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Personagem: Doni é Seleção

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

Diz a velha máxima do futebol que um time campeão começa por um bom goleiro, experiente e seguro. Experiência e segurança nunca faltaram a Doniéber Alexander Marangon, mais conhecido como Doni, goleiro reserva da  Seleção Brasileira na Copa da África, em 2010, e que veste essa camisa com grande eloquência.

Colecionando histórias que servem de exemplo para o futebol profissional, ele chega aos 34 anos aposentado dos gramados por problemas cardíacos (leia mais abaixo) e tentando se reinventar como empresário.

Na última terça-feira, esteve em Bauru para o lançamento de um de seus empreendimentos: a exposição “O Mundo dos Dinossauros”, em parceria com o Bauru Shopping e que pode ser visitada até o dia 31 de dezembro. Nela, réplicas de dinossauros são distribuídas em um ambiente recriado recuperando a magia de monstros como o Angaturama, exemplar brasileiro que tinha oito metros de comprimento e pesava três toneladas. Um “novo mundo” do qual Doni fala com facilidade.

Em entrevista ao JC, o ex-goleiro mostrou que entende de dinossauros, contou algumas passagens de sua carreira nos campos mundo afora, e lembrou da época em que foi contra a ordem de um dos maiores clubes do futebol mundial para poder servir a Pátria.

Sua situação é similar à do atacante Diego Costa, do Atlético de Madri, que optou por atuar pela seleção da Espanha, rejeitando a convocação do técnico Luiz Felipe Scolari para defender o Brasil.

Doni lembra que ao chegar à Roma em 2005, com a cidadania italiana, e sem convocação para a Seleção Brasileira, foi cotado para atuar pela equipe europeia, como reserva de Buffon, titular da Squadra Azzura. Ele lembra que em entrevistas aos jornalistas italianos sempre declarava que não aceitaria uma convocação para atuar pela Itália. “Porque não me sentia confortável. O país que eu nasci e que tenho no coração é o Brasil. O Diego (Costa) é uma situação que não sei o que está acontecendo. Eu, como cidadão brasileiro, nunca aceitaria uma coisa assim. Acho que cada um tem que jogar na sua seleção e acabou”, define.

Doni chama a atenção que, ao chegar no futebol italiano, jogadores de outra nacionalidade atuando pela seleção italiana não eram unanimidade. “Os próprios jogadores italianos me falavam: ‘Eu não sei por que esse cara está aqui ao nosso lado’”, revela.


‘Prejudiquei minha carreira, mas estou tranquilo com a decisão’

Doni começou nas categorias de base do Paulista, da cidade de Judiaí, onde nasceu. Se profissionalizou no Botafogo de Ribeirão Preto, pelo qual se destacou na final do Campeonato Paulista de 2001, sagrando-se vice-campeão. Assumiu o gol do Corinthians conquistando títulos Rio-São Paulo e Copa do Brasil. Rodou por Santos, Cruzeiro e  Juventude de Caxias do Sul. Foi no clube gaúcho que conheceu o zagueiro Antonio Carlos Zago, que fez a ponte com um empresário italiano alavancando sua carreira internacional, iniciada em 2005 na Roma, da Itália.


Por lá, atuou de 2005 a 2011, mas teve sua carreira seriamente afetada após aceitar uma convocação de Dunga para jogos amistosos contra a Inglaterra e Omã, em novembro de 2009, partidas preparatórias para a Copa de 2010. “Eu prejudiquei muito minha carreira fazendo essa escolha. Mas hoje posso falar que fui para uma Copa do Mundo, defendi minha Seleção e estou tranquilo com a minha decisão”, reflete.


A situação também demonstra o lado perverso do futebol profissional em clubes considerados ‘tops’ do futebol europeu. Em 2009, o goleiro teve uma lesão na cartilagem do joelho direito e ficou três meses afastado dos gramados após uma cirurgia corretiva. Ele conta que, na mudança de técnico da Roma, o novo comandante pediu para que jogasse, porque os outros goleiros não tinham condições. “Eu ainda não estava 100% para jogar”, relembra. Mesmo não estando em totais condições, Doni enfrentou o desafio e o então técnico da Seleção, Dunga, o convocou. Imediatamente o presidente da Roma e o treinador vieram pedir para que não atendesse a convocação. Doni resolveu entrar em bola dividida. “Entrei em discussão com o clube. Como eu nego um pedido da Seleção? Falei: ‘esquece’”.


Segundo Doni, seu posicionamento foi mal recebido pelo clube italiano. “Eles falaram que estavam me proibindo de ir para a Seleção. Se fosse, não jogaria mais”. Doni não pensou nas consequências para sua carreira e de titular passou à condição de quarto goleiro e nem no banco figurou exatamente no ano do Mundial.


Acostumado a reviravoltas, em nova mudança de treinador, Doni retomou sua condição de titular e se transferiu para o Liverpool, da Inglaterra.


Coração dá susto

Doni pendurou as luvas em março último cansado de “brigar” com os médicos em relação a uma arritmia cardíaca que o acompanhou nos gramados pelo menos desde 2004. Aos 34 anos, ele projetava atuar até 2015. Como o problema de saúde virou um “vai não vai”, Doni optou pela carreira empresarial, no setor de entretenimento com exposições internacionais, ramo que já atuava há pelo menos dois anos, paralelamente à carreira no futebol.


Doni relata que a arritmia no coração sempre foi avaliada pelos médicos como normal. No Liverpool, equipe inglesa a qual se transferiu em 2011, um exame de rotina – Monitor Cardíaco Router – apontou uma arritmia considerada perigosa pelos médicos. Em uma intervenção, o jogador sofreu uma parada cardíaca no dia 3 de julho de 2012. Contudo os médicos conseguiram ressuscitá-lo.


Depois de alguns exames, na avaliação de um médico italiano que sempre acompanhou o atleta, veio a negativa para a pratica de futebol.  


Se reinventando

Aposentado, Doni evita assistir jogos pela TV. “Dá muita vontade de jogar”, diz lembrando que a palavra “aposentar” é muito dura.

O agora ex-goleiro que encantou os italianos antes de negá-los, planeja novas transferências. Ele tem viagem marcada para a Europa, prospectando novas atrações que possa trazer para o Brasil. “O cara para de jogar hoje e não tem o que fazer. Está o tempo todo pensando em futebol. Não é fácil”, avalia.


Pai de três filhos, Doni se encantou pelas opções de lazer na Europa, principalmente em parques. Percebeu rapidamente que poderia investir no ramo do entretenimento no Brasil explorando o nicho de exposições. Sua empresa, a D32, negocia exposições com shoppings Brasil afora, com agenda lotada.


Uma das próximas exposições que desembarca no Brasil, com a chancela da D32, será “Belezas de Veneza”, com personagens criados em silicone pelo mesmo fabricante das figuras de cera do famoso Museu Madame Tussauds, de Londres.





 

 

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