No dia vinte e oito de agosto de mil novecentos e sessenta e três, Martin Luther King começava seu mais famoso discurso acertando em cheio em sua previsão "Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação". Claro que não foi por essa frase que o discurso é lembrado, mas pela célebre "Eu tenho um sonho...". Repetido cinco vezes no discurso completo. E durante cinco décadas muitas pessoas têm sonhado com ele. Hoje, há exatos cinquenta anos, leio neste jornal o nobre vereador Lima Junior sugerir ironicamente que o programa "Mais médicos" reativou a escravidão no País ao trazer médicos cubanos. Infelizmente, vereador, não acredito que você compartilhe do sonho de liberdade que Luther King sonhou. Não consigo acreditar que você esteja de fato preocupado com a situação de trabalho a que serão submetidos os profissionais cubanos. Ou se está, você deveria procurar entender melhor o acordo firmado para a vinda dos mesmos. Ler, estudar e pesquisar deveriam fazer parte do cotidiano do legislador, assim como o compromisso com a verdade acima da ideologia e do partidarismo.
O acordo dos governos brasileiro e cubano é intermediado pela Opas (a mais antiga agência internacional de saúde, ligada à ONU, funciona como um escritório regional da OMS e é sediada em Washington DC). O Brasil pagará o valor integral do projeto por indivíduo, R$ 10.000,00 ao governo cubano, que repassará parte disso à família do médico na ilha, e estima-se que o profissional receberá cerca de R$ 4.000,00. Claro que este salário não permite que o médico cubano torne-se um grande fazendeiro, ou possua uma dezena de imóveis de aluguel (ou simplesmente para exploração imobiliária) como alguns médicos bauruenses. Eu mesmo já aluguei uma casa de um deles. Mas está bem longe de trabalho escravo.
Lembrando que estes médicos trabalharão naqueles lugares onde nenhum médico, formado muitas vezes em faculdades públicas, quer trabalhar. Na maioria, cidades pequenas, distantes. Lugares onde um médico fará toda diferença. Vejo tamanha nobreza que me lembra missionários levanto alento a lugares inóspitos. É óbvio que esse discurso está ombreado não com o sonho de liberdade de Luther King, mas com discursos políticos que tentam de qualquer maneira desestabilizar um governo. Mas este discurso se esquece de que medida semelhante já foi tomada em 1999 por um governo do seu partido. Existem outros discursos, e espero que a estes o vereador não se alie, preconceituosos e xenofóbicos, que criaram cenas vergonhosas para nós, brasileiros, onde médicos cubanos foram recebidos com vaias e xingamentos por médicos brasileiros, supostamente a elite cultural do Brasil.
Por fim, vale lembrar que a situação decadente da saúde pública não é exatamente falta de verba, estrutura ou algo assim. Vale lembrar o caso da AHB. Dia desses faltava gaze no HB, e por acaso o que foi roubado, está bem, roubado não, vamos falar de um jeito mais civilizado, desviado da AHB, não era suficiente para comprar gaze? Então o problema não era a falta de material, mas a ingerência. E os dirigentes da AHB não eram na maioria médicos?
Jorge Carlos Rodrigues de Freitas