A Organização Não Governamental (ONG) “C tem que saber, C tem que curar”, de São Manuel (69 quilômetros de Bauru), completa 10 anos de vida em setembro, com motivos de sobra para festejar. Durante esse período, aproximadamente 300 mil pessoas realizaram exames para a detecção da hepatite C por meio da entidade e cerca de 15 mil tiveram a doença diagnosticada, muitas delas no estágio inicial.
]O presidente da ONG, Francisco Martucci, comemora os resultados. Segundo ele, após os exames sorológicos, os portadores de hepatite puderam iniciar tratamento, que é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Aqueles que foram diagnosticados positivos, nós demos acesso a exames complementares. Um chama biologia molecular e depois tem a biópsia hepática no fígado para ver em que estágio a doença está”, explica.
Ele estima que, dos cerca de 3 milhões de portadores de hepatite C no Brasil, apenas 12 mil realizem o tratamento por ano. “A importância dessa ação social está no fato de que apenas 1 a cada 250 portadores de hepatite C tem acesso ao tratamento pelo SUS”, diz. “Para a maioria que não consegue, são dias de muita angústia e sofrimento, pois a falta de tratamento pode significar o fígado cirrotizado (com cirrose), câncer hepático e óbito precoce”.
Martucci sentiu na pele as dificuldade de ser portador do vírus da hepatite C. O presidente da ONG descobriu que tinha a doença em 2003, época em que o Ministério da Saúde determinava a oferta do medicamento interferon peguilado – que garante a sobrevida de quem tem o vírus – por apenas 24 semanas. Para se curar, apesar de ter a receita médica pedindo a continuidade do tratamento, teve que recorrer à Justiça.
“Eu fiquei isolado em tratamento por quase dois anos, com fortes efeitos adversos, me curei e me transformei de um doente curado a um militante comprometido em ajudar as pessoas com hepatite C”, conta. “Hoje, existem no Brasil milhares de pacientes de hepatite C que, mesmo com receita médica, não conseguem o seu tratamento pelo SUS e gostaríamos de chamar a atenção para essa pauta, pois é uma real fila anunciada da morte”.
Conquistas
Entre as vitórias que a ONG conquistou nesses dez anos de luta, segundo ele, estão a queda no preço do interferon peguilado, em 2006. “Outro fato marcante foi que, através do controle social, a gente conseguiu fazer com que o Ministério da Saúde ampliasse a abrangência das portarias de atendimento, com apoio da sociedade médica”. Isso garantiu o tratamento para pessoas com fibrose no fígado a partir do estágio 2 (média inflamação).
Em julho de 2011, graças à entidade, treze pacientes com hepatite C atendidos no Hospital das Clínicas (HC) de Botucatu conseguiram evitar a interrupção de seu tratamento. Na ocasião, alegando cumprimento de uma portaria do Ministério da Saúde, o Departamento Regional de Saúde (DRS-6) em Bauru indeferiu pedidos de fornecimento do medicamento interferon peguilado aos pacientes.
A portaria permitia que o tratamento fosse interrompido a partir da 48ª semana se o paciente apresentasse resposta lenta à medicação – o que ocorre com cerca de 40% dos pacientes em tratamento. Após denúncia feita pela ONG e relatório do hospital informandxo que o tratamento, apesar de 48 semanas completas, precisaria continuar sob pena de agravamento do quadro dos pacientes, o Estado voltou atrás e liberou o fornecimento da injeção.
Martucci revela que, por dia, em média, são registradas no país 12 mortes em razão da doença. De acordo com ele, o vírus da hepatite C ataca o fígado do seu portador sem apresentar sintomas, dificultando a detecção da doença. A transmissão ocorre através do sangue, sobretudo quando uma pessoa compartilha utensílios utilizados por alguém infectado, como seringas e alicates de unha. Informações no site www.ctemquesaber.com.br.