Com um lacinho verde no pescoço, a poodle mestiça (eufemismo para uma graciosa vira-lata) escapou de sua residência, no Parque Vista Alegre. Quase um mês depois, os donos ainda não acharam a cachorra. Ela é apenas uma das dezenas de animais que, diariamente, se perdem dos donos em Bauru. Na lacuna do poder público, um projeto privado criou um cadastro para tentar resolver o problema.
A ferramenta se trata do Cadastro Nacional de Animais Domésticos (Cnad). Por meio do site, o proprietário paga uma taxa anual de R$ 25,00, cadastra os seus dados e recebe uma placa de identificação para colocar no animal. Nesta plaqueta, haverá o endereço eletrônico para acessar o cadastro e uma sequência de números e letras.
“Caso o animal se perca e alguém o encontre, basta entrar no endereço do Cnad e colocar a identificação. Com isso, a pessoa vai obter os dados como o telefone e e-mail do dono daquele animal perdido”, relata o veterinário Juliano Caçador, que idealizou o projeto juntamente com o administrador Richard Fernando de Oliveira e o programador Willian Bellini.
A ferramenta entrou no ar há 40 dias e, de acordo com o veterinário, já são 600 cadastrados. “Nossa ideia é criar um cadastro nacional mesmo. A maioria de quem já se cadastrou é de Bauru, porém, já há algumas pessoas de outras cidades da região e até uma de Maringá (PR)”.
Juliano Caçador conta que, em 11 anos de profissão, já acompanhou inúmeros dramas de proprietários que perderam os animais e nunca mais os encontraram. “Na minha página da rede social, tenho uma média de 30 pessoas por dia que relata ter perdido um animal de estimação. Então, a ideia é realmente promover reencontros”.
Outra expectativa é que, com um grande número de cadastrados, as pessoas passem a recolher temporariamente mais animais que estejam nas ruas.
“Hoje, as pessoas encontram um cachorro ou gato na rua e não o recolhem justamente pela dificuldade que será encontrar o dono. Se ela perceber que o animal possui uma placa de identificação e que há essa facilidade, isso deve mudar”, completa o veterinário.
Lacuna
Com o Cnad, a iniciativa privada atua exatamente em uma brecha do poder público. Bauru não conta com uma ferramenta semelhante que possibilite o reencontro de animais perdidos com seus antigos donos.
Atualmente, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da cidade até tem um cadastro dos animais, porém ele é direcionado mais para políticas de responsabilidade dos proprietários.
“A finalidade não é a mesma. Temos um cadastramento, porém, não é para reencontrar donos de animais perdidos”, afirma a diretora do Departamento de Saúde Coletiva de Bauru, Heloísa Lombardi.
Tal cadastro municipal seria para políticas públicas de posse responsável apenas. “É uma ferramenta que faz parte do programa de posse responsável do município e para que tenhamos um dado mais fidedigno de quantos animais nós temos em Bauru. Pedimos, inclusive, para os proprietários irem ao CCZ para atualizar esses dados”, finaliza.
Serviço
O Cadastro Nacional de Animais Domésticos (Cnad) pode ser acessado pelo endereço www.cnad.com.br. A taxa anual de adesão da ferramenta é R$ 25,00 e ela pode ser feita pelo site. Informações: (14) 3206-2110 ou 99729-4158. Já o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) fica na rua Henrique Hunziker, sem número, no Jardim Redentor.
Casal de pequineses já está cadastrado
Há um mês, Francisco e Rita de Cássia ganharam um adereço novo no pescoço. Trata-se da plaquinha de identificação do Cnad. A dona do casal de pequineses, Fernanda Caroline Pinheiro, 34, afirma que procurou o serviço por já ter tido experiência com a fuga de um animal. “No passado, tive uma bull terrier que fugiu. Ela escapou pelo portão e tivemos um trabalho enorme para encontrá-la. Agora, resolvi entrar neste serviço”, conta a bióloga.
Ela acredita que a maior parte das pessoas que encontra animais nas ruas procura localizar o dono. “Acho que cerca de 80% tenta encontrar o proprietário. Por isso, acredito que essa ferramenta terá um benefício muito grande”, completa.
E a poodle mestiça?
A cachorrinha descrita no começo da reportagem, que se perdeu no Parque Vista Alegre, continua desaparecida. Ela sumiu no dia 5 de setembro e foi vista pela última vez no Jardim Pagani.
Preta e cinza, a cachorra é de porte grande e usava um lacinho verde no pescoço. Os donos oferecem gratificação. Quem souber de algo pode ligar para (14) 98803-0421.
Prefeito projeta mais políticas públicas para o próximo ano
E não é só o cadastro de animais que é falho em Bauru. Ainda faltam políticas públicas para o controle populacional e a posse responsável. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) projeta que, em 2014, a cidade tenha avanços na área.
O primeiro objetivo é montar uma estrutura municipal para castrações. “Já estamos com recursos para o ano que vem. Conseguimos uma emenda parlamentar para viabilizar esse projeto”, aponta o chefe do Executivo.
Conforme o JC publicou em março, a população de cães e gatos em Bauru é de aproximadamente 90 mil. A política de castração municipal emperrada faz esse número somente crescer.
O outro objetivo para o próximo ano é criar uma central de doações. “Hoje, as doações em Bauru ocorrem muito nas feiras. A ideia é instalar um local mais no Centro da cidade permanente para isso”.
Um dos entraves para a causa animal é que a verba sempre vinha pela Secretaria Municipal de Saúde e vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, na área ambiental, só podia ser usada no controle de zoonoses. “Estamos passando o orçamento para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) justamente para poder ter essa verba à disposição para esses projetos”, finaliza Agostinho.
Enterro de animais ainda é tratado como descarte
A morte de um animal de estimação é um trauma para as famílias. Porém, além da perda, há outro ponto triste. A cidade não conta com um local para enterrar os animais. Assim, a política continua sendo de descarte.
Se o animal morrer, a pessoa tem uma solução considerada muito fria pela maioria. É preciso embalar o bichinho, colocar na calçada e agendar com a Emdurb. A empresa municipal recolhe e contrata uma empresa que faz a incineração fora de Bauru.
Quando os animais morrem em clínicas veterinárias, esta mesma empresa, que se instalou recentemente em Piratininga, é contratada para o serviço. O custo é por quilômetro rodado.
O prefeito Rodrigo Agostinho afirma saber da importância de um cemitério de animais. Porém, reconhece que não é a prioridade no momento. “Temos outras políticas públicas a se pensar antes. Outro problema seria arrumar uma área para essa finalidade. É algo que eu terei dificuldade”, argumenta.