Cada paróquia se multiplica em vários grupos, cada qual com um coordenador e, nos próprios bairros, a cada dois ou três quarteirões um subgrupo é formado para o encontro semanal pela oração. Esta é a ‘engenharia logística’ básica das pequenas comunidades espalhadas por bairros de Bauru.
O casal Eliar Tavares e Elizabeth Piffer mantém o hábito em casa há anos. “São vários grupos e subgrupos. Existem grupos com intenções específicas, como rezar pela família, os vizinhos, as mães, realizar o terço semanal, rezar pelas vocações. Existem as leituras orantes, os grupos de estudos, as visitas dos legionários para os enfermos, as novenas como agora de Natal”, conta Eliar.
Para Tavares, a pequena comunidade é a vida fora da missa. “Há e deve haver vida em oração além da missa, que é uma celebração sagrada, importante, um ato de encontro direto com Deus em sua casa. Mas alguns infelizmente nem a missa concluem, saem bufando de braveza quando o padre estica a celebração por 10 minutos além de uma hora”, comenta, com humor.
Dentro de um mesmo grupo existem outros, dependendo do comprometimento, da participação de cada um em cada segmento da igreja. “Cada grupo faz o seu horário, adequa melhor. A maioria se encontra em dia de semana à noite, mas tem grupo que se reúne às tardes nas casas. Alguns desses grupos existem há 20 anos, outros se reúnem há 15 anos como na Paróquia Sagrada Família”, conta.
Os vínculos
Os encontros das pequenas comunidades costumam guardar laços de afinidade e, por isso, geram vínculos. “As pessoas que convivem entre si nessas orações constroem uma relação de confianças entre elas. Você só confia em quem você conhece. Essas reuniões aproximam mais as pessoas”, avalia Eliar Tavares.
A partir da oração semanal, os integrantes geram o inevitável e salutar hábito de trocar informações sobre adversidades e projetos de vida. “Isso aproxima as pessoas, tanto espiritualmente quanto na relação comunitária. E essa aproximação permite que você tenha mais um elo de convivência para dividir problemas, planos e alegrias de vida e isso é muito bom”, menciona.
As reuniões se consolidaram e a multiplicação rendeu frutos. Um subgrupo formado a partir dos encontros de integrantes da mesma paróquia está se reunindo com pessoas do Jardim Niceia. “É uma região mais pobre, onde as dificuldades são maiores e onde esses vínculos acredito sejam ainda mais necessários. Isso também permite o contato com católicos que estão distantes da igreja ou até quem não exercite sua fé”, exemplifica.
Células religiosas propagam: “Vão pelo mundo”
Em mais de uma homilia o papa Francisco, durante a última edição da Jornada Mundial da Juventude realizada no Brasil em junho passado, deu um recado com endereço certo, incentivando cristãos a dedicarem seu tempo a evangelizar. O líder mundial do rebanho católico repetia aqui a convicção interna da estrutura romana de que o exercício passivo da fé, apenas dentro das paróquias, corrói as estruturas da igreja.
Por outro viés, a cúpula da Igreja Católica, dentro e fora do Vaticano, reconhece na disseminação das pequenas comunidades de oração o alicerce mais espontâneo e - por essa razão - sólido da existência da própria instituição.
Por algumas vezes, em outro contexto mas pela mesma essência, o Arcebispo de Fortaleza, Aloísio Lorscheider se resignou ao cargo em críticas ao centralismo da Cúria Romana, sem deixar de pontuar os riscos da chamada igreja estática.
Em encontro em Lisboa, Portugal, no início da última década, o cardeal brasileiro defendeu a urgência “de uma nova ordem econômica” e, ao mesmo tempo, pontuou pelo enfraquecimento da igreja sem o fortalecimento da prática cristã além das missas.
A participação e comunhão entre cristãos, acima do ato de fé ao final dos encontros dominicais, é tema recorrente. No Brasil, em particular, a expansão dos evangélicos em detrimento à maioria católica é motivo de preocupação.
Mas a despeito da opção religiosa, a crítica de Lorscheider toca essencialmente no sentimento de fé em detrimento ao cristão passivo. “Somos uma grande família e [queremos] fazer com que as pessoas participem todas o mais possível. Não se põe tanto ênfase nas comunidades eclesiais de base. Mas o novo projeto que a CNBB lançou, ‘Ser Igreja no novo milénio’, insiste na necessidade de criar pequenas comunidades. Sem elas, a Igreja não poderá ir para a frente”, pontuava o cardeal à época.
Nova Evangelização
Em outros cantos do mundo, o tema sempre ecoou além dos sinos. Em outubro do ano passado, o cardeal austríaco Christoph Schönbom, de Viena, intelectual e teológico muito próximo do então Papa Bento XVI, também lançava durante entrevista ao jornalista John L. Allen Jr publicada pelo National Catholic Reporter: “Como sucessores dos apóstolos, somos chamados a ser os primeiros evangelizadores. Todos nós temos experiências de todos os tipos, de alegrias, medos, sucessos, fracassos, e assim por diante, na evangelização. Nós todos nos perguntamos: Eu realmente evangelizo?”.
O cardeal dizia de sua rotina evangelizadora: “Eu prego muito, estou nas paróquias, eu escrevo cartas pastorais, e assim por diante, mas o que se quer dizer com a “Nova Evangelização” não é apenas o trabalho pastoral diário, que obviamente nós temos que fazer e fazemos com alegria, mas o que o Papa Bento XVI repetidamente nos diz e nos encoraja a fazer é ir ao encontro daqueles que já não tem, ou nunca tiveram, qualquer contato direto com o Evangelho”. Para a igreja, esse passou a ser, há muito, o verdadeiro desafio da Nova Evangelização.