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Somos maldosos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Certa vez, um jovem John Lennon viu um homem de muletas na entrada do cinema em Liverpool. Então, virou-se para os amigos e lascou: "Que absurdo. O que as pessoas não inventam para escapar do serviço militar". O sarcasmo juvenil, claro, escondia uma maldade em estado puro.

A questão é que a maldade é algo próprio do ser humano. Inerente. Se você pensa, logo também pensa... maldades. Se somos eventualmente maldosos, paciência: também é sinal emocional de que estamos vivos. Mas qual o ponto? Qual o limite?

Em pleno 2013, não cabe mais fugir de certos temas "tabus". Queremos acreditar que a era da hipocrisia está no fim.

Nesse sentido, vale refletir abertamente sobre ela: a maldade. O "xis" aí é a dose, a escala, o tanto. Sempre haverá a maldadezinha das crianças com o bicho de estimação. E a maldadezona de adultos reclamões contra alvos indefesos.

O que assusta é a maldade fora do controle, traduzida em ações tão brutas como desproporcionais. Aí nasce a violência extrema, antes escondida no ninho das péssimas intenções.

Temos que ser 100% da paz. Queremos ela, a plena paz. Vigorosa de amor e abrangência. O que não impede de lembrar novamente que, até quem viria ser uma dos mais notórios pacifistas e acabou assassinado, cometeu lá suas pequenas maldades. Já adulto, perguntaram a Lennon se Ringo Starr era o melhor baterista do mundo. E ele: "Bem, não sei nem se ele é o melhor baterista dos Beatles".

Não vale fingir que a maldade não existe em nós. Pelo contário: compensa reconhecer. Trazer para nosso domínio, colocá-la no seu devido lugar. Sejamos corajosos no relacionamento com os nossos fantasmas internos. Até para que nossas pequenas maldades não fujam de casa e fiquem perambulando por aí, em busca de más companhias.

O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC

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