Nesta meia-década de uma crise que ? honestamente falando - não precisava ter existido, mesmo com muito boa vontade talvez não se consiga preencher os dedos da mão com boas notícias da economia mundial. Nada parecido com estes primeiros 10 dias de outubro quando surgiu o primeiro sinal inteligente de que a política monetária da maior potência mundial vai mudar, escolhendo a recuperação do nível de emprego como a sua meta principal.
É dessa forma que se deve entender a indicação da economista de 67 anos Janet Yellen à presidência do Banco Central dos Estados Unidos para substituir Ben Bernanke a partir de janeiro de 2014. Na vice-presidência do FED desde 2010 ela já vinha exercendo forte influência sobre Bernanke, como ficou demonstrado em junho deste ano quando defendeu publicamente a manutenção dos estímulos monetários até que a taxa de desemprego voltasse ao nível de 6,5%. Disse com muita clareza naquela ocasião que para ela os objetivos de recuperação da atividade econômica e de elevação dos níveis de emprego têm que estar à frente das metas de controle da inflação. Para quem achar que estou exagerando na ênfase, apenas lembro que a política monetária dos governos nacionais desde setembro de 2008 se orienta mais das decisões do colegiado do Federal Reserve dos Estados Unidos do que dos comitês monetários de seus próprios Bancos Centrais.
Esses comentários sobre o anúncio da ascenção da primeira mulher ao comando do órgão que dita a política monetária mundial (após 14 presidentes) acabou ocupando grande parte do tema que tinha preparado para o artigo desta semana sobre os reajustes salariais que nestes três primeiros trimestres do ano pressionaram menos os custos industriais no Brasil. O que estava acontecendo é que a partir de 2003/2004 o crescimento do salário nominal na indústria vinha se situando muito acima dos aumentos de produtividade, resultando num nível de salário real incompatível com equilíbrio adequado para a nossa economia. Aumentos do salário real que não correspondem ao crescimento da produtividade, terminam se dissipando ou em inflação ou em déficits em conta corrente que é o que nós estamos vivendo.
Durante muito tempo isso aconteceu. Como tínhamos uma taxa de juro muito alta, o câmbio real se valorizou, roubando um pedaço da exportação e a demanda interna da indústria brasileira porque o subsídio cambial à importação era enorme, o que produziu um grande enfraquecimento da indústria.
O setor de serviços que não era submetido à concorrência permitia a elevação dos salários, aumento que migrava para a indústria, desarticulando o sistema produtivo. A partir do ano passado, isso começou a ser corrigido. Nos três trimestres de 2013 os aumentos reais de salário foram menores: creio que qualquer coisa entre 1% e 1,5% de crescimento real, ao ano, o que continua acima do aumento da produtividade, porque ela praticamente não cresceu; mas já é uma situação melhor do que foi nos anos passados.
O autor, Antonio Delfim Neto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento, e articulista do JC