Marta Aparecida Batista Delgado, 36 anos, foi morta com golpe de marreta na cabeça ontem, dia do seu aniversário, em Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). O principal suspeito pela morte é o seu marido o pedreiro Antonio Sérgio Delgado, 44 anos. A investigação segue a hipótese de crime passional. Familiares e amigos se despediram de Marta ontem no velório e durante o sepultamento, às 17h, no cemitério municipal da cidade.
O suspeito está foragido e teve o pedido de prisão temporária solicitado à Justiça pelo delegado titular da cidade, Gláucio Eduardo Stocco. Acumulou uma série de fatores. A questão do problema de saúde (de Antonio), da personalidade dele ciumenta, possessiva, a questão do desgaste natural do relacionamento e a possibilidade que ela aventou de se separar. “Tudo isso, acredito eu, levou ele a planejar esse crime e executar exatamente no dia do aniversário dela”, ressalta Stocco.
O crime ocorreu no período entre 3h e 3h30 de ontem, na residência do casal, na rua José Amaury Rodrigues da Silva, 85, no Núcleo Habitacional Laís Casonato. Nesse momento estavam na casa o filho do casal, um menino de 7 anos, e a mãe do acusado, uma mulher idosa. Eles não presenciaram o crime porque dormiam em um cômodo distante. A residência passa por reformas de ampliação e o quarto do casal fica nos fundos do imóvel.
A filha do casal a estudante Geruza Cristina Delgado, 18 anos, dormiu de segunda para terça-feira na casa do seu namorado atendendo a um pedido de seu pai. O corpo foi localizado pelo amigo e vizinho do casal Sidney Aparecido Ferraresi, 50 anos. A vítima tinha ferimentos profundos do lado direito da cabeça. A marreta utilizada no crime estava próxima à cabeça ao lado do corpo na cama e com marcas de sangue e cabelos. O delegado explica que o laudo necroscópico poderá apontar se o ferimento em Marta foi causado por mais de uma marretada. Stocco comenta que o corpo foi localizado coberto pela roupa de cama e travesseiros. Debaixo da cama foi encontrado o celular da vítima. Na cômoda do quarto foi localizada uma carta de Antonio endereçada a Marta.
Após o crime o acusado ligou para Sidney e Geruza informando que matou a mulher. Sidney foi à casa do vizinho, encontrou o corpo e acionou a Polícia Militar. O local foi periciado pela Polícia Técnica e o corpo encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML) de Jáu. Imediatamente a Polícia Civil iniciou as investigações para localizar Antonio. Foi solicitado o bloqueio do Renault Logan, sedã de cor preta, e placas de Dois Córregos, do acusado, que se localizado será apreendido. O delegado vai rastrear o celular do suspeito.
Até ontem, Antonio continuava desaparecido. O delegado pediu a prisão temporária de Antonio pela acusação de homicídio qualificado - em se tratando de crime hediondo a temporária pode ser decretada por até 30 dias -, por motivo fútil, emboscada, porque teria matado quando a vítima dormia, e pode ainda ser considerado o meio cruel, ao golpear a vítima com uma marreta. A pena para homicídio qualificado é de 12 a 30 anos de reclusão. A última morte violenta investigada pela Delegacia de Dois Córregos é a do vendedor de lingeries de Bauru Jorge Maia, no início de agosto deste ano. O carro da vítima foi encontrado sem as placas de identificação e o corpo não foi localizado.
Perfil
Antonio Sérgio Delgado, 44 anos, é servidor público da Prefeitura de Dois Córregos. Pessoas consultadas pela reportagem descreveram Antonio como um sujeito trabalhador. O vizinho do casal Sidney Aparecido Ferraresi conta que Antonio foi candidato a vereador há algum tempo. Conforme o delegado titular da cidade Gláucio Eduardo Stocco, o acusado está afastado do trabalho na prefeitura por problemas de saúde. Sidney acrescenta que Antonio se afastou há quatro anos quanto era encarregado dos pedreiros da prefeitura.
Remédios foram apreendidos na residência. “Ele faz uso de medicamentos controlados. Tem problema de depressão”, destaca. O delegado e Sidney confirmam que Antonio foi submetido a duas cirurgias na coluna. “Ficou aos cuidados da esposa realmente”, acrescenta Stocco.
A filha Geruza Cristina Delgado considera que seu pai era um pouco violento e tinha a agravante do uso de remédios controlados. “Aumentou o nervosismo dele. Ficava mais nervoso do que já era. E era bastante ciumento”, relata Geruza.
Passional
Uma carta escrita à mão provavelmente por Antonio Sérgio Delgado endereçada à Marta Aparecida Batista Delgado foi encontrada sobre a cômoda do quarto do casal.
