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De crise em crise

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas semanas, a economia mundial esteve com a respiração suspensa, até que na madrugada da quinta-feira, dia 16, o Congresso americano e o presidente Barack Obama chegaram a um acordo "removendo a ameaça de insolvência que paira sobre a economia dos Estados Unidos, diante do impasse sobre a elevação do teto da dívida pública", nos termos do comunicado da Casa Branca.

A declaração de "default" da dívida da mais poderosa economia global foi adiada, na realidade, por três meses, na expectativa que até 15 de janeiro de 2014 se costure uma solução que permita desanuviar a incerteza e a intranquilidade sobre os negócios e a população. O acordo provisório permitiu o retorno ao funcionamento normal dos serviços públicos suspensos desde o início de outubro.

Não há dúvida que Obama demostrou uma extraordinária frieza diante das enormes pressões desencadeadas pela oposição republicana, recentemente turbinada pelos integrantes de uma minoria extravagante, o "Tea Party", que exigia o impossível para concordar com o aumento do teto da dívida: o corte dos recursos orçamentários destinados ao "medicare", o programa de saúde que é o carro-chefe da política social do partido democrata, de tal sorte batizado de "obamacare". Algo como se, entre nós, a oposição pedisse a extinção do "Minha Casa, Minha Vida"...

Diante da situação delicada em que se encontrava, Obama soube aproveitar a irracionalidade da proposta republicana para colocar a oposição num "corner", fazendo-a acreditar que deixaria a situação piorar até as últimas consequências. Estava certo de que isso iria produzir um tal desastre nos republicanos, pelo menos a curto prazo, que eles teriam que recuar, como aconteceu.

Agora, ele se prepara para reconstruir uma maioria democrata na Câmara de Representantes, já contando com a retomada dos debates sobre a reforma do sistema de imigração Está com o discurso pronto, exortando o Congresso a se debruçar "sobre os problemas mais amplos como as mudanças no sistema fiscal americano", para evitar que o país continue a oscilar de crise em crise, não deixando para a última hora a aprovação do próximo acordo sobre o teto do endividamento."

Recentemente, Obama aceitou a renúncia de Ben Bernanke na presidência do Banco Central americano, indicando para seu lugar a economista Janet Yellen, uma notória defensora da prioridade do combate ao desemprego e favorável à manutenção dos estímulos à recuperação da atividade econômica. Foi uma sinalização ao mercado que não deve sonhar com o retorno aos "bons tempos" da desregulação.

Ele assistiu impassível a "fritura" do candidato preferido do sistema financeiro, Lawrence Summers, um típico representante dos defensores da liberação dos mercados financeiros, deixando livre o caminho para a ascenção de Yellen que está na vice-presidência do Federal Reserve desde 2010 e que exerceu forte influência na recente decisão de manter o afrouxamento monetário até que o nível do emprego volte a crescer de forma consistente.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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