A República inacabada, depois de 124 anos da sua proclamação, parece que, finalmente, caminha para a sua conclusão como processo de transformação democrática. A prisão neste País deixa de ser só para ladrões de galinha. O Supremo Tribunal Federal, numa decisão histórica, manda para a cadeia líderes políticos, publicitários e operadores do sistema financeiro por envolvimento num dos maiores escândalos de corrupção. Joaquim Barbosa, o primeiro presidente negro do STF, resolveu trabalhar no feriado para expedir os mandados de prisão e dar a esse fato mais uma conotação emblemática no Dia da Proclamação da República. A Suprema Corte demonstrou sintonia com as expectativas da sociedade. O gesto está longe de significar o fim da corrupção, que é apartidária e sistêmica, como indicam outros rumorosos casos em apuração. Ainda assim, demonstra que a sociedade dispõe de instrumentos e instituições para enfrentar a impunidade.
Política não se faz nem se aperfeiçoa com pensamentos mágicos, mas com a ação concreta de pessoas conscientes. Só o enfrentamento firme e decidido das nossas mazelas pode levar o estado brasileiro a se aperfeiçoar. "O poder corrompe". Logo, a corrupção é a face odiosa do poder. E só existe uma maneira de conter a corrupção política: com uma sociedade civil participativa que não se cale aos desmandos e que exija, diariamente, o cumprimento da lei. O ex-presidente Collor foi acusado em 1991-92 de engendrar um esquema de corrupção a partir de propinas cobradas de empresários que tinham contratos com o governo. O dinheiro caía na conta de um correntista fantasma e dali era sacado para pagar despesas pessoais de Collor. O processo estava há quatro anos na gaveta da ministra Carmen Lúcia, no STF, e caminhava para a prescrição. Só retornou à luz porque houve um alerta da imprensa, ainda o porta voz da sociedade. Foi justamente esse Esquema PC que levou à renúncia de Collor, até hoje sem punição da Justiça. Paulo Maluf continua livre, leve solto e deputado federal, apesar de sequer poder deixar o País porque a Interpol tem ordem de prisão contra ele. Condenado no Exterior, mas não aqui onde praticou os crimes. A justiça suíça condenou um dos envolvidos no esquema de propina dos trens metropolitanos de São Paulo. Aqui, o processo nem saiu ainda da fase de inquérito policial. Magistrados suíços solicitaram a oitiva de implicados, no Brasil. A petição ficou engavetada dois anos porque foi "arquivada na pasta errada", no Ministério Público Federal. Outros 124 anos vão se passar sem que tenhamos construído uma República, se a sociedade não continuar a se manifestar. O melhor já aconteceu - os brasileiros deixaram de ser "cordiais", um rebanho de cordeiros. Mostraram que são capazes de reagir, de berrar nas ruas, até com alguns excessos. Todo combate à corrupção nasce dos indivíduos livres que, ao exigir conduta ética dos seus governantes, passam a estimular melhores hábitos por toda esfera social.
Ainda assim não basta. Mesmo que o Judiciário comece a agir com maior presteza, ainda temos o Executivo e o Legislativo permeáveis à corrupção. A excessiva concentração de poderes no Executivo, por exemplo, acaba incentivando um relacionamento promíscuo com o Legislativo. Muitos legisladores insistem em recorrer a mecanismos nada éticos sob o argumento de que precisam assegurar vantagens para suas bases eleitorais. E o próprio Congresso, que já tem entre seus integrantes um deputado federal residente no presídio da Papuda, resiste em aprovar a chamada PEC dos mensaleiros. O projeto prevê a perda imediata de mandatos em caso de condenações criminais. Dá uma ideia da dificuldade do Legislativo fazer sua parte. Um dia "eles passarão, e nós passarinho", como o verso do poeta Mário Quintana escrito na capa de "paladino dos injustiçados" com que José Genoino apresentou-se no presídio, absolvido pela militância do PT. O punho cerrado junta conclusões de resistência, solidariedade, orgulho e militância num simples gesto. Pretende combater uma força poderosa. Malévola e institucional em sua própria força. O Super-Homem voa com o punho fechado à direita. José Dirceu ergue a mão fechada à esquerda. O mesmo gesto serviu de protesto ao terrorista Carlos, o Chacal, e a Lee Oswald Harvey, depois de matar John Kennedy, ambos no momento da prisão. Os psicólogos dizem que cerrar o punho ajuda a processos mentais e reaviva a memória. Que eles reflitam bastante na cadeia, e saiam de lá dispostos a trabalhar por um Brasil mais ético.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC