Tribuna do Leitor

País ou Pátria?


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Final de setembro e a noite estava agradável. Já era tarde e eu andava pelas estreitas ruas, vazias e silenciosas. O flash azul de uma ambulância estacionada numa praça quebrou a introspecção de meus pensamentos. Desviei-me do meu caminho e aproximei-me daquela luz. No meio da pequena praça, no silêncio da noite, a poucos passos de distância, vi o mendigo caído no chão, com suas sacolas de objetos pessoais esparramados pelo chão e seu pequeno e fiel cachorro sentado ao lado. Os atendentes tentavam reanimar o mendigo inconsciente. Logo o mendigo recuperou a consciência, escutei a equipe de primeiros socorros perguntar em voz baixa e respeitosa: senhor, está com alguma dor? Senhor, está bem ou precisa de mais um cobertor? Por favor, senhor, tome este comprimido. A equipe de socorro o tratava de senhor. E assim que o mendigo pôde se levantar e seguir sua vida, os atendentes se retiraram silenciosamente sem ligar as sirenes da ambulância em respeito aos moradores que dormiam em suas casas depois de um dia de trabalho. E eu pensei na diferença entre país e pátria.

País é um local. É um conceito geográfico e não um conceito humano. Num país, pode haver falta de formação ética na escola e nos lares, onde não se ensina às crianças o que é certo e o que é errado de se fazer na vida e depois já adultos no trabalho. E, por isso, crianças de ontem se tornaram governantes que roubam sempre que podem o dinheiro do povo que os elegeu. E o país não se importa com isso. Os guetos miseráveis envolvem os bairros menos pobres e isso gera violência. A solução é derrubar os barracos para construir para a Copa do Mundo ou instalar tapumes para esconder dos turistas a vergonha dos 11 milhões de pobres (fonte: IBGE) que vivem nas favelas. E o país não se importa com isso. A malandragem e a safadeza são elogiadas como se fosse algo bom e os honestos são desprezados como se fossem idiotas. E o país não se importa com isso. O transporte público é precário. Faltam condições de moradia. Dezenas de milhões de pessoas vivendo da caridade de uma cesta básica em vez de ter o direito a um salário decente, que lhes dê condições dignas de vida. E o país não se importa com isso. Sessenta milhões de habitantes têm diploma de alfabetização, mas só conseguem assinar o nome. E o país não se importa com isso. E os habitantes desse país, sofrendo essa violência física, ética, moral e política, se acostumaram com isso e a devolvem: enquanto eu tiver garantidos meu feijão com arroz da cesta básica - ou minhas férias na Europa, dependendo da classe social - o país que se exploda.

Agora pense na sua mãe. Ela cuidou de você. Ela se importa com o seu bem-estar. Sua mãe lutou para assegurar uma educação de bom nível para você. Ela evita desperdiçar dinheiro em casa, ganho com o suor do trabalho honesto. Ela se preocupa com a violência e toma providências para que o tráfico de drogas não atinja você. Sua mãe cuida para que você esteja bem alimentado e tenha roupas decentes para vestir. Ela faz o melhor que pode para que você viva num ambiente seguro e limpo. Ela está vigilante, de olhos e ouvidos abertos às suas necessidades. Mesmo à noite, cansada do trabalho e das lidas da casa, sua mãe tem sono leve. Você se lembra de ter acordado, com ela preocupada ao seu lado, por que você se queixou de algo durante seu sono. Ela também está ao seu lado se você passou mal em casa ou na rua, ou está necessitando de algo. Sua mãe não espera acontecer, ela se antecipa, vela para que algo de ruim não lhe aconteça. E se você fizer alguma travessura, ela tem o direito de lhe dar um corretivo. E, depois do corretivo, ela lhe recebe de braços abertos, sem discriminação, sem preconceito. Mesmo se você já for idoso, e sua mãe for viva, ela lhe perguntará se tudo correu bem com você hoje. Sua mãe pode ser ou não ser bonita fisicamente. Mas para você ela é e sempre será a mulher mais bonita do mundo. E, por isso, você fará de tudo para que sua mãe esteja sempre bem. A mãe é a pátria-mãe.

Agora, pare. Olhe à sua volta. Você, pendurado no ônibus, trem ou metrô lotado, você dependendo do favor de uma cesta básica dada para ter a dignidade de ter o que comer, ou você se escondendo da violência com trancas, cercas elétricas e carros blindados, acha que está sendo tratado como um cidadão por sua pátria-mãe ou como um zé-mané pelo seu país?

Eduardo Montenegro

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