Geral

Redes sociais é a nova onda entre os idosos


| Tempo de leitura: 7 min

Reprodução Internet

O número de pessoas com mais de 50 anos na web cresceu 222,3% de 2005 a 2011

Na semana passada, o computador de Sebastiana Martins, de 78 anos, ficou estragado por três dias. Foi um tempo de agonia. “Parece que eu tô sem roupa, bem!”, disse ela à reportagem na terça-feira passada. “O estabilizador liga, mas a CPU está fazendo um barulho muito estranho, vuuum, vuuum...” A aposentada estava, então, privada de um dos passatempos mais divertidos que encontrou nos últimos anos: fazer pesquisas no Google, “puxar” música no YouTube, checar e-mail e conversar com um de seus 107 amigos no Facebook.

Apesar de ter nascido 60 anos antes do início da internet no Brasil, Sebastiana é usuária ativa da rede mundial de computadores. A barreira do contato com a máquina ela venceu há alguns anos - basta ver a familiaridade da ex-costureira com a descrição das peças que compõem um PC e a sua disposição para mexer no Macintosh da neta Raquel. Nem o vocabulário digital é segredo para ela. “Adoro receber pps”, diz. Pps é a terminação de arquivos gerados pelo Power Point no formato de apresentação de slides.

A avó entende até o que é mensagem privada no Facebook. “Ah, se quiser me achar lá (na rede social), eu sou uma senhora linda de cabelos brancos. Mas procura pelo nickname. Meu nickname é Lelé.”

Embora a atividade virtual de Lelé impressione, ela não é uma entre poucas avós “conectadas”. Segundo a empresa de pesquisa comScore, 84,2% dos internautas brasileiros acima de 55 anos estão presentes no Facebook, conforme levantamento de agosto. Nesse mês, cada um deles gastou, em média, 586 minutos na rede social, ou seja, 19 minutos por dia.

A presença significativa na rede é uma consequência do crescente acesso dos mais velhos à internet. Apesar de responder pela menor parcela de internautas, o número de pessoas acima de 50 anos na web cresceu 222,3% entre 2005 e 2011, segundo o IBGE. Trata-se de um público que frequenta sites de notícias, faz compras online e muitas vezes mantém contato com filhos por serviços como Skype.

Para Cristina Fogaça, mestre em gerontologia e diretora da Faculdade Aberta para a Maturidade Ativa (Fama), a imersão da terceira idade nesse ambiente virtual resulta da mais fácil assimilação das novas tecnologias hoje. “Tecnologia não é mais um bicho de sete cabeças para eles como era antigamente, diz.”

A especialista conta que suas alunas são encontradas facilmente no Facebook fora do horário de aula e que há algumas que, durante passeios, publicam foto no site e na mesma hora recebem várias “curtidas” e palavras de incentivo.

As irmãs Lima conhecem bem esse tipo de interação online - e não só via Facebook. Ivani, de 59 anos, Jandira, 67, Irani, 69, Iracy, 74, Jacyra, 77, se encontram online todos os dias para jogar tranca. “Às vezes a gente fica até uma hora da manhã jogando”, diz Irani.

Com exceção de Irani, que se diz “fuçona” e desmonta o computador para limpar a parte de dentro, as irmãs contam com a ajuda do sobrinho Ricardo para descobrir o mundo da web. Gerente de projetos da IBM Brasil e colunista “voluntário” do Portal da Terceira Idade, ele fala com encanto do modo como suas tias e outros familiares abraçaram as novas tecnologias.

“Meu sogro, de 64 anos, é aposentado, mas trabalha como temporário em feiras de exposição para as quais ele se candidata online. Até as empresas que precisam da mão de obra dos idosos recrutam online.”

Antes de encarar a internet, existe o desafio de encarar o novo universo de um computador, com sua áreas de trabalho, atalhos, pastas e navegadores.

Segundo pesquisa do Ibope Media, mais da metade dos brasileiros entre 65 e 75 anos dizem ainda se sentir confusos com computador, apesar de 28% se manterem atualizados com os avanços tecnológicos.

O medo de estragar o equipamento e instalar um vírus estão entre os receios mais comuns no início do aprendizado de idosos, segundo professores de informática. William F. Henrique, que ensina idosos há 15 anos, diz que seus alunos da terceira idade se dividem em duas categorias: uma delas nunca teve contato com computador e a outra tem noções da informática de anos atrás.

