Condenado pelo STF por formação de quadrilha, corrupção e peculato, e preso há dois meses, o deputado federal Natan Donadon (ex-PMDB-RO), que foi expulso do próprio partido, teve seu mandato mantido pela Câmara dos Deputados na última quarta-feira. O placar foi de 233 votos a favor da cassação, 131 votos contra e 41 abstenções. Eram necessários 257 votos (metade do número de membros da casa e mais um) para a perda do mandato. Mais do que outra já corriqueira evidência do corporativismo corrupto que assola o nosso legislativo, o episódio merece atenção especial tendo em vista a expectativa da população de que alguma coisa mude após os protestos de junho. A inacreditável postura da Câmara dos Deputados não evidencia falta de tato político ou sequer de sensibilidade, evidencia má-fé. Demonstra não que nossos políticos não entenderam os protestos, mas que estão pouco se lixando para eles, para toda a população e consequentemente o país.
E mais, que de forma alguma estão preocupados com a volta do povo às ruas. O que é muito grave. Pois bem, se as manifestações não serviram para mudar a postura da classe política, que sirvam para mudar a do povo, que deve fazer do protesto um hábito. Se antes as insatisfações eram (e continuam a ser) das mais variadas naturezas e foram canalizadas sob a bandeira do transporte público, dessa vez se está diante de um motivo talvez até mais propício que o anterior para uma coalizão nacional. E com um ponto de pressão evidente, a cassação do mandato do deputado Natan Donadon (isso mesmo, deputado e não ex). Vale lembrar que a permanência desse tipo de câncer na política brasileira se deve, em parte, ao fato de a votação ter ocorrido de forma secreta. Nessas horas, é atitude peculiar aos políticos nacionais se esconderem atrás do anonimato. Se "bem aproveitado", o episódio pode, portanto, originar três específicos pontos de reivindicação, que podem ser usados nas manifestações e que, diferentemente dos simples 20 centavos, trarão um efetivo legado à política nacional caso sejam atendidos.
O voto aberto, a cassação do deputado Donadon e a cassação automática para parlamentares condenados no Supremo Tribunal Federal, em sentença definitiva, por improbidade administrativa ou por crime contra a administração pública, proposta de emenda constitucional que já está em andamento e foi aprovada pela CCJ no último dia 14. Três belíssimos motivos para que o povo vá para as ruas, e que de lá não saia enquanto não for ouvido.
O autor, Fabio Galazzo, é advogado