Cultura

De primeira linha

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Divulgação

Pai de dois filhos, João Crepaldi Nellis, que é de Araçatuba e mora em Bauru, foi um dos cinco entre 1.500 inscritos a vencer concurso nacional e, agora, terá seu grafite (foto) exposto em uma das novas estações do Metrô de São Paulo

Entre 1500 inscritos, apenas cinco foram escolhidos. E nesta seleta lista está João Crepaldi Nellis, o araçatubense que elegeu Bauru para viver e que foi um dos ganhadores do Concurso Cultural Arte de Obra, promovido pelo Governo de São Paulo em parceria com o Metrô São Paulo.

Após avaliação composta por artistas profissionais, os trabalhos dos artistas foram analisados por um júri popular e escolhidos por meio do site do Metrô de São Paulo. O resultado da competição foi divulgado na última quinta-feira, revelando e consagrando o talento do grafiteiro conhecido como Jota Crepaldi.

Tanto Crepaldi como os demais vencedores do concurso terão agora o privilégio de expor seus trabalhos nos tapumes das estações de metrô da Linha 5-Lilás, que está em construção. Até a próxima quarta-feira, a organização do evento entrará em contato com o artista para marcar o início da produção da obra.

“Estou ansioso. Agora mais pessoas poderão ser provocadas pelo meu trabalho e refletir sobre o futuro que temos direito e queremos. É um orgulho poder representar Bauru”, destacou o artista.

‘É fácil julgar o pichador como criminoso’

Formado em Publicidade e Propaganda e graduado em Gestão de Marketing, Jota Crepaldi é coordenador do Departamento de Marketing do Grupo Multicobra. Nas horas vagas, o artista, que é autodidata, produz quadros, faz trabalhos para agências de publicidade e grafita pelas ruas de Bauru.

Entre os temas abordados por Jota Crepaldi está o momento político atual. “Para mim, a arte deve provocar e fazer refletir, muito além apenas da estética”, afirma. Confira a entrevista com ele para o JC.

JC - Como se interessou pela arte?

Jota Crepaldi - Desde que tenho consciência de mim, desenho e faço arte. Acho que como a maioria das crianças da minha geração, comecei com as histórias em quadrinhos e de lá pra cá não parei mais. Como sou autodidata, mudei as mídias apenas, mas continuo contando histórias através da minha arte.

JC - O que acha do grafite na contraposição ao pichador?

Jota Crepaldi - Essa é uma questão bastante complexa. Sinceramente, acho muito fácil julgar os pichadores como criminosos, mas como tudo no Brasil, tapamos o sol com a peneira. A única comparação que posso fazer entre um pichador e um grafiteiro é a da oportunidade. Todos têm a necessidade de se expressar, seja da forma que for. Partindo desse raciocínio, vejo que a maioria dos pichadores são de origem humilde e é pela falta de centros de lazer e cultura nos bairros que esses jovens saem pichando. Nunca vou cansar de parafrasear Pitágoras: eduquem as crianças e não será preciso punir os homens.

JC - Enfrentou preconceito?

Jota Crepaldi - O preconceito está em todo lugar, infelizmente. Não só na arte urbana, mas nas artes em geral. Além disso, as pessoas preferem valorizar o que é feito em série por uma máquina do que algo feito à mão, que dispendeu tempo, atenção e carinho. 

JC - Foi o primeiro concurso de que participou?

Jota Crepaldi - Foi o primeiro que participei e fiquei bastante feliz com o resultado, pois venho trabalhando há alguns anos com arte urbana pelo interior de São Paulo e ter uma obra dessa magnitude exposta em um local de grande concentração de histórias e diversidades como o Metro de São Paulo é algo muito interessante. Estou aberto a todos os tipos de trabalho e o sonho de qualquer artista é viver, e não apenas sobreviver da arte. 

JC - O que espera que ocorra agora?

Jota Crepaldi - Espero poder levar minha arte para muitos lugares, fazer grandes murais em diversas cidades, quem sabe até fora do país, como alguns artistas brasileiros estão conseguindo. Como Os Gêmeos, Eduardo Kobra, Crânio, etc. O ideal é amar o que faz, e é isso que amo fazer. É o que ensino aos meus filhos, (Suzana, 7 anos e Dudu, 6 anos), respeitem as pessoas, façam a elas o que gostariam que fizessem a vocês e sejam felizes.

JC - Tem algum outro projeto na área?

Jota Crepaldi - Estou trabalhando para minha primeira exposição, em parceria com a minha esposa Eveline Rodrigues. Será uma série de 15 obras em mídia mista, com proposta sustentável, reutilizando banners de lona e aplicações de sobras de tecido, rendas, tachas, botões e spykes. As pinturas estão sendo criadas com spray ao estilo grafite e podem ser chamadas de estandartes. Tem como tema a atual transformação político-cultural que o Brasil está atravessando, traçando paralelo filosófico com a crença de redenção de diversas religiões. “E antes da aurora, na hora mais escura, haverá choro e ranger de dentes.”

 

Comentários

Comentários