio e quimioterapia serão aperfeiçoadas e direcionadas para populações específicas de células. A possibilidade de cura será maior e o controle das recidivas do câncer poderão ser feitas pelo exame de sangue e secreções. A aplicabilidade da biópsia líquida está sendo estudada no Hospital AC Camargo em São Paulo por equipe liderada pelo Dr. Fernando Soares.

Estas pesquisas envolvem os anatomopatologistas, mas a análise é de secreções e líquidos, uma área de ação do patologista clínico. Entre os médicos pode ser conflito à vista, mas o importante são os benefícios aos pacientes.

E que continuemos aprendendo com os animais!

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