Saiu o guia das melhores empresas para trabalhar, da revista Você S/A. É uma pesquisa interessante, que vem sendo feita há alguns anos, com o objetivo de estimular as empresas a competirem por desenvolvimento no aspecto humano. No aspecto tecnológico faz tempo que a competição é acirrada. Enquanto a mecanização e a robotização avançam, até mesmo no agronegócio, aumenta a transferência de indústrias para regiões de mão de obra barata e terceirização para empresas, não poucas vezes, em condições degradantes. O universo pesquisado ainda é relativamente pequeno, abrangendo as empresas que possuem administração de recursos humanos "bem estruturada e comunicada em todos os níveis", como diz o editor, e se inscrevem para participar. A seleção é rigorosa, levando em consideração: estratégia de gestão; liderança; políticas e práticas; remuneração; carreira; saúde; desenvolvimento e cidadania empresarial. A divulgação das 150 melhores em edição especial, bem elaborada, distribuída com a revista Exame, atinge um público alvo bem grande.
Nos tempos áureos do Banco do Estado de São Paulo, que os políticos liquidaram, havia uma propaganda que dizia mais ou menos assim: ?O que você quer ser quando crescer? Voz de criança ? Funcionário do Banespa?. Quem é que não quer trabalhar num bom lugar? Mas o que é um bom lugar para trabalhar? Uma pesquisa grosseira dará uma resposta simplista ? um lugar que pague bem, mas uma pesquisa como essa, inquirindo empregados e empregadores, mostra que são muitas as variáveis, tanto do ponto de vista do que as pessoas desejam como do que as empresas podem oferecer. Salário compensador, tratamento respeitoso, segurança para si e para a família, ambiente físico salubre, ambiente social de cordialidade, oportunidade de progredir, aposentadoria que dê para viver com dignidade. Embora variem em grau e intensidade, colocando de lado as idiossincrasias, esses são os desejos básicos das pessoas, que o psicólogo Abraham Maslow classificou em cinco necessidades: fisiológicas, de segurança, sociais, de status e de autorrealização.
Do lado das empresas cai-se no problema econômico, em que os recursos para satisfazer os desejos humanos são sempre limitados. A pesquisa focaliza as empresas, mas não é somente nas empresas que as pessoas trabalham. As pessoas também trabalham para o governo, para as organizações não lucrativas e filantrópicas, para profissionais liberais e para famílias. Nem é preciso tentar explicar como a situação é complicada. Combinando a capacidade de atendimento de cada tipo de empregador com a sua disposição de atender, a situação varia desde uma total insatisfação até a quase plena satisfação. Entre os extremos há as situações possíveis, em que a falta ou insuficiência do atendimento de um desejo é suprida pelo melhor atendimento de outro. Às vezes não dá para pagar mais que o salário mínimo, mas o respeito, a compreensão nas horas de dificuldade e a percepção de justiça podem tornar a situação até ideal para quem não pode ter outra opção. É o oposto da situação em que o empregador poderia fazer mais e faz menos. E é nesses que a divulgação da pesquisa procura influir, para uma melhoria geral.
A pesquisa também confirma o princípio de que enquanto os recursos são limitados os desejos são ilimitados. Diz a pesquisa: "As pessoas estão mais exigentes, de forma geral. Não é por acaso, portanto, que a cada ano o grupo que forma as 150 Melhores Empresas para trabalhar no país vem aperfeiçoando suas ferramentas de gestão e profissionalizando suas políticas de recursos humanos." Há casos incríveis, onde além de altos salários as empresas oferecem benefícios que poucas podem dar, como planos de saúde e de previdência e locais de trabalho com regalias de clubes sociais, com academia de ginástica. Essas situações, porém, só existem em um número limitado de empresas e, em algumas, somente para determinados departamentos. Os melhores lugares para trabalhar, entretanto, sem importar para quem se trabalhe, são aqueles em que na segunda-feira se amanheça com entusiasmo para ir ao trabalho e no final da semana não seja necessário dizer como o Chico Pinheiro ao fechar o Bom Dia Brasil: "Graças a Deus hoje é sexta-feira."
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetra