Khaled al-Hariri/Reuters |
|
|
Comboio de veículos da ONU segue a caminho da área de ataque com armas químicas |
Inspetores de armas químicas da ONU foram alvejados por franco-atiradores ontem, quando se dirigiam a subúrbios supostamente atacados com armas químicas no fim de semana.
Os investigadores da ONU cruzaram a linha de combate, vindos do centro da capital, para inspecionar o subúrbio de Mouadamiya, um dos pelo menos quatro bairros supostamente bombardeados por foguetes que emanam gás.
Em nota, a ONU disse que o primeiro carro do comboio, que tinha seis veículos, foi “deliberadamente alvejado múltiplas vezes por atiradores não-identificados na zona tampão” entre as áreas controladas pelo governo e pelos rebeldes. Os ocupantes do veículo alvejado precisaram então passar para outro carro.
A TV estatal atribuiu o ataque contra a ONU a “terroristas” rebeldes, enquanto a oposição culpou milicianos pró-Assad. Há temores de que qualquer demora no acesso às áreas supostamente bombardeadas com gás inviabilize a coleta de provas.
Oposição não quer diálogo
Uma conferência internacional de paz na Síria, prevista para ocorrer em Genebra, está fora da mesa de discussões devido às denúncias de um ataque com armas químicas em Damasco, disse ontem um membro graduado da coalizão de oposição da Síria.
Membros da Coalizão Nacional Síria reuniram-se com representantes do grupo Amigos da Síria, que reúne nações ocidentais e árabes que se opõe ao presidente Bashar al-Assad, em Istambul na segunda-feira, num encontro marcado inicialmente para discutir o planejamento da conferência.
“(A reunião) seria em Genebra, mas nós nos recusamos a falar sobre Genebra depois do que aconteceu... Nós devemos punir esse ditador, Bashar, o Químico, como o chamamos, e depois nós poderemos discutir Genebra”, disse o secretário-geral da coalizão, Badr Jamous, depois do encontro.
Rússia preocupada
A Rússia manifestou aos Estados Unidos preocupação com uma eventual resposta militar norte-americana a uma suspeita de ataque com armas químicas pelas forças do governo sírio e pediu moderação, disse o Ministério das Relações Exteriores russo ontem.
Referindo-se a uma conversa telefônica entre o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, no domingo, o ministério disse que Moscou também havia pedido a Washington para abster-se de cair em “provocações”.
A Rússia, aliada do presidente sírio, Bashar al-Assad, sugeriu que os rebeldes podem estar por trás do suposto ataque com armas químicas. “Em conexão com isso, o lado russo pede que (Washington) abstenha-se da ameaça de força em Damasco, para não cair em provocações, e tente ajudar a criar as condições normais para dar à missão dos peritos químicos da ONU, que já está no país, a possibilidade de realização de uma investigação completa, objetiva e imparcial”, disse o comunicado.
Para Estados Unidos, não há dúvida que Assad utilizou gás
Nas mais duras declarações do governo americano sobre a guerra civil síria, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse ontem que o governo do país não tem mais dúvidas de que o regime de Bashar al-Assad usou armas químicas no conflito - o que, para muitos, prepara o terreno para uma intervenção militar no país.
“O regime de Assad terá que prestar contas sobre o que fez”, declarou Kerry, acrescentando que o presidente Barack Obama avalia como irá responder ao “uso indiscriminado” dessas armas.
A declaração ocorreu após imagens de dezenas de vítimas de um provável ataque com gás sarin nos arredores de Damasco terem corrido o mundo na última semana.
“O que vimos lá na semana passada deveria chocar a consciência do mundo. O massacre indiscriminado de civis com armas químicas é uma obscenidade moral”, disse Kerry.
Mais cedo, o chanceler britânico, William Hague, havia afirmado que seria possível levar adiante uma intervenção militar na Síria mesmo sem o consenso do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Aliada da Síria, a Rússia tem impedido resoluções nesse órgão desde o início do conflito civil, em 2011.
Em Washington, Kerry afirmou ter dito ao chanceler sírio, Walid Muallim, que, se o regime de Assad não tem nada a esconder, deveria ter permitido acesso imediato a investigadores da ONU.
Os inspetores, porém, receberam apenas ontem autorização para realizar a investigação sobre o suposto uso de armas químicas.
Em agosto de 2012, Obama havia dito que o uso de armas químicas, proibidas em convenção da ONU, seria a “linha vermelha” que a ditadura síria não poderia ultrapassar.
Kerry disse que Obama estava conversando com líderes do Congresso americano, mas sem dar detalhes se o presidente já procura apoio para alguma ação no país.
Pesquisa do mês passado da rede CNN dizia que 60% dos americanos são contra qualquer envolvimento militar na Síria.
Para analistas americanos, Obama sofre de uma “síndrome do Iraque” - ele foi eleito por ter sido contra a guerra promovida pelo antecessor, George Bush, então seria mais cauteloso antes de tomar qualquer iniciativa militar.
Assad
Em entrevista publicada ontem no jornal russo “Izvestia”, Assad afirmou que é ilógico acusar seu regime de estar por trás de um ataque químico. “É um ultraje ao senso comum”, disse.
O ditador insistiu, ainda, em que uma intervenção militar americana seria um fracasso, “assim como todas as guerras que eles travaram, do Vietnã até os dias de hoje”.
