Bairros

Planejamento é segredo para férias inesquecíveis

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 9 min

João Rosan

Marcelo Fernandes: “Hoje a procura é muito grande, tem muito mais gente viajando”

Cada vez mais pessoas tiram férias. E mais gente em férias viaja. Além disso, a cada dia é mais comum tirar férias fracionadas ao longo do ano e fazer passeios mais curtos, geralmente de uma semana, por questão de praticidade e facilidade de pagamento - a velha relação de custo/benefício. Hoje já não é absoluto o padrão de 30 dias consecutivos de férias. Várias categorias de trabalhadores negociam com o empregador para dividir o período de descanso e recebem em dinheiro parte das férias, viabilizando o lazer nos dias restantes. Outros, como os profissionais liberais, vivem a realidade de planejar suas viagens para feriados.

O economista Mauro Fernando Gallo afirma que as mudanças econômicas no Brasil alteraram não só o padrão de férias, mas a quantidade de pessoas que gozam deste benefício.

“Você tem algumas coisas que influenciaram nisso. Primeiro, um número maior de pessoas com carteira assinada e que passam a ter direito a férias. Na informalidade não existe isso. A possibilidade de negociar os dias e fracionar as férias. Outra coisa, a própria possibilidade de adquirir carro facilita para passear, para ir à casa de um parente em outra cidade”, aponta. “Aquilo que só alguns tinham, se ampliou. Lógico que para vários tipos de viagem. Até aquela para a casa de um parente”, acrescenta.

Outros aspectos que contribuem para mais pessoas tirarem períodos mais curtos de descanso e viajar são as facilidades que o mercado apresenta, de olho na fatia de novos viajantes.

“Existem outros aspectos hoje. Um cruzeiro ficou mais barato, por exemplo. A pessoa faz um cruzeiro de quatro, cinco dias por R$ 80,00 por mês. Ele faz em dez pagamentos. Passagens de avião mais baratas... várias coisas colaboram”, define Gallo.

“Até para viagens para o Exterior, várias companhias fazem pacotes de cinco dias. São viagens baratas que a pessoa paga em dez, 12 vezes. E as companhias, com isso, vendem mais passagens. A ideia é vender mais. E a pessoa aproveita”, aponta o economista.

Gallo afirma que, com o fracionamento cada vez mais constante das férias, viagens longas, com mais de uma semana ou dez dias, hoje são mais frequentes para o público aposentado ou com muita renda. A tendência é confirmada pelas agências de viagem. O pacote de uma semana é mais procurado.

“O que mais vende é o de uma semana. Não só para o Brasil, mas também para o Exterior”, aponta Marcelo Fernandes, de uma agência de turismo de Bauru. “A procura é grande e existem diversos tipos de montagem de pacotes. Mas o que mais compensa hoje são os pacotes de uma semana. Ele fica mais barato porque há um acordo entre operadoras, companhias aéreas e hotéis”, explica Fernandes.

“Os pacotes de menos dias ficam mais caros do que os de oito dias”, reforça Renan Tech, representante de outra agência. Além disso, Tech diz que o mercado verifica forte crescimento da demanda por viagens internacionais. “A tendência internacional está subindo mais. Antes, poderíamos dizer que a relação era de 20% de viagens internacionais para 80% de viagens nacionais. Hoje, está em 40% para internacional e 60% nacional”, aponta.

Tech revela os motivos que levam cada vez mais bauruenses a trocar o passeio “em casa” pelas viagens a terras estrangeiras. “A facilidade em relação ao custo/benefício de viajar dentro do Brasil é de longa data, o pessoal já viajou muito. Hoje, as pessoas estão querendo um destino fora. O que não é difícil de pagar, a diferença não é grande e se parcela em várias vezes. Acaba compensando”, comenta. Fernandes acrescenta ainda que o mercado tem se mantido estável em alta. “Hoje a procura é muito grande, tem muito mais gente viajando. Mesmo no período da alta temporada, que é o mais caro”, ressalta.

 

Para onde o bauruense vai

O Jornal da Cidade apurou que os principais destinos dos bauruenses em território nacional ficam no Nordeste. Natal, capital do Rio Grande do Norte, Porto Seguro, na Bahia, e Porto de Galinhas, em Pernambuco, puxam a lista de locais preferidos para viagem dentro do Brasil. No Exterior, Punta Cana, na República Dominicana, Cancun, no México, e Buenos Aires, capital da Argentina, são os locais mais procurados.

 

Planejamento é segredo para férias de profissional liberal

Ser o próprio patrão, em tese, lhe permite definir como bem entender quando serão suas férias. Afinal, a prestação de contas é apenas a você mesmo. Porém, para os profissionais liberais, que vivem o dia a dia de “trabalhar para si”, as férias requerem planejamento para manter a saúde financeira da “empresa eu”.

“Profissional liberal para de trabalhar e tem o chamado lucro cessante. Você fechou a porta do consultório, suas contas fixas continuam e você para de receber, e normalmente gasta dobrado”, destaca o dentista Cirilo César do Lago Lopes.

A equação só se resolve com uma programação meticulosa para sair de férias com tranquilidade e não encontrar cobradores à porta no retorno. “Você tem que se preparar, ter um bom planejamento financeiro. Esta é a primeira coisa, é muito importante ter um bom planejamento financeiro para suas contas fixas não atrasarem”, alerta. “Se você for bem controlado nos dias em que está trabalhando, vai poder aproveitar os dias que não vai trabalhar”, acrescenta.

