A previsão de inflação anual do Brasil foi reajustada para baixo no mês passado e os analistas econômicos estimam que deverá ficar em 5,92%. O percentual, porém, pouco significa para o brasileiro comum, que sente um efeito diferente e mais devastador do aumento dos preços no dia a dia. A constatação é de que a inflação na vida real é bem maior do que os índices do governo apontam. Um dos principais indicativos é a quantidade de produtos no carrinho do supermercado. Antes, com o mesmo dinheiro, trazia-se o dobro de compras. A comparação é impiedosa: ou gasta o mesmo e compra-se menos ou adquire-se a mesma quantidade de produtos por um valor mais elevado.
A explicação para as “duas inflações” é simples, segundo os economistas Reinaldo Cafeo e Mauro Fernando Gallo, consultados pelo Jornal da Cidade: cada um tem sua própria inflação. O custo de vida e o aumento dele são definidos pelos hábitos e necessidades do consumidor. Assim, muitos sofrem com o aumento de preços e outros podem até viver em uma deflação. “Na verdade, a inflação é muito pessoal. O que o governo publica é uma média da inflação. Agora, pelos itens de consumo, você pode ter uma inflação maior ou até menor do que esta média. Os preços não sobem igualmente em tudo, até seus hábitos de consumo geram sua inflação pessoal. Isso vale tanto para as pessoas quanto para empresas”, pontua Gallo.
Cafeo explica que o índice oficial abarca uma quantidade enorme de itens e dificilmente vai traduzir uma realidade individual ou regional de inflação. “O que acontece é que existem vários grupos de produtos. A inflação que o governo acompanha é uma média ponderada de mais de 450 itens, que vão desde o cigarro, passando por passe escolar e chegando a mensalidade escolar, cebola, arroz... E regionalizando, a rapadura em um certo setor, o chimarrão no outro e assim por diante”, observa.
Além disso, o índice oficial é uma média gigantesca de todo este universo e sofre influências que o consumidor comum nem cogita. “Quando o governo divulga a inflação oficial, se naquele período o cigarro não aumentou de preço, a passagem de ônibus reduziu na Grande São Paulo, a conta de energia caiu, estes valores que não subiram ou tiveram queda acabam anulando eventuais aumentos de outros produtos. A inflação média ponderada é esta que o governo divulga, de 0,7%, 0,8%, 0,5%, que dá na casa de 6% ao ano”, esclarece o economista.
Porém, o consumidor bauruense, por exemplo, pouco tem a ver com o preço do chimarrão no Sul, que pode ter caído e puxado a média para baixo. O cidadão comum sente a sua própria inflação naqueles produtos do dia a dia de maneira mais contundente. “Uma dona de casa que tem uma concentração de gasto no item alimentação, certamente vai sentir mais no bolso do que a média geral da inflação. Existe um aumento considerável no grupo alimentação, a chamada cesta básica, que subiu muito mais do que a inflação”, pondera Cafeo. “As duas inflações são verdadeiras, o que acontece é que, se a gente isolar poucos produtos e eles tiverem aumento, poucos produtos terão um impacto muito alto no aumento da inflação. Vai depender muito da ‘cesta de produtos’ que a pessoa consome com maior quantidade”, analisa.
Inflação de custo e de demanda
Gallo explica que dois fatores incidem no aumento de preço e do custo de vida.
“Você tem dois tipos de inflação: uma é de custo, gerada pelo aumento do custo dos insumos, e outra de demanda, que é por ter maior procura do que oferta”, expõe. Além disso, a subida dos preços segue um calendário próprio, segundo o economista. “Cada momento algumas coisas pesam mais ou menos. Dependendo do período, você tem aqueles itens que foram reajustados. Hoje, alimento está tendo uma alta mais significativa, porque sem alimento a pessoa não consegue ficar. Os comerciantes têm uma arma para se defender um pouco mais forte”, considera.
Gallo analisa que, de certa maneira, alimentos, serviços e lazer são os itens que pesam mais neste momento no orçamento familiar. “Nos outros itens, o peso muitas vezes é de investimento. Se eu tiver uma prestação de carro, imóvel, estou fazendo um investimento.”
Livres e administrados
O economista Reinaldo Cafeo explica que o índice oficial de inflação é fruto de dois grandes grupos de produtos, os de mercado e os administrados pelo governo.
“Temos dois grandes grupos. Um grupo, que a gente chama de produtos de preços livres, que em tese é o mercado quem dita, é o arroz, feijão, carne, material de limpeza, hortifruti... e temos um grupo de produtos que chamamos administrados, que é o governo que administra, que é a conta de água, energia, telefonia, a parte de transporte coletivo”, explica.
Assim, o índice oficial de inflação sofre monitoração e intervenção do governo, que segura os preços dos produtos que controla para não estourar a meta anual.
