Ciências

Universidade ?Autônoma?: eis o preço!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de uma semana circulando e ensinando na Universidade Nacional Autônoma do México, uma das melhores do mundo, algumas coisas chamaram minha atenção. Os prédios tem murais externos, gigantescos e maravilhosos com obras de artistas que deixam o ambiente lúdico e determinam oportunidades a talentos. A biblioteca central tem todas as paredes externas com obras de arte: chocante!

Em todos os lugares, e no seu brasão, deixam claro que foi fundada em 1904. Com seu nome, parecem que fazem questão de ressaltar o “Autônoma”. Me explicaram: representa uma conquista incrível obtida em 1929, quase cem anos atrás! Na história, as universidades sempre foram autônomas e, quando não são, representam simulacros que podem ser escola, centro educacional, lugar para formação de profissionais, mas não universidades.

Nos séculos 11 e 12, jovens e professores se reuniam em certos lugares para discutir o conhecimento universal, refletir e criar ideias e fatos que levassem a sociedade a progredir e o homem a melhorar. Quando os bispos, condes, duques, príncipes e reis, donos dos terrenos onde se reuniam procuravam interferir nas suas formas de pensar, agir ou funcionar, logo iam para outras paragens.

Alguns mandatários perceberam que as ideias destes grupos “universitas” eram brilhantes e aplicáveis ao progresso e combinou-se: - vocês discutem, reúnem e se organizam do jeito que vocês quiserem, não interferirei, mas quero que a população e administração se beneficiem dos avanços: assim nasceu a autonomia universitária. A luta pela autonomia da universidade significa manter a altivez para não ser reduzida à categoria de instrumentos do poderoso de plantão.

Entre as universidades brasileiras apenas Usp, Unesp e Unicamp tem total autonomia administrativa, financeira e intelectual. Apenas um cara, goste-se dele ou não, teve a coragem de dar esta autonomia às universidades paulistas: Orestes Quércia! Foi bom? Foi muito bom, mas aumentou-se muito a responsabilidade dos que compõem a universidade: desde o mais simples até o reitor. Para uma ideia mais clara, a Usp tem um dos dez maiores orçamentos do país, maior que a maioria dos estados e capitais.


O preço!

Se tem um lugar onde se deve buscar a perfeição das coisas e a retidão das condutas deve ser na Universidade: afinal ali estão, ou deveriam estar, as melhores mentes, os mais capacitados, os questionadores e analistas impecáveis. Universidade é local de pensar, refletir e fazer! Menos técnica, muito mais reflexões e questionamentos.

O dinheiro e administração da universidade deve ser tratado de forma única, com lisura, transparência total para que sirva de exemplo à sociedade e justifique a autonomia concedida e “tolerada” pela sociedade que a sustenta com impostos. Sim, quando se reclama de impostos, fala-se de educação, saúde e outros serviços.

Cada professor, funcionário e aluno deve ser fiscal de si mesmo e dos demais! Tudo que mexe com aquisição, dinheiro, orçamento, licitação e execução dentro da universidade deve ser muito questionado, vigiado, checado e verificado para que nada saia do universo lícito. Cada papel ou cheque assinado, cada depósito feito, afinal tudo deve estar conforme o figurino moral, ético e legal. Se tem uma coisa que não pode existir na universidade se chama corrupção, compra de  votos e troca de conveniências. Tudo deve ser justo, preciso, honesto e por mérito explicitado, declarado, transparente, com critérios bem definidos e aplicados a todos indistintamente.

Todos na universidade devem se sentir dono dela, privilegiados por estar em instituição secular. Você já pensou receber mais que 10% do orçamento do estado mais rico da nação para administrar livremente cada uma das três universidades! Vamos colocar a mão na consciência e agradecer por tamanha generosidade que a sociedade faz com a universidade ao lhe dar tamanha confiança e cheque em branco dizendo: tome façam como, quando, onde e o que quiserem com este dinheiro e nos devolvam cidadãos completos e os benefícios de sua inteligência!

Alguns não conhecem a história e o valor da autonomia universitária, mesmo dentro das instituições. Talvez por isso transgridam as regras como se estivessem fora do ambiente universitário. Que saibam: universidade “autônoma” tem um preço que se chama responsabilidade, ética e transparência absoluta. Sempre!

Preservemos!


Alberto Consolaro é? professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br

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