Bairros

"Todo dia é dia e tempo de oração"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Ubiratan Cássio Sanches tem mantém uma rotina dura no trabalho noturno de vigilância. O funcionário público ainda dedica outra porção de seu tempo como pastor evangélico e, ainda, coordena o Conselho de Pastores Evangélicos de Bauru, entidade que preside. O tempo lhe falta, com frequência, para lazer e até convivência com a família.

A situação de Ubiratan é comum a de muitos pastores evangélicos. A relação de tempo e vínculo individualizado com a comunidade que congrega, portanto, tem nas células comunitárias um aliado. “As células, os encontros entre famílias e entre grupos fortalecem os laços comunitários e ajudam em outra questão: é evidente que o pastor não consegue atender a todos na igreja e a formação de grupos de trabalho, grupos de oração e desses vínculos ajudam também nesse trabalho de consolidação da evangelização”, defende.

Para o líder religioso, o ideal é que as células tenham em torno de 10 pessoas. “É até uma questão de logística, porque esses encontros são nas casas das pessoas e isso torna além de mais racional o encontro, torna a oração, o louvor, mais focado, sem risco de dispersão. O pastor não consegue atender a todos na igreja e esses trabalhos ajudam e muito nesse elo de evangelizar”, cita.

A “boa mania” de se reunir em grupos é, também, de anos entre evangélicos. “Têm grupos de estudo bíblico, realização de cultos familiares, reuniões de louvor para grupos que conseguem formação e onde há encontro de músicos. Todo dia é dia e tempo de oração e claro, também fora do templo”, incentiva.

O pastor evangélico menciona que o foco é evangelizar. “Jesus disse: Vem a mim, para a igreja de Deus. Mas aos apóstolos a mensagem é ide por todo o mundo para pregar mesmo o Evangelho, a todas as criaturas, porque todos precisam da salvação”.

Por outro lado, foi exatamente na disseminação da evangelização porta a porta que algumas denominações se fortaleceram. “Evangelizar permite o contato com aquele que não crê e inverte esse movimento inverso de que o filho de Deus é esperado no templo. A igreja deve e tem de ir atrás daquele que não crê ou daquele que está afastado e isso agrega muitas denominações”, acrescenta.


Duas décadas de celebração em casa

Terça-feira, 16 horas, Vila Cardia, Bauru. Isabel Pires Talão, Luiza Fadoni Manfio e Cirlei Fainer de Oliveira lá estão, juntas, livreto de novena em mãos, a vela acesa no pires, sobre a mesa, ao lado da Bíblia e de uma pequena imagem de Nossa Senhora.

Elas integram um das dezenas de grupos de oração residencial. O grupo a que pertencem repete o encontro semanal há 10 anos, movimento ligado à Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, da Paróquia Sagrada Família. “Estamos já na novena de Natal. Todo ano é assim. E quando acaba a novena as orações semanais continuam. Somos em cinco, mas duas amigas estão doentes e não puderam vir. Nós moramos muito perto uma da outra de longa data e a oração gera vínculo e apoio”, conta Isabel.

As intenções da reza semanal em casa são diversas. “As amigas doentes, por exemplo, nós marcamos e vamos até elas para rezar por elas e outros doentes. Mas nós pedimos por todos que precisam e temos pedido bastante pelos meninos que usam drogas, que preocupação isso”, lamenta Isabel, sob o consenso de Luiz e Cirlei.

A capelinha não deixou de ser utilizada entre os católicos. Luiza conta que todo dia a santinha visita uma residência e segue sua peregrinação pelo  bairro. “Só dá para ficar a capelinha um dia em cada casa, porque tem bastante gente e tem de atender todo mundo. A imagem pequena de Nossa Senhora das Graças vai visitando casa a casa e quem a recebe sempre reza o terço e a oração pela proteção da casa e das famílias”, indica.

Na Vila Cardia, por exemplo, os grupos formam subgrupos de oração e a cada três quarteirões há uma equipe formada. “Uma vez por mês tem missa de setor, que é em um dia de semana e à noite para que todos os grupos possam ir. Então nos encontramos e depois cada grupo retoma seu encontro nas casas”, conta Cirlei.

Cada grupo costuma ter um devoto. Pense no nome de um santo e dificilmente ele não estará representado em uma das dezenas de células das pequenas comunidades. Os mais “batizados” são os apóstolos, as denominações de Nossa Senhora também são frequentes e, assim, cada célula segue sua tradição de oração nas casas.


Oração e envolvimento paroquial

O grupo a que pertence Lucy Roberta Sham Perazzo é coeso. Os encontros semanais são frequentes há 20 anos. “São duas décadas de celebração e oração pelas dores e alegrias, pela vida em comunhão. É o encontro na direção das famílias”, avalia Lucy.

Na Paróquia Sagrada Família, a ação conta com nove setores para a realização de leitura meditada, terços e ciclo bíblico. “Neste mês estamos realizando o livro de Lucas. Na semana que vem já entramos na novena de Natal”, menciona. O grupo tem 12 membros fixos, mas atinge 15 com participações esporádicas.

“Não há só vida cristã na missa. É preciso ter envolvimento paroquial e com essas reuniões nós também celebramos os aniversários de cada um do grupo, o Natal e outras datas porque as reuniões de tanto tempo criam vínculos fortes de amizade”.

Cada grupo está ligado a uma coordenação paroquial. “A meta é a evangelização, atingir também os que estão afastados e os que não participam da vida cristã. É uma vida de oração, de fé muito além da missa e onde fortalecemos nossa relação com Deus. A igreja é nossa família, nossa escola e nossos vizinhos”, finaliza Lucy.

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