Tribuna do Leitor

Academia Bauruense de Letras - Tomada de posse


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Obrigado, minha mãe!

A minha história aconteceu, mais ou menos, lá pelos anos de 1949. Recuperado da minha doença, a conselho médico, teria que permanecer por um período de 2 a 3 anos em Campos do Jordão (SP). Só assim recuperaria plenamente os meus pulmões. Mas donde tiraria o dinheiro? Minha mãe não vacilou, resolveu ali mesmo que eu partiria para aquela cidade. Bem sabia ela que o dinheiro se esgotara em nossa casa. Bem sabia ela que a vida em Campos era caríssima. Eu teria que ir. Mas ir como?

Minha mãe, como uma velha guerreira, não vacilou; abriu a sua antiga cômoda, vasculhou os guardados, e, com surpresa para mim, retirou do meio de velhas bugigangas uma caixinha de veludo azul. Havia na caixinha uma grossa corrente em ouro com uma medalha de Nossa Senhora da Conceição. Aquela corrente e o medalhão fora um presente que meu querido e saudoso pai a mimoseara. Minha mãe, até ali, guardara-a com carinho e enamoradamente. Era a última lembrança que lhe restava da passada opulência. Porém, a viúva era vivaz, saiu e vendeu a corrente-medalha. Com o dinheiro da venda eu parti para cuidar da minha saúde. Lá fiquei num espaço de tempo para consolidar por completo minha cura. Tive, na ocasião, uma felicidade de conhecer o nosso querido e saudoso poeta-trovador-jornalista, Nidoval Reis. Eu no sanatório S-3 e o Nidoval no sanatório sírio-libanês. Como já estávamos curados da insidiosa moléstia, eu trabalhava em um laboratório de patologia clínica e o amigo Nidoval, na rádio clube de Campos do Jordão. Programa-saudosista-crônicas-poesias-sonetos e trovas. Muita música antiga, enfim era aquela "dor de cotovelo". Eu contribuía com crônicas com que o amigo, Nidoval, lia todos os dias às 18 horas, "Oração da Ave Maria". Hoje, passados tantos anos, ao recordar-me desses pequenos, mas tão enternecedores detalhes, sobem-me aos olhos irreprimíveis lágrimas grossas e comovidas.

Foi a fé que te valeu naqueles transes, mamãe. Quem, afora o Cristo, soube das renúncias, dos sacrifícios, das necessidades, das pobrezas por que passaste? Que tu nobremente sobrepujaste a bramante refrega da vida e, sozinha, nobremente, emplumaste para o fragor da existência a abundante ninhada que Deus lhe deu! Mas, eu soube te compensar, mamãe. Certa noite, que foi minha noite fulgurante, a mais fulgurante que possa ambicionar um escritor-jornalista, poeta e cronista no Brasil. Foi quando, pelas mãos da saudosa e querida madrinha, Celina Alves Neves, fui empossado na Academia Bauruense de Letras. Mas deixai também, meus senhores, que nesta linda hora risonha, em que as emoções mais íntimas se atropelam dentro de mim, deixai que mal acabe de vos agradecer, eu me ausente precipitado destas galas.

Sim, deixai que meu coração voe para longe daqui, fuja para minha estremecida vila, e lá, comovido e respeitoso, penetre por um momento, muito de mansinho, numa casa modesta de bairro sem luxo. Nessa casa, a estas horas, nesta mesma noite, está uma santa senhora com sua cabecinha branca da neve do tempo (noventa e oito anos de idade), encurvada, com seu rosário de contas já gasto, a rezar diante da Virgem pelo seu filho acadêmico... pelo filho que ela, viúva corajosa, mas altaneira, e de família simples criou, educou, fez homens honrados ? Deus sabe dos sacrifícios e com que ingente heroísmo exerceu ela sua missão! Deixai, pois senhores acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta de bairro pobre e sem luxo, entre no quarto-oratório, ajoelhe-me diante da minha mãezinha de cabelos brancos, beije-lhe as mãos, e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: minha mãe, eu te ofereço esse meu momento, Deus lhe pague!

Hoje, é com muita tristeza, que eu declaro: não mais pertenço à Academia Bauruense de Letras e minha santa mãezinha, aos 98 anos, foi para os braços do nosso Pai celestial...

João Álvares

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