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A pior aposta

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O aumento na velocidade dos automóveis, tanto nas estradas como no trânsito urbano, é um dos reflexos de uma sociedade impaciente. A pobreza de espírito, o descaso secular com a educação, que gerou um sistema de ensino vergonhosamente falho, distorcem os valores de convivência e deformam a realidade: as pessoas vivem o presente querendo competir até nas ruas de Bauru. Agravam esse quadro o despreparo dos motoristas que se esquecem do futuro e muito menos têm a capacidade de apreciar com realismo as consequências de uma manobra impensada. Quando a precariedade do conceito de cidadania tolhe valores, o amanhã fica nebuloso e a impaciência cresce. Em pessoas impacientes e reativas existem três coisas que andam juntas e se reforçam mutuamente: a competição insana, a tendência em se endividar e o fato de todas as suas construções serem marcadamente frágeis. No afã de querer ser o melhor, essas pessoas terminam sem chegar a lugar algum.

Normalmente o impaciente se acha esperto e a esperteza, diz um adágio, é sempre mais fácil que a virtude, pois ela toma o caminho mais curto para tudo. A sociedade, onde o grau de impaciência é elevado, é colocada diante de uma miragem ou um atalho rápido e indolor rumo a um futuro sombrio: "por que poupar agora e consumir depois"? Mas por que o puritanismo da espera? Não seria mais desejável e inteligente "consumir agora e consumir ainda mais depois"?. Na verdade, existem atalhos que fazem perder o caminho e, nesse caso, é tentar jogar a conta de um amanhã melhor para depois de amanhã.

A violência, a insegurança, as medidas discricionárias do governo minam a confiança no futuro e também encurtam o horizonte decisório dos indivíduos. Essa incerteza quanto ao amanhã reforça o grau de impaciência, assim, quando necessidades inadiáveis estão em jogo, é o aqui-e-agora que motiva as ações, a capacidade de espera definha. Se o risco de morte por latrocínio ou em um acidente de trânsito nunca andam longe e se nada assegura, portanto, que ainda se estará vivo até a próxima lua, então por que se afligir com um difuso, longínquo e duvidoso amanhã? A resultante dessa poderosa conjunção de fatores é direta e unívoca como uma flecha: viver intensamente as possibilidades do momento e deixar que o amanhã cuide de si. Além do mais, o que está no futuro, mesmo que não haja qualquer incerteza quanto à sua ocorrência, não tem o brilho e o apelo do que está imediatamente ou quase acessível.

Não há promessa de juros futuros que pareça justificar renúncias ou sacrifícios correntes. Ainda que por tempo limitado, é curioso observar que os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 fizeram despencar abruptamente a demanda por uma vasta gama de produtos e serviços nos Estados Unidos. Sob o efeito do terror, alimentos dietéticos, spas, remédios, consultas foram relegados, porque o horizonte encolheu. As imagens da tragédia e a percepção da fragilidade comprimiram instantaneamente o amanhã. A vida é, portanto, uma sucessão de escolhas entre o presente e o futuro; apostas sempre terão que ser feitas. Deixar de apostar é a pior aposta possível.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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