O delegado explica que, pelo menos desde a última quinta-feira, a carta foi vista na residência e a mãe teria conhecimento do conteúdo, conforme relato da filha do casal. A carta pode dar indícios que reforcem a tese de crime passional.
O delegado frisa um trecho da carta: “Vou de todo o meu amor e carinho lhe tratar como nunca eu te tratei, pois não suportaria te perder pois você é metade de minha vida e pra viver sem você é melhor morrer!!!.”
Para o delegado, no contexto desse trecho, Antonio estaria dizendo que não há mais motivação para viver ao lado da companheira ao mesmo tempo que deixa dúvidas. “Porque é dúbio. Não dá para se afirmar com certeza a quem ele está fazendo menção e que seria morto. A vida dele que vai se encerrar ou se é a vida dela”, desconfia Stocco.
O delegado lembra que a carta não tem uma conclusão. Outro fato é que a mãe de Antonio relatou para a neta que seus pais teriam discutido na noite de anteontem antes de irem dormir.
Stocco conta que Marta teria revelado a familiares sua intenção de se separar de Antonio. “Ela teria comentado que não estava mais suportando o relacionamento. Talvez muito em razão da própria personalidade do suspeito que seria uma pessoa truculenta, estúpida, ciumenta”, sugere o delegado.
Segundo Stocco, Marta e Antonio são casados há 20 anos. O delegado trabalha com a hipótese de premeditação do crime pois o suspeito pediu para que a filha dormisse na residência do namorado. “Essa versão eu colhi diretamente da filha do casal que já prestou depoimento. O pai sugeriu que dormisse na casa do namorado sob a justificativa de que precisa conversar sério com a mãe sobre o relacionamento dos dois”, relata Stocco.
O delegado acrescenta que não há registro de ocorrência de violência doméstica entre Antonio e Marta. As testemunhas confirmaram em seus depoimentos ontem ao delegado que o relacionamento do casal estava desgastado. “Havia possibilidade da mulher se separar e ele não aceitava essa situação”, salienta.
De acordo com Stocco, a situação se agravou recentemente quando Marta se ausentou no mês passado residindo um tempo no município de Barbosa (SP) para cuidar de uma irmã que está com câncer em estágio avançado. “Ele não aceitava essa situação e queria que ficasse perto”, conta.
‘Presente de grego’
Na segunda-feira, véspera de completar 36 anos, Marta Aparecida Batista Delgado convidou vizinhos e amigos mais chegados para comer um bolo em sua casa. Amigo do casal há 20 anos, o vizinho Sidney Aparecido Ferraresi conta que ontem haveria uma festinha de aniversário para Marta. “A gente estranhou. Ontem ele comprou um vidro de perfume caro para ela, um Ray Ban”, revela.
No entanto, às 3h12 Sidney conta que recebeu uma ligação de Antonio. “Dizendo que tinha feito uma besteira. Desligou e não consegui mais contato”, conta.
Sidney foi à residência do casal e encontrou o portão da garagem aberto. Ele conta que pegou o menino de 7 anos e levou para sua casa. O vizinho retornou ao quarto do casal e confirmou a informação recebida por telefone. “Ela estava com a cabeça rachada. Foi uma cena triste. O por quê? É aquele ditado que dentro de quatro paredes só os dois que sabem o que acontecia”, explica.
‘Matei sua mãe’, diz Antonio à filha
Segundo Geruza Cristina Delgado, seu pai Antonio Sérgio Delgado ligou para ela às 3h40 de ontem. “Ele disse pra mim: ‘Geruza fiz uma coisa. Matei sua mãe”. Eu disse: “acha”. Perguntei onde estava e ele disse: “perto de Bauru”. Daí ele disse que não era para procurar ele. Falei: “você é louco”. Daí desligou o telefone”, relata a filha.
Geruza confirma que, na noite anterior à morte de sua mãe, seu pai pediu para que ela dormisse na casa do namorado. “Ele disse: ‘você fica lá que eu vou ter uma conversa com sua mãe’, explica.
A filha definiu o relacionamento dos pais como ruim. “Brigavam”, define. A sua relação com o pai era boa. A filha também confirma que a mãe pretendia se separar do pai até dezembro deste ano. Geruza avalia que talvez o irmão de 7 anos fosse o motivo que mantinha o casamento. “Acho que ela estava aqui por causa dele. Se ele não fosse tão novo, ela ia. Ela só estava aqui por causa do meu irmão. Ele é pequeno, tem escola e, às vezes, fica doente”. Geruza é estudante e trabalha. “Vou seguir em frente”, finaliza.