Fotos/Malavolta Jr. |
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Os delegados Ênio Bianospino e Carlos Alberto Fazzio Costa em entrevista coletiva |
Poucas horas após a queda de avião carregado com droga às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-255), na altura do quilômetro 136, em Bocaina (69 quilômetros de Bauru), e do confronto entre policiais federais e traficantes que resultou na morte de um agente, a Polícia Federal (PF) prendeu três homens e uma mulher que fariam parte do grupo criminoso. Pela manhã, outro acusado foi preso na rodovia que liga Jaú a Araraquara.
O caso foi divulgado pelo JC com exclusividade na capa da edição de ontem. À tarde, o delegado-chefe da PF em Bauru, Carlos Alberto Fazzio Costa, concedeu entrevista coletiva à imprensa para falar sobre a operação. Os nomes dos presos não foram divulgados. De acordo com Costa, o serviço de inteligência da PF apurou que a aeronave carregada com cerca de 500 quilos de droga iria pousar anteontem em uma pista na zona rural de Bocaina.
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Reprodução/TV TEM |
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Imagem do piloto da aeronave que foi preso por volta de 1h45 de ontem |
“A equipe se deslocou para a área, identificou, fez um levantamento prévio da área e se preparou para a abordagem. A noite caiu, escureceu demais, ficou difícil trabalhar e, ao abordar a equipe de terra que dava apoio para a aeronave, houve uma troca de tiros e, infelizmente, a gente tem a informar que o colega Fábio Ricardo Paiva Luciano, agente de Polícia Federal lotado na delegacia de Bauru, foi atingido por um disparo de arma de fogo e veio a óbito”, diz Fazzio.
O fato ocorreu às 21h30 de anteontem. Por volta da 1h45 de ontem, o piloto do avião, que estava bastante ferido, foi preso. Logo no início da manhã, dois homens e uma mulher, que estavam escondidos no canavial próximo ao local do tiroteio, também foram detidos. Segundo a PF, o casal estaria tentando resgatar um dos envolvidos no confronto. Por volta das 9h, outro integrante da quadrilha foi preso pela Policia Militar Rodoviária quando tentava pegar carona às margens da SP-255.
Investigações
Os cinco detidos foram conduzidos à delegacia da PF em Bauru, onde prestaram depoimento. Eles vão responder por tráfico de drogas, associação para o tráfico, homicídio, resistência e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.
O delegado Ênio Bianospino, que acompanhou as diligências em Bocaina e também participou da entrevista coletiva, informou que as investigações vão prosseguir para tentar identificar os demais envolvidos.
“Lamentamos muito o resultado, que para nós não foi satisfatório. Foi uma ocorrência que nos entristeceu demais. A Polícia Federal fez tudo o que estava ao seu alcance para que isso não acontecesse, mas, como sabem todos vocês, a nossa profissão é de risco e, infelizmente, essas coisas eventualmente aconteceram, acontecem e vão voltar a acontecer”. Ele ressaltou, porém, que a resposta aos criminosos foi imediata.
“A resposta começou ainda na noite de ontem. Nós prendemos o piloto, nós prendemos pelo menos duas pessoas que participaram efetivamente do confronto e mais dois associados que estavam prestando assistência a esses criminosos. E a investigação não acaba por aí. A Polícia Federal vai responder sempre com energia, com força e com legalidade, acima de tudo”, declarou.
Droga e avião
Apesar da coletiva, duas principais questões ainda não foram totalmente esclarecidas pela PF. Onde foi parar a droga que estaria sendo transportada pelos traficantes e como ocorreu a queda da aeronave?
“A droga foi, provavelmente, queimada quando o avião se incendiou”, revela Bianospino. Ele acredita que a quadrilha estava transportando pasta-base de cocaína, matéria-prima para a fabricação do crack.
“O Brasil não é produtor de cocaína. A cocaína é produzida, em regra, em países vizinhos aqui da América do Sul. O Brasil era, antes, apenas um grande corredor de cocaína para exportação para a Europa e os Estados Unidos e, agora, infelizmente, tem se tornado também um consumidor de cocaína na forma de crack”, sustenta.
“O que conhecemos é da rotina do tráfico de drogas e da capacidade que uma aeronave do tipo Cessna, modelo 210, tem condições de transportar. Estima-se que a média seja em torno de 400 a 500 quilos. Em regra, são transportadas as diversas formas de cocaína. Costuma ser transportada a pasta-base, que, por aqui, pode ser aumentada e oferecer maior lucratividade para o crime organizado”, conta.
Já o avião, segundo o delegado, teria caído durante tentativa mal sucedida de decolagem.