“O que vem acontecendo é que os aumentos médios dos produtos de preços livres estão na casa de 7,3%, aproximadamente, em 12 meses. Os preços administrados pelo governo estão na casa de 1,2% para não deixar a inflação desgarrar na média geral. A hora que tiver que fazer um aumento em tudo, complica”, alerta.
Pesquisa garante o carrinho cheio
É no supermercado mesmo que o consumidor sente no bolso o avanço da inflação. Até porque, alimento é imprescindível. “Os preços subiram. O que subiu mais foram os laticínios em geral, embutidos e carne. Mas tudo de um modo geral subiu e pesa mais no orçamento”, constata a aposentada Maria Isabel Gelonese de Oliveira. “Os preços aumentaram bastante, vejo isso no preço do óleo, feijão, café, carne principalmente... Aumentou muito”, reforça a comerciante Elisabeth Aparecida Valeriano da Silva. A aposentada Edith Alves de Souza aponta como maiores responsáveis pela alta o leite e derivados e a carne.
Com o aumento generalizado, os consumidores se defendem com muita pesquisa e “visitando” vários supermercados em busca das promoções e optando por marcas alternativas. Quem quiser economizar tempo, fatalmente deve perder dinheiro. “Vou a todos os mercados, eu e meu marido vamos cada um a um mercado para ver os preços. Porque cada um tem uma diferença no preço”, aponta Silva. “Eu substituo por outras marcas, pesquiso e compro produtos em locais diferentes”, relata Oliveira.
A estratégia de Souza contra o avanço da inflação começa em casa para já sair com um roteiro de compras definido em busca da economia. “Eu procuro substituir o que subiu, troco de marcas e procuro promoções. Faço pesquisa, e antes de sair de casa já procuro observar para ir aos lugares certos”, destaca. O aposentado Silvio Perin afirma também não ter preguiça de percorrer vários estabelecimentos em busca de melhores preços. “Tem que correr os lugares. Se eu não compro em um mercado, vou ao outro e compro lá. Tem que pesquisar. Tem que andar de um lugar para o outro”, destaca.
Final de ano
A época de final de ano também acirra a subida dos preços, constatam os consumidores. “Sempre faço compras, sei os preços e, agora, está tendo uma alta maior pelo fato do final do ano. Castanha já subiu muito. Até perguntei no supermercado por que tinha subido tanto e eles me falaram que no final do ano tem esta alta mesmo”, declara Oliveira. “Tudo tem subido, principalmente agora que vai chegando o final do ano. A gente tem que ir cortando, infelizmente não tem jeito. É para manter as contas em dia”, lamenta Souza.
A gente não quer só comida...
João Rosan |
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“A gente prefere buscar uma pizza e comer em casa porque sai mais em conta”, diz a aposentada Maria Isabel Gelonese de Oliveira |
Se o consumidor sente a diferença no bolso ou no volume de produtos no carrinho quando vai às compras no supermercado, no momento de lazer a conta também anda bem mais salgada. Viajar, sair para comer ou se divertir encareceu e o “custo lazer” pesa no orçamento. O economista Reinaldo Cafeo concorda que o lazer é mesmo um dos carros chefes da subida da inflação. “A sensação que alguns têm é que o peso dos produtos é maior. Quem está centrado no lazer e está com passagem aérea vai sentir muito mais (passagens aéreas subiram, por exemplo, 131,5% acima da inflação desde 2005, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)”, exemplifica. O também economista Mauro Fernando Gallo explica que o mercado de lazer trabalha no limite para atender à demanda e, por isso, a alta dos preços. “Aconteceu também que algumas pessoas passaram a ter um poder aquisitivo maior e entraram para este consumo. Começa a ter mais demanda do que oferta e força o preço para subir”, comenta.
Mas não é preciso viajar para sentir que seu dinheiro já não banca a mesma diversão de antes. “O lazer está muito caro, uma pizza, por exemplo, está muito mais cara, subiu demais. A gente prefere buscar uma pizza e comer em casa porque sai mais em conta”, aponta a aposentada Maria Isabel Gelonese de Oliveira. “Um lanche, um sorvete... tudo aumentou”, concorda a também aposentada Edith Alves de Souza. Cafeo credita à lei da oferta e procura o índice de preços praticados. “A cerveja subiu mais que o dobro da inflação. São produtos livres e, se o consumidor está disposto a pagar, os fabricantes aumentam. A comida fora de casa também é assim. Por exemplo, vários componentes sobem e o dono do restaurante ou da pizzaria aumenta seus preços. Depois, estes componentes se estabilizam ou caem e ele não muda o cardápio, mantém o mesmo preço que vinha praticando. Conclusão, mesmo os preços tendo sido elevados em um momento agudo, não há volta disso”, constata o economista.
