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Preventivo e ostensivo. É nesses dois pilares que a Polícia Militar (PM) subsidia seu trabalho. Nesse sentido, a averiguação de pessoas em atitudes suspeitas é uma das principais missões para garantir a segurança. O problema é que essa ação está sendo executada em segundo plano por conta do grande número de conflitos.
Aquela confusão de vizinhos, a briga de bar ou mesmo a discussão acalorada entre marido e mulher. Na linguagem policial, usa-se a palavra desinteligência para designar essas e outras tantas ocorrências.
Levantamento da PM mostra que esse é o tipo de atendimento mais realizado pelas viaturas em todas as partes de Bauru, o que demanda um tempo precioso. A consequência disso é que, no ranking de atendimentos da PM, as viaturas não conseguem se empenhar na principal missão.
Os dados do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I) são referentes ao mês de outubro, porém simbolizam o que ocorre durante todo o ano. Na 1ª Companhia (responsável pelas áreas Centro e Sul), as averiguações sequer aparecem entre os três atendimentos de maior número. Na 3ª Companhia (Oeste e Noroeste), ficam em segundo lugar. Já na 4ª Companhia (Leste, Sudeste e Norte), estão em terceiro.
Em compensação, as desinteligências são maioria por toda a cidade. Nas áreas das três companhias, esses conflitos lideram os números de atendimentos da PM. “É uma realidade e que nos preocupa bastante. Perdemos muito tempo com essas demandas”, explica o comandante do batalhão, tenente-coronel Walter de Oliveira.
Analisando os três tipos de ocorrências mais atendidas em cada uma das companhias, a situação é ainda pior. Além das desinteligências, outro atendimento predominante são os casos enquadrados como ocorrências diversas.
Esse tipo de problema são aqueles que se caracterizam pelo menor potencial ofensivo, podendo até mesmo não ser registrado como criminal. Encaixam-se nesse rol também os atendimentos assistenciais, quando a pessoa aciona a PM quando devia chamar socorro médico ou resgate.
“Nós temos uma gama de atendimento tão grande que você nem imagina. Por isso, classificamos como ocorrências diversas. Para se ter uma ideia, somos acionados até quando o cliente não se entende com o dono de um estabelecimento, por exemplo”, destaca o tenente-coronel.
E o tempo que se perde não é pequeno. Além de se deslocar até o chamado, conversar com os envolvidos e tentar resolver o conflito, há os casos em que se faz necessária a apresentação na Polícia Civil. “Lá, a viatura pega uma senha e precisa esperar. Todo esse tempo, o patrulhamento poderia estar nas ruas”, explica o coronel.
Só averiguação
No ranking de atendimentos, sequer aparece o atendimento ostensivo em casos de roubos e furtos, por exemplo. “De todo esse quadro dos atendimentos que mais fazemos, a averiguação de suspeitos é a que tem mais relação com o que a PM deve fazer. É o que realmente tem um caráter de prevenção de crimes”, explica o tenente-coronel Walter de Oliveira.
Ele completa ainda que o policial militar acaba tendo que ser um pouco “psicólogo” para resolver os inúmeros conflitos.
“Essas ocorrências não são necessariamente de ação policial. São ocorrências em que o policial atua, porém poderiam ser resolvidas de outra forma. Ocorrências que nos tiram um tempo precioso”, reafirma o comandante, em tom crítico.
Menos rapidez na ‘resposta’
Além de atrapalhar o trabalho preventivo deixando as averiguações em segundo plano, o grande número de conflitos causa outro efeito preocupante: prejudica o tempo de resposta dos chamados.
“Quando há ocorrências de roubos, por exemplo, a viatura pode demorar mais para chegar porque está atendendo uma briga ou outro conflito qualquer. Isso atrapalha a chegada rápida da PM e, consequentemente, pode atrapalhar a recuperação dos bens levados e a prisão dos envolvidos nas proximidades”, aponta o oficial de relações públicas 4º BPM-I, capitão Fabiano Serpa.
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Arquivo/Neide Carlos |
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Walter de Oliveira: “Somos acionados até quando o cliente não se entende com um estabelecimento” |
Por outro lado...
Apesar de atrapalhar – e muito – o trabalho preventivo e ostensivo dos policiais, o acionamento do 190 para mediar qualquer tipo de conflito tem, de acordo com a corporação, uma conotação positiva. “Isso demonstra a confiança que as pessoas têm no nosso trabalho”, destaca o tenente-coronel Walter de Oliveira.
Em tempos de inúmeras manifestações, onde, frequentemente, questiona-se a atuação policial, essa demonstração de confiança é considerada valiosa.
Fins de semana
O levantamento da PM só evidencia o que o JC já vem abordando há algum tempo. O número de conflitos é crescente em Bauru. Na manchete publicada na terça-feira da semana passada, foi mostrado que, nos finais de semana, a polícia é sobrecarregada por número muito grande de brigas.
Agora, os dados fornecidos pela corporação evidenciam que, apesar de ser potencializada no fim de semana, a situação problemática é frequente. O número de atendimentos de todo o mês de outubro somente desnuda a realidade: a PM precisa atender ocorrências corriqueiras e acaba perdendo o tempo em que deveria estar no trabalho preventivo e ostensivo.
Problema só pode ser resolvido com educação
“Vamos chamar a polícia!”. Quantas vezes, não importa a situação, você já ouviu esta frase? É exatamente uma mudança nessa cultura que, para a PM, é preciso mudar. A solução para o grande número de chamados desnecessários seria mais conscientização das pessoas a fim de tentarem resolver seus conflitos por meio do diálogo.
“Se você pensar nesses órgãos de mediação de conflito, vai perceber que a primeira mediação é sempre feita pela PM. Nós acabamos fazendo isso nesse primeiro estágio. Então, é difícil pensar em uma solução que não seja conscientização das pessoas em só chamar a polícia quando for realmente necessário”, aponta o tenente-coronel Walter de Oliveira.
E ele acredita que essa conscientização deve ser difundida por meio de campanhas educativas. “É preciso repassar essa necessidade de se ter equilíbrio. E isso deveria ser feito nas escolas, empresas e bairros. É necessário haver uma mudança de comportamento mesmo”, conclui o comandante do 4º BPM-I.

