Cultura

Atitude feminina

Por Bibiana Garrido e Maria Esther Castedo | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

Bibiana Garrido

As integrantes da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru: a partir da esq., Luana Protazio, Luana Oliveira, Rayra Pinto, Tamires Higino, Letícia Abreu, Camila Pinheiro, Beatriz Benedito e Déborah Martins (abaixo)

Ao andar pelo centro antigo de Bauru, mais especificamente pela quadra 13 da Rua Cussy Jr., de cara uma casa mais colorida que as outras chama a atenção. O graffiti cobre as paredes junto a diversas faixas e cartazes de eventos culturais, que se misturam ao clima agradável dos frequentadores. Trata-se do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, ponto de encontro para a entrevista com as meninas da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru (FFH²B), que foram chegando aos poucos naquela sala cheia de CDs, livros e roupas e onde idades e rostos diferentes se somavam.

O bate-papo foi, ao mesmo tempo, amistoso e revelador: apesar do pouco tempo de atividade, a Frente já é responsável por grandes conquistas. Aliás, este ano, as meninas comemoraram o primeiro aniversário do coletivo com a participação de rappers e MC’s (falando nisso, você sabia que MC significa mestre de cerimônia? A gente também não!) e, claro, pessoas que apoiam o movimento.

Mas nem tudo é só festa! A FFH²B desenvolve trabalho social nas escolas públicas através de grupos de discussão, usando filmes e outras mídias para embalar o debate. “A escola tem papel muito mais importante do que ensinar teorias matemáticas. Deveríamos aprender a história do nosso povo e sua contextualização nas questões de gênero, o que já evitaria a perpetuação da cultura do desrespeito às mulheres que existe na nossa sociedade”, relata Rayra Pinto, da Frente.

Elas ressaltam, ainda, que a 3ª Semana do Hip Hop em Bauru, realizada recentemente na cidade, serviu para fomentar ainda mais o debate sobre essas questões culturais e políticas. Inclusive, um dos ganhos do movimento neste ano foi a consolidação da Semana no calendário oficial do município. “O maior objetivo da Semana do Hip Hop foi o de apresentar a nossa cultura como mais uma alternativa diante das outras”, completa Renato Magú, um dos apoiadores do grupo.

Além de envolver a dança e elementos ligados à música e às artes em geral, o hip hop também acaba sendo um agente de transformação social, como conta Camila Pinheiro da Silva, integrante da FFH²B. “Descobri um pouco mais sobre mim e aprendi a ter orgulho de quem sou, ter confiança na minha capacidade. Como movimento social, o hip hop te faz crescer e não abaixar a cabeça, mas saber que você pode mudar sua realidade.”

Outro ponto lembrado por Tamires Higino, outra integrante da Frente, é a quebra de estereótipos na questão de gênero, com os quais a maioria das crianças convive na infância e são eliminados somente com uma estrutura de debates e aprendizado coletivo como essa.

 

  • Serviço

O Ponto de Cultura Acesso Hip Hop fica na Rua Cussy Jr., 13-55.


Como tudo começou

A história do movimento em Bauru nos leva ao início dos anos 80, quando nascia a cultura do hip hop na cidade através de pequenos grupos de break dance. Não demorou muito para a notícia se espalhar e já na década de 90 o trabalho dos primeiros rappers bauruenses começou a ficar conhecido nacionalmente e até mesmo no mundo afora, como no caso do grupo Desacato Verbal, mundialmente famoso dentro do movimento.

Com o passar dos anos os grupos acabaram ganhando força, o número de B-boys e B-girls (os que dançam break dance) cresceu consideravelmente, juntando-se aos DJs, MC’s e grafiteiros. “A gente começou a perceber que junto éramos mais fortes e começamos a trabalhar fazendo uma série de shows e atividades até chegar na cena atual”, conta Renato Magú.


O poder do hip hop

Mas qual seria a relação entre a mulher e a prática e a cultura do hip hop? Rayra Pinto, da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, considera que atualmente o movimento é bastante forte porque contempla não só a parte artística, mas também a questão da militância política.

“Lutamos não para ficar acima, para derrubar o outro de seu lugar. Queremos direitos iguais para as pessoas, homens e mulheres, e é isso que está na lei”, explica. “O feminismo é a luta das mulheres por igualdade e o hip hop não deixa de ser também um grito de igualdade, nossa luta é uma só. Claro que também existe machismo e letras homofóbicas nos raps, por exemplo, mas isso é fruto da nossa sociedade, porque vivemos numa sociedade patriarcal”, completa.

Historicamente, o protesto e o hip hop sempre andaram juntos, não só pelas letras nos raps (ryme and poetry, em português, rima e poesia) que remetiam à violência diária que cercava os cantores e também ao cotidiano nas periferias. O tráfico, o sexo, os duelos entre quem controlava a região e entre outros impasses são comuns nos versos. Da mesma maneira aconteceu em Bauru.

“O hip hop é capaz de chegar em lugares que outras culturas não querem ou não podem chegar, pela questão da marginalização”, afirma Renato Magú, apoiador do grupo. Ele também sustenta que hoje, independentemente da classe social, todos têm a oportunidade de ouvir e entender o rap. “Quando divulgamos um evento, a Internet sempre é uma ferramenta presente, mas ao mesmo tempo temos que nos lembrar de colocar um cartaz no ponto de ônibus, divulgar na porta da escola, etc”, afirma, lembrando da necessidade de atender ao público da periferia, as “raízes” do hip hop.

Os membros da Frente salientam, ainda, que todas as culturas possuem seu valor a partir de suas particularidades. E com o hip hop não é diferente. A batalha pela igualdade de direitos se faz presente nos mais diversos produtos culturais vindos deste meio, pelo qual os envolvidos sentem que têm voz, vontade e podem alterar as condições em que vivem, infelizmente, já tão enraizadas com o tempo.

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