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Lagoa da Quinta da Bela Olinda é ?água de ninguém?

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

“Praticamente todo dia, vem um caminhão tirar água daqui”, diz um morador das imediações da Lagoa da Quinta da Bela Olinda, localizada no bairro que recebe o mesmo nome. A afirmação feita por ele é semelhante à de outros moradores e pescadores que costumam frequentar o local: a movimentação de caminhões-tanque que retiram água da lagoa é constante.

O problema é que a atividade depende de outorga do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), que não emitiu nenhuma autorização do tipo para a área no último ano. Como uma verdadeira “terra de ninguém”, a lagoa é utilizada de maneira irrestrita como fonte de água para empresas e até mesmo órgãos públicos, segundo relato de moradores e usuários.

Morador das proximidades há cerca de cinco anos, um homem que preferiu não se identificar conta que, praticamente todas as manhãs, quando sai para trabalhar, flagra um caminhão retirando água da área pública. “Geralmente, eles estão sem identificação. Chegam e, mesmo que tenha gente nadando ou pescando, não se intimidam”, observa.

O estoquista Carlos Alberto Martins, 48 anos, pesca na lagoa há mais de 30 anos e conta que, vez ou outra, também nota a presença de caminhões que se aproximam para serem carregados d’água. “Já vi homens uniformizados descendo de caminhões com identificação de órgãos públicos. O movimento aumenta principalmente na época de seca”, comenta.

Conforme o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, a água pode estar sendo retirada clandestinamente da lagoa para a execução de obras da construção civil, limpeza e irrigação de áreas secas. Assim como ele, o secretário municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, afirma conhecer o problema, mas diz que depende de denúncias para poder autuar os infratores.

“Não conseguimos manter uma fiscalização diária. A gente sabe que as irregularidades ocorrem porque os moradores comentam e, às vezes, os caminhões deixam rastros nas margens da lagoa. Mas é difícil identificar, porque a ação deles é rápida”, observa.

Flagra

No último dia 14, a reportagem do JC flagrou homens em um caminhão-tanque cometendo a infração. Com placas de São Bernardo do Campo e identificado com a logomarca da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o veículo foi abastecido com água da lagoa por volta das 16h e foi embora, impune.

Horas antes, coincidentemente, a prefeitura havia recolhido duas toneladas de resíduos dos arredores, numa parceria com diversas entidades para comemorar o Dia Mundial da Limpeza de Rios e Praias.

Por meio de nota, a Sabesp informou que o caminhão fotografado pela reportagem pertence a uma empresa que compra água de reúso da companhia, mas que o veículo não faz mais parte do cadastro desde 2012 e, portanto, não tinha autorização para usar a logomarca da empresa.

A Sabesp esclareceu ainda que já está tomando as providências cabíveis e medidas administrativas e legais, inclusive em órgãos ambientais, pela conduta irregular da empresa responsável pelo veículo.

A companhia ressalta que a água de reúso, produto não potável, deve ser transportada por caminhão apenas para este fim, com a devida identificação, e apenas pode ser retirada diretamente das estações de tratamento de esgoto, conforme determina o contrato da empresa. 


Projeto

Segundo o secretário municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, até o final deste ano devem ser concluídos os estudos para elaborar o projeto que pretende transformar a área da Lagoa da Quinta da Bela Olinda em um parque. A iniciativa, no entanto, depende de recursos que, atualmente, não estão disponíveis dentro do Orçamento da prefeitura.

“Este estudo deverá estimar o custo e as áreas que poderiam ser utilizadas. Nossa vontade é fazer um espaço com aspectos do Parque Vitória Régia e do Bosque da Comunidade”, adianta. Enquanto o projeto não é posto em prática, a secretaria afirma que providencia, periodicamente, a limpeza e capinação do entorno da lagoa.


Perigo

Com aproximadamente 60 mil metros quadrados de área, a lagoa da Quinta da Bela Olinda é o local onde os afogamentos são registrados com maior frequência em Bauru. Com a proximidade do verão, a tendência é de que os acidentes com pessoas que se arriscam na água voltem a ocorrer.

Em entrevista recente ao JC, o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, explicou que o alto índice de mortalidade na lagoa da Quinta da Bela Olinda deve-se a duas características do local: o sedimento que compõe o fundo da lagoa e o terreno irregular. “Ela é composta por um sedimento pegajoso. Assim, a pessoa pode ficar presa e se afogar. É como se fosse uma areia movediça”, explica.

Em relação à irregularidade existente no fundo da lagoa, Brito destaca que, mesmo nas proximidades da margem, há grandes variações de profundidade.

“A pessoa pode estar em um lugar que dá pé e, poucos metros à frente, encontrar um buraco enorme. Há alguns anos, foi feito um mapeamento que apontava locais com profundidade de mais de 7 metros”, conta.

Além disso, a lagoa tem uma grande quantidade de entulhos – arames farpados e até carros e motos – depositados, o que serve de armadilha para os banhistas. “Além disso, muitas pessoas entram na água após se alimentar, podendo ocasionar congestão e consequente afogamento”, alerta Brito.

Apesar de terem sido instaladas placas apontando o perigo do local, muitas dessas sinalizações já foram destruídas por vândalos, o que intensifica o perigo. Aos pescadores, outro alerta: a ingestão de peixes capturados na lagoa também não é recomendada.

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