Cafeo reitera que o vai reger os preços é o comportamento do consumidor. “É uma lei de oferta e procura. O dono pensa: ‘por que vou diminuir minha margem de lucro sendo que eu fixei no momento pior o preço alto e tenho 20, 30, 40 pessoas esperando? Se a casa estiver lotando, ele vai colocar o preço lá em cima”, observa. O economista aponta dois comportamentos distintos do consumidor no momento de comer fora de casa. “Quando existe uma concorrência mais acirrada, que é a comida de trabalho, o prato feito, você vai ter o preço mais ajustado. O dono depende do trabalhador, do dia a dia, precisa ter volume. Mas o alimento de lazer tem um comportamento completamente diferente em termos da formação de preço do alimento de trabalho. No lazer a pessoa está mais aberta, mais disposta, está relaxando e pagar R$ 40,00, R$ 45,00 em uma pizza não tem problema. Quando é a comida do dia a dia, a pessoa é criteriosa, mais rigorosa”, constata.
Quem não está disposto abrir mão dos momentos de lazer sem gastar além do planejado ou desejável precisa estar atento a promoções e oportunidades. Esta é a receita do aposentado Silvio Perin, que está sempre de olho nos anúncios de promoção na hora de se divertir. “Gasta-se bem mais hoje do que há alguns anos com lazer. Aí tem que ir aos lugares onde tem promoção. A gente aproveita estes ganchos porque o salário não sobe. O orçamento é o mesmo e as coisas tem a tendência de subir”, destaca.
O consumidor cético
Compositor amador e atuando no comércio com prestação de serviços na área gráfica, Edson Farias sente na pele os efeitos do avanço da inflação, oscilação do mercado e tem uma visão cética com relação a medidas para driblar o “dragão”. “Têm subido os insumos que eu uso, por exemplo, tinta, papel, mas não há muito o que fazer. Tenho que comprar, sinto o efeito da queda do trabalho, tenho que viver com isso, atrasar uma conta, fazer uma administração e continuar. Às vezes, eu tenho que subir meu preço, mas se concorrente não sobe...”, destaca.
Farias admite que pouco faz para balancear o orçamento e, nos momentos mais tranquilos, não tem preocupação com o preço dos produtos no supermercado, por exemplo. “Às vezes, quando estou passando uma fase mais complicada, mudo de marca. Mas, quando estou normal, dependendo do item eu não pesquiso nem o preço”, confessa. “Eu vejo o mercado como é, Copa do Mundo chegando, festa, e entendo que não posso fazer nada. Nem protestar. É uma coisa que é longe do alcance, é a lei de mercado. Pouco influencia no meu dia a dia”, acrescenta o compositor.
Para Farias, os efeitos da inflação atormentam mais em determinadas épocas do ano, uma vez que seu trabalho depende da demanda. “Em dezembro dá uma parada e, em janeiro, fica bem parado. Nós, que trabalhamos por conta própria, apertamos e vivemos de acordo com a oscilação do mercado”, constata. “O mais pobre é que aperta o cinto mais e não tem como soltar”, finaliza.
São Paulo-Bauru, ‘dois mundos’
Daniela Lima Alvares mudou-se de São Paulo para Bauru há um ano e compara como o custo de vida entre as duas cidades incide sobre seu salário. “É totalmente diferente. Acho que minha renda caiu 90% e consigo viver bem aqui, sem dor de cabeça. Perto do que eu gastava lá, aqui é muito mais tranquilo. Fora a qualidade de vida, que é muito melhor”, aponta.
Apesar dos efeitos da inflação também serem sentidos no Interior, Alvares entende que é até complicado fazer um paralelo dos “dois mundos”. “O custo de vida lá, comparando com aqui, é exorbitante, fora de realidade. Não sou uma pessoa que faz tanto supermercado, mas percebo que casa aqui é muito mais barato. Vendi um apartamento na periferia por um preço alto e comprei uma casa aqui em um bairro legal por um bom preço”, compara. “O tanto que eu gasto em combustível aqui em um mês eu gastava em uma semana lá. O gasto com pneu, manutenção do carro também nem se compara”, relata.
Outro aspecto de grande economia lembrado por Alvares é o lazer, muito mais barato em Bauru do que na Capital. “Sair à noite é muito mais em conta. A gente sai para tomar cerveja em um bar em São Paulo e Bauru e é muito diferente. Eu, quando cheguei, às vezes, ia contribuir com R$ 40,00 para pagar uma conta e R$ 40,00 era o preço da conta inteira”, diverte-se. “É um nível muito diferente, outro mundo”, acrescenta.
Alvares afirma que era justamente o lazer o que mais pesava no orçamento em São Paulo. Portanto, a mudança é a mais impactante em seu orçamento bauruense. “Era impossível sair e gastar menos de R$ 100,00 em um dia entre estacionamento, bar e o combustível. Em Bauru, não gasto nem R$ 40,00 fazendo a mesma coisa que fazia lá para comparar”, explica. Alvares brinca que o único gasto que aumentou foi a despesa com os dois cachorros que foram agregados à família em Bauru.
