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Irrigar as cabeceiras

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Há um evidente exagero na afirmação que nas últimas semanas a taxa de inflação disparou, em razão da alta de alguns preços de legumes e hortaliças que compõem a dieta dos brasileiros: puxam o desfile, dois velhos conhecidos, o tomate e o chuchu, perseguidos por temporais fora de época nas regiões sul e sudeste do Brasil. Essas variações de preço dos hortigranjeiros não significam que há uma aceleração na taxa de inflação. São altas de curto prazo porque logo, em cinquenta ou sessenta dias a oferta volta a crescer e os preços se normalizam. Posso dizer, por isso, com tranquilidade, que a inflação não está acelerada, nem se acelerando. É evidente que os preços dos produtos agrícolas pressionam a inflação, porque são parte muito importante das despesas da população. Existe uma pressão da demanda global, mas no caso particular dos alimentos o efeito mais dramático não é a elevação da taxa de inflação. Se os preços dos alimentos crescem 10%, o consumo não cai mais do que 2% e a gente gasta pelo menos 8% mais da renda com alimentos e trata de segurar as outras despesas que não são inflação: o passeio, o cinema que fica para outro dia, em geral o lazer.

Quando a pressão se faz sobre os preços dos alimentos há um efeito perverso sobre os preços dos demais produtos e um efeito depressivo sobre as pessoas: é um mecanismo que estimula a inflação e gera um mau-humor dos diabos no cidadão que está sendo vítima desses efeitos. É por isso que não se pode negligenciar as políticas que promovem o aumento da oferta, dando maior estabilidade aos preços dos alimentos. É fundamental ter programas para "irrigar as cabeceiras". Estamos indo muito bem nessa direção graças ao plano agrícola que o governo Dilma lançou este ano, restabelecendo algumas linhas fundamentais para o país ter uma agricultura mais produtiva, com menos perdas na comercialização e no transporte e com o lançamento de fortes estímulos para expansão dos espaços de armazenagem. Além desses programas, melhorou o seguro de safra e o Ministério da Agricultura está se preparando para dispor de um estoque maior de passagem de uma safra para outra.

Tudo isso vai facilitar a redução da flutuação dos preços dos alimentos. Não devemos ter ilusão a esse respeito: a inflação sempre dependerá da produção de alimentos. Do volume da oferta e das melhores condições de distribuição. Por maior que seja o nosso aperfeiçoamento dos métodos de produção, por melhor que seja o aproveitamento das áreas de plantio, sempre haverá uma pressão produzida pelo próprio clima, pela flutuação da temperatura, pela ocorrência e a intensidade de chuvas nos momentos certos, pela variação estacional. No começo de ano temos colheitas melhores de hortifrutigranjeiros e no meio do ano uma oferta menor de carnes; existe sempre uma série de variações durante o ano, pelo resultado das safras, pela própria natureza da atividade, como é no caso da pecuária, ou pelas variações climáticas que apesar de previsíveis pelos serviços de meteorologia são erráticas. Diria, então, que de fato a inflação está maior do que a gente gostaria que fosse, mas 6% de inflação não é uma inflação descabelada e não está em aceleração. A taxa inclui algum controle de preços, o que dá um pouco de mal-estar, por que as pessoas sabem que essas diferenças de preços serão absorvidas num dado momento e, quando isso acontecer, vamos ter uma política muito mais dura de combate à inflação.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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