Com uma realidade assim, férias contínuas, no modelo mais tradicional de 30 dias ininterruptos, nem pensar. A solução é fracionar e curtir vários períodos ao longo do ano. “Moramos no país dos feriados. Para mim, é interessante parar nos feriados. Normalmente, nós (ele e a esposa) acabamos emendando. Os bancos acompanham estes feriados, tem os feriados da prefeitura. Você acaba acompanhando e parando. Isso faz com que você tenha um número de dias parado importante. Dá para espairecer”, considera Lopes.

O dentista comemora outra conquista que obteve: ter finais de semana sem trabalho. “Eu consegui, depois de uns 15 anos de formado, parar de trabalhar no sábado. O que também já é interessante, ficar sem trabalhar o sábado e domingo. Ter um final de semana para poder se dedicar à família e outras atividades que não sua atividade profissional”, celebra Lopes.

 

Recessos e férias

A palavra planejamento é mandamento também para outra categoria de profissionais liberais para poderem tirar férias e de fato ter tranquilidade e descanso: os advogados. “A advocacia é muito peculiar porque em dezembro, janeiro e fevereiro acabou. Ninguém quer cuidar dos problemas. Pobre paga conta para tirar o nome do Serasa, rico viaja e classe média está liquidada neste país e não faz nada. Então, jamais procurarão por um advogado”, brinca o advogado Moacyr Caram Júnior.

Entre as peculiaridades da categoria, Caram lembra os recessos da Justiça e as férias forenses, que exigem do advogado um planejamento bem elaborado para poder arcar com os gastos e ter lazer sem atrasar contas.

“Temos os recessos da Justiça. Dia 20 de dezembro já para tudo. E, no mês de janeiro, entram as férias forenses, é uma coisa pior ainda para a gente. O que a gente vem fazendo e sugere a todos os advogados é que se faça uma programação durante o ano, porque as contas continuam nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro e você não tem retorno financeiro”, alerta.

Caram relata também que os vencimentos relativos ao período de festas entre dezembro e janeiro são costumeiramente pagos por clientes em fevereiro em virtude de outros compromissos.

“E nos finais de ano, quem tem para pagar, deixa para pagar em fevereiro por causa das atribuições de impostos e coisas de começo de ano, além dos gastos com as férias”, explica. “Então, a arma, o segredo, é programação. É deixar as contas pagas ou fazer a projeção e guardar o dinheiro. É organização. Quando a gente se organiza, a vida se torna muito mais fácil, mais simples”, conclui.

 

Descanso na contramão do fluxo

Qual é o momento de lazer de quem proporciona o lazer alheio? Esta é a questão que músicos, por exemplo, enfrentam no momento de tirar férias. A solução é andar na contramão do fluxo e aproveitar as “baixas temporadas”. Euler Silva, por exemplo, brinca que seu período preferido para curtir as férias vem com as “águas de março”. “Março é um período em que terminam totalmente as férias e o Brasil começa a andar. Todo mundo está retendo gastos e o pessoal não sai tanto, os contatos ficam mais rarefeitos”, explica o músico.

Luiz Américo L. Manaia, o Ralinho, afirma que as férias anuais ficam por conta de algum final de semana prolongado e do Natal, quando a vida noturna sofre uma retração. “Quando minha esposa tira férias, eu deixo um final de semana sem marcar nada para a gente conseguir dar uma viajada. Tento conciliar, deixo o final de semana livre para conseguir emendar. E final do ano, geralmente Natal, a gente não toca. Aí dá para viajar, ver a família em outra cidade”, relata.

Ambos os músicos admitem que é raro tirarem férias de fato. “Eu praticamente não tiro férias”, crava Ralinho. “A última vez que conseguiu sair de fato de férias foi em 2008”, acrescenta Silva. “Depende muito do momento em que a banda está ou você está, se você acha que está com ‘gás’ para continuar. Mas dá uma estafada, é uma correria do dia a dia, tem que matar um leão por dia. A gente é autônomo”, acrescenta.

Silva ressalta que a rotina de shows e viagens pode ser perigosa e acabar banalizando a noção da viagem para espairecer e descansar. “A gente viaja bastante e tem até que procurar não perder este romantismo de viajar para ver lugares, aprender. A gente viaja para trabalhar e não relaxa, tem aquela concentração dos shows. Não tem aquilo que só férias proporcionam mesmo, de desligar”, constata.

O segredo é identificar a necessidade de parar para não prejudicar a saúde e a qualidade do trabalho, de acordo com Silva. “Tem que saber o momento certo. De falar ‘é melhor eu tirar férias porque posso estar me prejudicando’. Porque dá estafa mesmo, estafa mental. Isso para a gente é complicado. Tem que tomar cuidado para o lazer não perder a graça em função de estar trabalhando todo o tempo para o lazer da galera”, alerta.

 

Relações sociais

Viver na contramão dos horários habituais cobra ainda um preço nas relações sociais, afirma Ralinho. “Como eu sou músico, a maioria dos trabalhos é nos finais de semana. Nos dias de semana, a gente ensaia, faz contrato, faz contato. Mas o trabalho mesmo é mais quinta, sexta e sábado”, observa o músico.

O trabalhador de final de semana acaba ficando de fora de encontros e festas da família. “Geralmente as confraternizações familiares são sábado, domingo, e eu acabo perdendo vários aniversários e casamentos de familiares que fazem principalmente no sábado. Quando é no domingo, eu acabo indo ainda sonolento. Geralmente chego em casa lá pelas 4h”, conta. “Mas tem o lado bom, segunda-feira para mim é domingo. Enquanto todo mundo está reclamando, estou curtindo a minha segunda”, diverte-se.

 

 

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