O delegado de polícia que responde pela pequena cidade de Fernão, Valdir Tramontine, é enfático em dizer que gostaria que todas as cidades do Estado de São Paulo fossem como Fernão. “É o município mais tranquilo da seccional de Marília, com certeza. De 1º de janeiro de 2013 até o dia 2 de setembro foram registrados 29 BOs (boletins de ocorrência). A maioria dos registros é de menor potencial ofensivo. Tem poucos furtos e crimes contra o patrimônio.”
Para completar o cenário de calmaria, o delegado contabiliza os procedimentos de polícia judiciária. “Atualmente temos cinco inquéritos em andamento. Todos de fatos corriqueiros, típicos de município pequeno. São discussões que geram ameaças ou lesão corporal. Há crime contra a honra, difamação. Raras vezes ocorre um furto e quase sempre de objeto de pequeno valor.”
Para dar prosseguimento aos inquéritos e atender as necessidades da população, o delegado dá expediente em Fernão duas vezes por semana. “A ocorrência mais grave foi aquela que envolveu o PM, no mês passado.”
O caso ao qual o delegado se refere foi uma discussão ocorrida entre pai e filho, registrada em agosto. O jovem, após brigar com o pai, investiu contra os policiais em frente a um bar no Centro da cidade. Segundo declarações do pai no dia dos fatos, o jovem tem distúrbios mentais e estava agressivo.
A PM foi acionada e tentou desarmar os briguentos, que estavam armados com um pedaço de balaústre e um taco de bilhar. O pai teria largado o taco, mas o jovem investiu contra os policiais, que se defenderam com gás pimenta.
A tentativa não adiantou e o jovem agrediu um PM, que efetuou um disparo de arma. Outro policial tentou conter o agressor com mais gás pimenta, mas não conseguiu e atirou duas vezes para o chão. Como o jovem insistiu na agressão, o policial precisou atirar nele. Um disparo acertou a coxa esquerda e o outro a lateral esquerda do abdômen. Ele foi socorrido e passou por cirurgia no Hospital de Marília. Não sofre risco de morte.
Segredo
Fernão é do tamanho de um bairro de Bauru ou de Marília, centros maiores que distam aproximadamente 60 quilômetros. Mesmo assim, se mantém com índice criminalidade baixo e zerado para crimes contra a vida.
Para um morador da cidade que preferiu não se identificar, o segredo está na maneira simples de viver da população. “Aqui temos poucas indústrias, a economia é essencialmente agrícola. A prefeitura está tentando trazer indústrias para o município. A população sai cedo para trabalhar fora.”
Ele acha que, com as pessoas trabalhando e estudando, não sobra tempo para arrumar confusão. “Na cidade tem usuários de drogas, como em todo o Brasil. Mas todo mundo se conhece. O último homicídio aconteceu há mais de 15 anos.”
O prefeito de Fernão, Altemar Canelada Campos, festeja a posição da cidade no ranking da criminalidade. “Aqui não tem roubo e homicídio. Acredito que o fato de 50% da população morar em zona rural ajuda. Hoje temos 1.600 habitantes, metade deles trabalha com hortifrúti, laranja, milho, mandioca e pecuária. É um fator positivo.”
Desafios
O desafio do prefeito é criar novas vagas de trabalho e manter os jovens de Fernão na cidade. “Tem jovens trabalhando na roça com a família. Outros deixam Fernão em busca de estudos e não retornam para trabalhar aqui. Só voltam para visitar a família. Eu quero trazer empresas para fixar essa população aqui. Todos os dias tem um ônibus que leva jovens para trabalhar em Bauru e Marília.”
Na área de segurança, o prefeito pretende investir no social. “Quero fazer um trabalho social voltado às crianças, com período integral na escola. Precisamos ainda de condições técnicas e espaço para desenvolver um trabalho educativo.”
Os idosos, que representam 36% da população, também terão atenção do município. “São várias ações para atender essa faixa da população, muito significativa em Fernão.”