Renan Casal |
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A piloto Amel Attar mostra toda a segurança enquanto pilota durante voo panorâmico do projeto “Bauru nas Alturas” |
Amel Sayed El Attar voou sozinha pela primeira vez há dois anos. A sensação foi tão marcante para a piloto comercial que ela cita com precisão o momento da decolagem: “Às 8h25 do dia 24 de janeiro de 2011. Nem acreditei quando o Adilson (professor Adilson Silva) me disse: ‘E aí, vamos solar? Eu respondi de um jeito tímido... Vamos’”. A egípcia Amel Attar concluía uma etapa de um sonho de criança controlando uma aeronave nas térmicas de Bauru. Atualmente ela trabalha no Aeroclube da cidade. No último sábado, conduziu a aeronave em passeio panorâmico com alunos da rede municipal e imprensa, no projeto “Bauru nas Alturas”.
Amel Attar era a única mulher da turma de 2010, que iniciou o curso teórico de piloto privado na Escola de Aviação do Aeroclube de Bauru. A piloto conta que os colegas de classe lançavam “olhares curiosos” e queriam saber qual a sua motivação para enfrentar o desafio de comandar uma aeronave. “Eu dizia que era meu objetivo de vida”, comenta.
Em 2012, Amel Attar concluiu o curso de piloto comercial. Enquanto se preparava para iniciar uma carreira, mantinha-se firme em outra bem-sucedida: a de comissária de voo em uma grande empresa brasileira. Teve perspicácia para esperar o momento adequado para pedir demissão e deixar para trás sete anos dedicados a uma única empresa. “Conciliava tudo até tomar a difícil decisão de sair da Gol para viver uma grande vontade de voar mais alto e apenas ser piloto. Pedi demissão de um trabalho estável e encarei o desafio”, acrescenta.
Ela reside na Mooca, em São Paulo. Em 2009, um amigo indicou para ela o Aeroclube de Bauru pelo trabalho dos professores Eurípedes Francisco de Almeida (Chico) e Adilson Silva. “Sem pestanejar, vim com a cara e a coragem.”
Amel Attar fez o curso de comissária de voo em 1996. No ano seguinte, integrou a equipe da Vasp até 2003. Depois trabalhou até 2006 na empresa BRA. “Realizei o sonho de integrar o ‘Time de Águias’. Assim são chamados os colaboradores da Gol”, comenta.
A Gol adquiriu a Varig em 2007. A então comissária de voo foi escolhida para o grupo de viagens internacionais da companhia aérea devido ao seu conhecimento de vários idiomas, período que foi até a fusão completa das companhias. Amel Attar alcançou o posto de chefe de cabine.
Atualmente, a corajosa Amel Attar está habilitada a pilotar monomotores, como Cessna, e multimotores e voos por instrumentos. Ela segue os passos para pilotar aeronaves maiores, como as que já atuou na condição de comissária de bordo. O segredo é simples: “Para isso, sigo dando instrução e me aperfeiçoando a cada dia, porque um aviador nunca pode parar de estudar para crescer”, define.
Na pele de comissária
Muitas moças se encantam pela carreira de comissária de bordo pela roupa e elegância dessas profissionais da aviação. Porém, manter a simpatia e o equilíbrio é uma arte. Principalmente quando se trabalha nas alturas com seres humanos confinados em uma aeronave.
Amel Sayed El Attar tem muito tempo de voo na condição de comissária. Ela se recorda de algumas situações que exigiram postura. A então comissária enfrentou alguns passageiros inconvenientes, como embriagados dispostos a uma confusão. Torcidas organizadas e artistas também deram trabalho. Na sequência ela relata algumas situações engraçadas e estressantes vividas na condição de comissária de voo. A única coisa que a reportagem não conseguiu obter de Amel Attar foi sua idade. “Não conto minha idade nem por decreto”, dispara.
Laços entre Brasil e Egito
Amel Sayed El Attar nasceu na cidade do Cairo, no Egito. Seus pais vieram para o Brasil quando ela ainda era bebê, com 9 meses de idade.
A história das famílias de seus pais sempre cruzaram o caminho do Brasil. Ela conta que a família de sua mãe veio da Síria no início do século passado - atualmente o povo sírio vivencia uma sangrenta guerra civil.
O pai dela foi militar atuando como guarda-costas do presidente do Egito Gamal Abdel Nasser, no período de 1956 a 1970. Ela relembra que, de 1917 a 1920, os avós paternos residiram no número 21 da avenida Paulista, na Capital. “Tudo lá ainda eram apenas mansões”. Após 8 anos de Brasil e 7 de Argentina, eles retornaram ao Egito. O pai de Amel Attar foi o primeiro filho nascido no Egito, sendo que outros quatro irmãos dele nasceram no Brasil.
O pai de Amel Attar retornou com outro irmão ao Brasil nos anos 70 para resolver questões familiares. Nessas andanças entre Brasil e Egito, os pais de Amel se conheceram no Brasil.
No improviso
Amel Attar foi escalada para um voo em que os passageiros seriam árabes, língua que ela domina, por isso seria a comissária de voo ideal para o grupo. No início do embarque veio a surpresa. Os passageiros que se apresentavam eram de outra parte do mundo. “De longe me assustei, pois estranhei o fato dos passageiros serem tão brancos, louríssimos. Quando começaram a falar, quem empalideceu fui eu. Eles não eram árabes, e sim russos”, relembra.
Ao questionar o escalador de voo, Amel praticamente ouviu um “se vira”: “O escalador, na maior ironia, me disse: ‘Não é a mesma coisa? Ah! Improvisa, comissária.’”
Para atender com toda a competência que se espera, Amel Attar fez mímica, pois nem seu inglês impecável superou a diferença de idiomas. “Eram mais velhos e não sabiam inglês. Mas tudo deu certo”, garante.
Enfarto no voo
Amel Attar conta que, na antevéspera de um novo século, dia 30 de dezembro de 2000, uma senhora enfartou durante o voo. A passageira idosa passou por uma intervenção cirúrgica, com a colocação de três pontes de safena, e retornava para sua casa. “Foi um caos! Mantive a calma no momento e tudo se resolveu. Quando saí do avião após o término do voo, ficava falando como uma matraca. O nervosismo vinha depois”, comenta a então comissária de voo.
Sonho de Ícaro
“Aos 5 anos fiz uma cirurgia urológica, e quando saí da sala meu pai me esperava com um presente. Quando abri a caixa, era uma réplica de avião da Varig que acendia todas as luzes. Fazia o mesmo barulho de motor de avião. Fiquei encantada e disse: ‘Quando eu crescer, vou trabalhar aqui dentro’”.