“Os policiais que estavam no momento da abordagem informaram que essa aeronave chegou a pousar, o apoio de solo efetivamente se aproximou da aeronave e o piloto tentou fugir quando percebeu a aproximação da polícia. Só que a pista que ele tinha pela frente ainda era muito curta. Então, ele fez o levantamento de voo, atravessou a rodovia Comandante João Ribeiro de Barros e acabou caindo logo em seguida, 200 metros depois”.
Bianospino não soube informar se a aeronave chegou a ser atingida por algum disparo. “Eu não posso dizer que eles tenham acertado o avião e também não posso dizer que eles não acertaram porque o avião não pode ser objeto de perícia em razão do estado em que a sua fuselagem ficou por causa do incêndio”, afirma.
O que deu errado?
De acordo com Bianospino, a morte do agente federal Fábio Ricardo Paiva Luciano não pode ser atribuída a um erro de procedimento.
“Existe uma sucessão de coisas que podem levar a uma consequência danosa como essa e nós não temos como afirmar isso sem fazer uma boa investigação, uma boa sindicância, um esforço muito sério para identificar eventual inconformidade nos nossos padrões de atendimento e de procedimento”, declara.
“Isso (erro) pode ter ocorrido e pode não ter ocorrido. A nossa atividade, como eu falei desde o início, é de risco. Na maioria das vezes, nós vencemos. E, eventualmente, podemos ter algum tipo de situação que nos entristece e que nós não gostaríamos que acontecesse”. Ele garante que o policial estava utilizando o colete balístico na ação. “O colete balístico não segura bala de fuzil. Provavelmente, o tiro que atingiu ele foi um tiro de fuzil de alto calibre”, diz.
Casos recentes
No dia 19 de janeiro deste ano, o vereador Fabiano Romão (PHS), de Bocaina, foi preso durante operação da Polícia Federal (PF) de Araraquara sob suspeita de integrar quadrilha especializada no tráfico internacional de drogas.
Segundo a PF, juntamente com A.L.C., de 26 anos, também morador de Bocaina, ele aguardava a chegada de aeronave carregada com entorpecente em uma pista clandestina de pouso na zona rural de Boa Esperança do Sul.
Os policiais federais montaram campana no local e acionaram a Força Aérea Brasileira (FAB) para monitorar, via radar, o deslocamento da aeronave. O avião da FAB chamou atenção dos membros da quadrilha que estavam em terra e a aterrissagem foi abortada. Durante a ação, houve troca de tiros e A.L.C. foi morto.
O vereador não conseguiu fugir do cerco policial e foi preso em flagrante por associação ao tráfico.
Na pista de pouso, a PF apreendeu duas armas e dois veículos, um deles carregado com seis galões de combustível para aviação, que seria utilizado para reabastecer a aeronave. O avião foi acompanhado até a fronteira do país, mas resistiu à ordem da FAB para pousar e entrou no espaço aéreo paraguaio.
No dia 27 de maio de 2010, um monomotor Cessna foi encontrado incendiado na Fazenda Diamante, na zona rural de Bocaina. Quando a polícia chegou ao local, os ocupantes do avião haviam desaparecido.
Rota
Apesar dos casos recentes registrados na região de Bocaina, o delegado Ênio Bianospino não a considera uma rota do tráfico internacional de drogas. “O crime organizado tem se aproveitado dessas pistas rurais que são pouco utilizadas para fazer os seus pousos”, alega.
“Eles se prevalecem, justamente, da aleatoriedade da utilização dessas pistas. Então, em cada pouso, eles usam uma diferente justamente para tentar enganar a fiscalização”.
Ele também não acredita na possibilidade de haver uma relação entre os casos. “O que nós temos é que essa apreensão ocorrida (em janeiro) em Bocaina tratou-se de uma operação específica, com pessoas que foram presas à época, e que essas pessoas agora presas formam um outro grupo criminoso. É possível que haja uma procedência semelhante, uma destinação parecida, o modus operandi também pode ser semelhante, mas a organização criminosa, efetivamente, é outra”, conclui.
Luto oficial
O delegado-chefe da PF em Bauru, Carlos Alberto Fazzio Costa, lamentou a morte do colega de trabalho. “Um agente apaixonado pela Polícia Federal, um agente dedicado, um pai de família, um policial da maior estirpe. Foi uma perda lastimável”, afirmou. Na sede da PF, as bandeiras ficaram hasteadas a meio mastro. O diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, decretou luto oficial em todas as unidades da PF no País.
De acordo com Costa, o diretor-geral e o superintendente da Regional de São Paulo da PF, Roberto Ciciliati Troncon Filho, cancelaram compromissos oficiais e vieram até Bauru para acompanhar o velório e o enterro do policial federal. “Eles vieram trazer a solidariedade à família e, nesse momento, é à família que eu me dirijo para externar a nossa solidariedade também”, disse.
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Bandeiras ficaram hasteadas a meio mastro na PF de Bauru; luto oficial foi decretado em todas as unidades do País |
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