Aos 8 anos de idade, João começou a ingerir bebidas alcoólicas. Aos 11, foi internado em uma clínica de reabilitação depois de ser submetido a uma série de tratamentos que não surtiram efeito. Embora não seja considerado um dependente, permanecerá distante da família para ter alguma chance de mudar seu destino.
O nome de João é fictício, mas a história vivida por ele é duramente real, assim como a de outros dois pacientes menores de 12 anos que foram internados em Bauru neste ano para tentar se recuperar de uma rotina regada a bebidas.
Segundo a Divisão de Saúde Mental (DSM) do município, os casos, que se referem apenas às crianças atendidas pela rede pública, têm se tornado cada vez mais frequentes.
Das três encaminhadas para reabilitação em comunidades terapêuticas conveniadas, apenas João permanece internado. Os outros dois meninos, de 11 anos, já receberam alta e continuam sendo acompanhados pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infantil.
Em todos os casos, a desestrutura e o histórico familiar de consumo de álcool e drogas estão presentes. João, por exemplo, foi diagnosticado com síndrome alcoólica fetal aos 5 anos de idade. Sofreu danos cerebrais por conta do excesso de bebida ingerida por sua mãe durante a gravidez.
Criado pelos avós, o garoto acabou sendo encaminhado para o Caps Infantil quando começou a ter contato frequente com a bebida. Como as tentativas de livrá-lo do álcool e do crack não tiveram efeito, a equipe médica decidiu, no mês passado, pela internação.
“O encaminhamento não se deu por um critério clínico, patológico, mas em razão de sua vulnerabilidade familiar e social. A internação serviu para isolá-lo da convivência junto a um meio danoso”, comenta a diretora da DSM, a psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues. Segundo ela, o mesmo critério foi considerado nas outras duas internações de 2013.
Cada vez mais
O Caps Infantil não possui estatísticas sobre o número de crianças que estão em tratamento no município devido ao consumo de bebidas alcoólicas, que geralmente está associado a outras drogas. Mas Vera é enfática ao afirmar que o volume vem aumentando a cada ano. As propagandas incisivas, a facilidade de acesso à bebida e o distanciamento das relações familiares são apontados como principais motivos para o descontrole.
Quando os pais não acompanham de perto as atividades das crianças, elas, que são naturalmente curiosas, podem se render facilmente à novidade. Neste sentido, o exemplo que vem de casa tem um peso enorme na conduta dos pequenos. Segundo Vera, muitas crianças que chegam ao Caps acabam se referindo ao consumo de álcool como um hábito banal.
“Isso ocorre porque muitas delas convivem com pais embriagados desde cedo. Logo, o pai começa a pedir para ela trazer a garrafa de cerveja que está na geladeira ou para comprar pinga para ele no bar da esquina. Parece bobagem, mas é um descuido enorme”, comenta a psicóloga.
E, como a criança não tem estrutura física e psíquica plenamente formada, a tendência é de que não consiga estabelecer limites seguros para o consumo da bebida, o que aumenta os riscos à sua saúde e até à sua vida. “E, pelo consumo precoce, as chances de ela se tornar alcoólatra na vida adulta acabam sendo muito maiores”, lamenta.
Neste ano, 37 adolescentes internados
Além das três crianças usuárias de álcool e drogas internadas em Bauru, 37 adolescentes também foram parar em clínicas de reabilitação, neste ano, por conta do mesmo problema. Os números se referem aos casos encaminhados pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD), mantido pelo município.
Do total, 28 são garotos e apenas nove são meninas. As idades oscilam entre 14 e 18 anos. Segundo a psicóloga Valéria Moron Perri Gimenes, coordenadora do Caps/AD, a maioria consome álcool associado a outras drogas, principalmente maconha.
Assim como ocorre com as crianças, praticamente todos os pacientes jovens são oriundos de famílias desestruturadas. “E, quando chegam a ser internados, muitos já estão morando na rua, cometendo delitos e endividados. Toda esta situação social é o que determina o encaminhamento”, frisa.