Tribuna do Leitor

Felicianofobia em Bauru


| Tempo de leitura: 3 min

Muito lúcido o texto da carta da senhora Camila Alvarenga, publicada nesta Tribuna do Leitor do dia 25/04, sob o título acima, que com todo respeito e admiração faço título desta minha carta também.

De fato, Camila, com a permissão de assim chamá-la, quem tem janelas de vidro não deveria jogar pedras na vidraça alheia. E é "abominável que se use de dois pesos e duas medidas no juízo", principalmente se quem o faz é justamente quem deveria servir de exemplo pela responsabilidade da autoridade que ocupa na realização da correta justiça. Até porque não é proibido emitir uma opinião sobre o erro alheio, mesmo que censurando-o ou condenando-o, mas o criticismo feito simplesmente por procurar atacar erros nos outros, ocultando, ignorando ou passando por cima dos próprios defeitos, enquanto se assume um papel de juiz supremo em relação ao erro do outro, este sim é censurável, pois quem o faz nega a si mesmo a capacidade de perdoar e a oportunidade de ser perdoado, pois "com a mesma medida que julgamos os outros nós mesmos seremos julgados".

O julgamento hipócrita, além de não trazer nenhum tipo de ajuda a quem quer que seja, é imoral e viola a lei do amor, só podendo ser, portanto, fruto amargo do ódio que se tem no coração. O ato de julgar condenando e negando a possibilidade do arrependimento e do perdão não é prerrogativa humana, por isso, quem dele lança mão, ao mesmo tempo que se coloca no papel de um "deus", revela distanciamento de Deus. Pessoas assim precisam julgar a si mesmas, fazer um autoexame, se corrigirem antes de tentar corrigirem os outros.

Sem considerar as próprias debilidades dos vereadores envolvidos na questão, é no mínimo interessante notar que, sendo eles membros de uma Comissão de Direitos Humanos, encabecem uma "moção de repúdio" a uma outra pessoa por suposta violação dos direitos humanos, manifestando desconhecimento da própria Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ela diz, no seu artigo 1º, que "todos os homens são dotados de razão e de consciência, e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade". Repúdio é sinônimo de desprezo, rejeição, repulsa, ou seja, não há nada de fraterno quando se repudia alguém, principalmente se o motivo é por pura questão ideológica. Pastor Feliciano não desprezou, não rejeitou, não repudiou ninguém por ser negro ou homossexual, só expressou uma opinião. Será que os vereadores não são dotados de razão e de consciência, ou, se são, não possuem espírito fraterno?

Aliás, senhores vereadores da Comissão de Direitos Humanos, a mesma Declaração Universal dos Direitos Humanos diz, no artigo 18º, que "todos têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião, incluindo a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela pratica, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em publico ou em particular". Portanto, pastor Feliciano não desrespeitou nenhum direito humano ao manifestar os dogmas de sua crença, ensinando-as em público aos que como ele manifestam a mesma religião. Aliás, diga-se, a bem da verdade, ele não "chantageou" ninguém que se mostrou contrário à sua crença e nem usou seu (sua) "cônjuge" para chantagear quem quer que seja.

Por fim, devemos lembrar, diz o artigo 5º - VI de nossa Constituição Federal, que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias", ou seja, há uma nítida diferenciação entre consciência e crença. Enquanto a primeira diz respeito à orientação filosófica, no que se inclui a inviolabilidade de liberdade de não ter crença alguma e fazer o que quiser da sua vida, aos que seguem uma crença não só é livre o exercício de culto como é, inclusive, garantido pelo Estado a proteção dos locais e culto e das liturgias, isto é, da mesma forma que quem não crê pode fazer o que quiser da sua vida fora dos templos, o que cada um faz e fala no interior do seu local de culto não é da conta de ninguém que está fora dele.

Silvio Gomes

Comentários

Comentários