Nos bares e nas esquinas de Iacanga (50 quilômetros de Bauru) os moradores estavam ainda assustados ontem à tarde com o tamanho da violência no roubo a banco. Os bandidos fortemente armados deram tiro de fuzil, explodiram quatro caixas eletrônicos do Banco do Brasil e feriram o policial militar Fábio Luiz Capi, 28 anos, na perna esquerda. Ele passa bem, mas viveu momentos de muito risco ao ser perseguido pelo bando. O ambiente de terror foi instalado por volta das 3h e durou 20 minutos.
Neste ano já são 23 roubos a caixas eletrônicos na região, sempre como alvo pequenas cidades no horário da madrugada.
Houve pelo menos mais de duas detonações com explosivo plástico, barulho suficiente para estilhaçar vidraças das casas das imediações e assustar a população. E tudo bem calculado. “A quantidade (de explosivo) foi muito bem medida para arrombar os caixas”, conta o delegado Luiz Augusto Puccinelli.
Um dos explosivos não detonou e ontem teve que ser desarmado, após orientações do Grupo Antibombas (Gate) de São Paulo.
Cenas comuns na tela do cinema em filmes de gângsteres foram vivenciadas por pessoas simples de Iacanga acostumadas com a tranquilidade da cidade. “Ouvi várias explosões e tiro para tudo que é lado, foi assustador”, conta uma dona de casa, moradora de frente da praça, onde ela, seu marido e filhos assistiram tudo pela fresta da janela. Com medo pediu para não ser identificada “Fui ver o que estava acontecendo após o forte barulho e disparo do alarme do banco e um dos homens atirou contra mim, me mandando ir dormir”, contou assustado o homem que presenciou a fuga e garante ter visto, pelo menos, 10 homens saírem correndo atirando para o alto.
A ação foi rápida, mas parece que durou horas, conta outro morador. Os bandidos chegaram em um Astra, um Renautl e um Honda Civic, todos furtados na região de Campinas com placas adulteradas. Cercaram as redondezas da praça. Depois atirou no transformador de energia elétrica e nas iluminarias para ficar escuro e dificultar a identificação deles.
Um guarda noturno, que trabalha na área a três quadras da agência, contou que um dos bandidos ao se deparar com uma testemunha deu tiro para o alto. “Vai dormir cambada de sem vergonha”.
Essa tática, segundo o delegado, é de causar o terror e não permitir nenhuma testemunha no entorno da agência localizada em frente de uma praça com estátua de São Sebastião de costas para o banco.
Não há números precisos estima-se que pelo menos 15 homens fortemente armados participaram do roubo. Até ontem à tarde a quantidade de dinheiro levada pelo bando não tinha sido divulgada. O delegado aguarda para hoje o levantamento que deverá ser fornecido pelo banco. Dos quatro caixas arrombados, pelo menos dois são de empresas terceirizadas.
Por causa do roubo, até o final da tarde de ontem alguns correntistas do Banco do Brasil tinham que recorrer a cidades vizinhas para sacar dinheiro. Também ontem a polícia prendeu um usuário de droga que aproveitou para levar para casa algumas cédulas encontradas no chão da agência. Ele foi reconhecido pelas imagens do circuito do banco. T.M.S. foi preso em flagrante por furto e encaminhado para a Cadeia de Avaí.
PMs escaparam da morte
Os dois únicos policiais militares que faziam o patrulhamento ostensivo de Iacanga na madrugada de ontem enfrentaram uma situação de risco e escaparam de ser mortos. Três bandidos fortemente armados estavam de tocaia e tentaram matá-los. Há suspeita de que os criminosos se dirigiam para a base onde tentariam tomá-los de reféns. Uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) estacionada foi também alvejada com um tiro.
Os policiais patrulhavam de carro a avenida Rui Barbosa, quando de trás de um poste, próximo da Igreja Presbiteriana, saíram três encapuzados. Um deles atirou com um fuzil. A bala atravessou a porta da viatura do lado do motorista, onde estava ao volante o soldado Rafael Lobato. O projétil passou de raspão na sua perna e causou uma queimação, bateu na direção e atravessou a perna esquerda do joelho do soldado Fábio Capi, sentado no banco do passageiro.
Os bandidos vieram para cima da viatura, enquanto Lobato se recuperou dos sentidos e, ao notar o colega ferido, saiu rapidamente do local em direção ao Jardim Vitória.
Lobato retirou o colega ferido, mancando, e se escondeu em um terreno. Momentos depois chegaram dois carros com os bandidos. Ao notarem a viatura parada no meio da rua os bandidos foram procurar pelos policiais, mas não os encontraram. Lobato retirou o cinto fez um torniquete para estancar o ferimento na perna do colega. Um dos bandidos com fuzil chegou a passar perto deles, mas eles agacharam a tempo e conseguiram ajuda momentos depois na residência de um açougueiro até chegar o reforço policial. Foram momentos de muita tensão e nem daria para um confronto contra homens armados de fuzis e escopeta.
‘Pensei que fosse trovão’
O aposentado Paulo Lapera, 67 anos, sentado no banco da praça ao lado da agência roubada, conta ao JC que pelo potencial do armamento dos bandidos não dava para a polícia fazer nada. Para ele, no entanto, a cidade precisa de mais policiais. Ele mora a poucas quadras de onde tudo ocorreu e na madrugada pensou que fosse trovão, quando ouviu o explosivo mandar para os ares um dos caixas eletrônicos.
Lapera notou no dia seguinte que não era prenúncio de chuva ao ouvir os comentários e presenciar os estragos deixados pelos bandidos.
“Aqui é necessário pelo menos uns 10 policiais. Hoje são cinco, mas dois na madrugada. Para enfrentar uma situação como a de hoje (ontem) nem polícia resolve: os bandidos estavam muito armados”.
O taxista Joaquim Fernandes, 77 anos, também acredita que mais polícia pode ajudar a diminuir a criminalidade. A cidade, segundo ele, tem muitas ocorrências de furtos provocadas por usuários de droga.
O português Bruno Gama, 39 anos, há 13 anos radicado em Iacanga, diz que a insegurança está em qualquer lugar. “Ninguém nasce ladrão, a sociedade é que forma o ladrão. Se o político rouba, as outras pessoas acham que também podem roubar”, filosofa. Para Gama, o mau exemplo parte de Brasília ao se referir aos constantes casos de corrupção para este aumento da violência.
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Renan Casal |
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Imagens dos carros abandonados pelos bandidos |
