Geral

Canteiro de obras vira sala de aula

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

“Vou poder tirar minha carta de motorista e levar meus filhos para passear de carro”. Sem saber ler e escrever, o pedreiro Gerson da Silva Coelho, 43 anos, não pode tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O baiano de Planaltino não frequentou a sala de aula quando criança, limitação que atinge milhões de brasileiros impossibilitados de crescerem, especialmente, em suas carreiras profissionais.

Para realizar um dos sonhos da vida desse funcionário e de seus colegas, a MRV Engenharia, a regional Bauru do SindusCon-SP e o Sesi  iniciaram anteontem a primeira turma de ensino fundamental – 1º  ao  4º ano – em um canteiro de obras de Bauru.

A história de Gerson se confunde com a de José Ailton dos Santos e Luiz Carlos Solano: os dois farão companhia a ele e mais tantos outros na sala de aula, porque quando crianças foram obrigados a trocar o lápis pela enxada e viabilizar o sustento da família.

Desde anteontem, Gerson e um grupo de trabalhadores começam a frequentar o curso de alfabetização com equipe de educadores do Sesi, no canteiro Parque Bogotá, no quarteirão 10 da rua Jorge Schneyder Filho, no Parque Bauru. Os kits de material escolar, as carteiras novas e todo material didático da sala de aula com capacidade para 30 lugares montada em meio a betoneiras, blocos, ferro e concreto impulsionam sonhos de gente como Gerson. Ele fala com imenso orgulho dos filhos, Cosme Almeida Coelho, 23 anos, aspirante a uma vaga em universidade para cursar engenharia civil, e Solange Almeida Coelho, 18 anos, que pretende ser professora.

Pai e filhos sonham obter com o estudo melhor condição de vida. Gerson quer superar a limitação de olhar para frases e não conseguir ordenar o emaranhado de letras com a mesma desenvoltura com que ergue complexas estruturas que dão forma a prédios e casas. “Deus queira que eu aprendendo a leitura eu tire a CNH”, frisa, ansioso.

Gerson nasceu em Planaltino (BA), onde residia com mais 11 irmãos e seus pais em uma fazenda. Ele conta que os irmãos mais novos ainda foram para a escola. Aos 25 anos, Gerson iniciou sua carreira na indústria da construção civil.

As aulas serão ministradas de terça a quinta feira, das 7h às 8h30, durante o turno de trabalho, e prosseguem até o final deste ano. A perspectiva é de que no ano que vem comece a turma de qualificação em parceria com o Senai.

A MRV Engenharia atua em 50 cidades do Estado de São Paulo. A empresa de construção civil mantém 30 escolas de alfabetização espalhadas em 120 municípios onde está presente com 350 canteiros. Em Natal (RN) a iniciativa já abrange o ensino médio.


Um caminho de aprendizado

O operador de betoneira José Ailton dos Santos, 47 anos, colega de Gerson no canteiro de obras, também não sabe ler nem escrever. Ele reconhece que sua limitação o impediu de crescer na profissão.

José comenta que já atuou como encarregado, mas sem ler e escrever não dá para colocar os resultados do trabalho no papel. Natural de Santa Luzia do Itanhy (SE), veio para São Paulo há cinco anos para trabalhar na construção civil. Seus olhos brilham ao comentar que brevemente estará escrevendo seu nome. “Se puder crescer na profissão, é melhor ainda”, projeta.

No passado, José perdeu o pai quando tinha 5 anos. A mãe dela, Laura dos Santos, foi uma guerreira ao criar ele e mais quatro irmãos na roça.


Aula inaugural

A aula inaugural foi realizada na última quinta-feira com 130 funcionários do canteiro de obras, sendo recepcionados pelas equipes do Sesi, do SindusCon e da MRV numa atividade para quebrar qualquer tipo de resistência à novidade. Estudantes receberam os kits pedagógicos das mãos do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB).

“Há que se ter um esforço grande de cada um de vocês para seguir em frente”, frisou Rodrigo à atenta plateia. Participaram da cerimônia o diretor do Sesi, Clóvis Aparecido Cavenaghi Pereira; a coordenadora do Sesi, Mirian Fernandes; a coordenadora do SindusCon, Vanessa Nunes Nakamura; o técnico de segurança do SindusCon, Roque Quadrado Filho; e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Bauru, Cláudio da Silva Gomes.


É pouco

O bauruense Luiz Carlos Solana, 42 anos, comenta que sabe ler e escrever um pouco. Mas não o suficiente para crescer como pessoa e na carreira. Atualmente ele ocupa o cargo de ajudante geral. O plano com o aprendizado é crescer, inclusive melhorando o salário. “Faz falta (ler e escrever) porque a gente não sabe quase nada”, avalia.

Luiz trabalha da indústria da construção civil desde os 15 anos. Ele é o mais velho de uma família de oito irmãos. Todos residiam em uma fazenda onde os pais trabalhavam. Luiz conta que, na condição de mais velho, tinha que ajudar na roça.


Autoconfiança

A formação no ensino fundamental em um canteiro de obras melhora a autoconfiança do trabalhador da indústria da construção civil e abre novas possibilidades de aprendizado. O diretor da regional Bauru do Sindicato da Construção (SindusCon-SP), Renato Parreira, avalia que a escola no canteiro aumenta a autoconfiança do profissional com a obtenção da escolaridade.

O diretor regional do SindusCon lembra que, sem o diploma do ensino fundamental, o trabalhador da construção civil não está habilitado a ingressar nos cursos do Senai voltados para a qualificação e requalificação. “Isso é uma melhoria e bem contínuo que está à disposição do trabalhador no canteiro de obras”, frisa.

Ao entrarem na sala de aula no canteiro, os alunos manterão contato com conteúdos de língua portuguesa e matemática especialmente formatados para sua experiência de vida e profissional.

O diretor do Sesi, Clóvis Pereira, comenta que os educadores do Sesi que atuam no Programa Elevação da Escolaridade para o Setor da Construção Civil trabalham em sala de aula focados na prática cotidiana dos estudantes. O objetivo é ampliar os conhecimentos nas áreas de linguagem e matemática.

Comentários

Comentários