“Alguns aprenderam a usar o MS-DOS e a linguagem Basic, já completamente obsoletos, só para você ter uma ideia.”

Por isso, diz ele, paciência e respeito ao ritmo são ingredientes fundamentais. O computador de Lelé, por exemplo, não estava estragado. A máquina não estava ligando porque, provavelmente, Lelé estava demorando com o dedo no botão da CPU.


Fabricantes adaptam celulares para a 3ª idade

Com o uso da web migrando cada vez mais para plataformas móveis e a perspectiva mundial de envelhecimento da população, os fabricantes de smartphones começam a voltar suas atenções para a terceira idade e a pensar em soluções para descomplicar o uso dos aparelhos.

No Japão, onde uma em cada quatro pessoas já tem mais de 65 anos - o equivalente a 23% da população - smartphones específicos para a terceira idade já são realidade.

Os modelos substituem ícones pequenos e difíceis de acessar por mãos trêmulas e envelhecidas, por outros maiores e funções mais simples. Há ainda botões para chamadas de emergência que acionam com um toque familiares cadastrados e rastreadores que indicam a localização do usuário do aparelho.

A NTT DoCoMo, principal operadora japonesa de telefonia móvel, foi a primeira a lançar um smartphone para idosos em parceria com a Fujitsu. Os modelos chamados “raku-raku” (fácil-fácil, em japonês) têm as principais funções destacadas em ícones grandes na tela principal do aparelho.

Os ícones mudam de cor quando selecionados e, se forem apertados continuamente durante algum tempo - o que poderia resultar na exclusão de um aplicativo na maioria dos smartphones - emitem um alerta vibratório para confirmar a operação. Além de letras e números maiores, o smartphone também têm uma tecnologia para amplificar o volume do áudio e corrigir eventuais distorções na ligação.

Outro modelo, o 204SH, foi lançado em maio pela SoftBank, terceira maior operadora de telefonia móvel do Japão. A tela touchscreen do modelo foi programada para responder quando um dedo é firmemente pressionado contra a tela, evitando erros no acesso por mãos com pouca firmeza. A tela tem uma espécie de lupa para aumentar o que está escrito e a maioria dos funções é acessível pelo comando de voz.

No Reino Unido, a fabricante Emporia, presente em 30 países, fez uma pesquisa em parceria com a Universidade de Cambridge para entender como os mais velhos usam seus celulares e se especializou em desenvolver smartphones para a terceira idade.

Os smartphones vêm com teclas bem grandes e botões de emergência, além de sensor de queda, que dispara uma ligação de emergência para um contato pré-configurado caso detecte algum movimento brusco.

Há modelos focados nas mulheres e até para idosos praticantes de esportes - a prova d’água e mais resistentes.

No Brasil, onde o crescimento da base de smartphones é recente - as vendas desses aparelhos superaram a dos celulares simples, chamados “feature phones”, pela primeira vez entre abril e maio - ainda não existem modelos específicos para idosos.

A Gradiente foi uma das poucas fabricantes a lançar um celular simples para esse público, chamado Safe Phone, com teclas maiores, botão de pânico que faz chamadas emergenciais e rastreador GPS.

Considerando-se as projeções futuras, esse cenário deve mudar. Atualmente, as pessoas com mais de 60 anos são 12,6% da população, o equivalente a 24,85 milhões de indivíduos. Até 2060, porém, a proporção de idosos no País vai crescer 3,6 vezes e chegar a 58,4 milhões, o equivalente a 26,7% da população.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Nielsen divulgada em junho aponta que a adoção de smartphones por norte-americanos entre 55 e 64 anos dobrou no último ano, embora o grupo permaneça tendo menor adoção do produto (42%).

As fabricantes já estão atentas para essa tendência e inserindo funções específicas para os idosos em seus pacotes de ferramentas de acessibilidade.

“Hoje temos uma preocupação não só com públicos diferentes, mas também com a acessibilidade. Queremos mudar a forma das pessoas interagirem com o celular”, diz Renato Arradi, gerente de produto da Motorola.

A empresa, que em setembro lançou no Brasil o modelo Moto X, diz que o aparelho tem funções como comando de voz e navegador Google Chrome sincronizado com o computador, que possibilitam ao usuário enviar um SMS para um contato diretamente do seu computador, que facilitam o uso pelos usuários mais velhos.

Já a fabricante BlackBerry oferece opções de melhoria de áudio e aumento de tamanho de fonte em seu sistema operacional, além de ferramentas como videochat.

 

Comentários

Comentários