Quando já estava com mais de 60 anos, Muricy Domingues resolveu colocar na orelha um brinco que havia ganhado da esposa. O detalhe pode parecer insignificante, porém é o que simboliza bem a mente aberta e moderna de um dos maiores intelectuais de Bauru. Às 10h20 de ontem, porém, o professor que conheceu praticamente o mundo todo fez sua última viagem.
Arquivo / Neide Carlos |
|
|
Apaixonado pelo ensino, Muricy Domingues é considerado um dos maiores intelectuais de Bauru |
O eterno mestre (ou melhor, doutor) de história e geografia Muricy foi vítima de uma pneumonia que se agravou. Após cerca de 20 dias internado na Beneficência Portuguesa, ele, que sempre viveu além de seu tempo, morreu aos 77 anos.
“O que posso dizer sobre ele? Foi um eterno sonhador e incentivador”, afirma, emocionada, a bióloga Maricê Thereza Correa, 50 anos, filha de Muricy. Além da carreira dela, o professor incentivou os estudos dos outros três filhos e de outras centenas de alunos que passaram por seus ensinamentos.
Centenas? Não, milhares. Com a trajetória profissional na docência iniciada em 1956, ele deu aula para uma enxurrada de alunos. Entre eles, pessoas como Jurandyr Bueno Filho e Roberto Vicente Calheiros.
“Ele tinha um grande amor pelo que fazia. Era um homem muito culto e que pensava muito na educação de todos. Ele acreditava que a educação era o que realmente podia mudar tudo”, conta a filha.
Nascido em Amparo, Muricy veio para Bauru aos 8 anos. Ele se formou na segunda turma de história e geografia da Faculdade de Filosofia (Fafil), que originou a Universidade Sagrado Coração. “E foi na USC que ele passou 46 anos como professor”, relembra Maricê.
Ele começou lecionando dando aulas de cursinho. Depois, assumiu as aulas de geografia e biogeografia. Logo, pegou a disciplina de metodologia da ciência. Na década de 90, passou a dar aulas de geografia na área de turismo, deixando a USC em 2003.
Deixou, porém, só a parte teórica. Foi quando começou a geografia e a história na prática. Intensificou uma paixão que ele carregava desde os 6 anos de idade, quando seus pais o levaram para conhecer o Rio de Janeiro: viajar.
As viagens
Muricy coleciona histórias do Oiapoque ao Chuí e por mais um sem número de países. Cruzeiros no Nilo, guerrilhas na Colômbia, acampamentos por toda a Europa e cinemas italianos (vistos de perto) são algumas das memórias. Memórias do mundo todo. Quase. Menos a Inglaterra.
Em entrevista ao JC em 2007, o professor Muricy Domingues, aos risos, contou que não iria até solo britânico por uma questão histórica. Segundo ele, a Inglaterra foi a razão de o Brasil sair da monarquia, regime que ele defendia. A filha Maricê confirmou ontem que ele nunca foi até a Inglaterra.
A paixão de viajar era tanta que Muricy tinha vários motor homes (casas sobre rodas). “Nas viagens pelo Estado, ele ia desse jeito. Ia com seu motor home”. Além disso, viajava de moto até os 60 anos. Colocava a esposa, Maria Luiza Domingues, 73 anos, na “rabeira” e partia pelo mundo.
As viagens, o motor home, as salas de aula e o pequeno brinco da orelha ficaram menos simbólicos ontem. Além da esposa, Muricy Domingues deixa os filhos Francisco Antônio, 53, Muricy Júnior, 51, Maricê Thereza, 50 e Fabiana Cristina, 44. A saudade também será para os netos Francisco, Ana Clara, Clarissa, Alessandro e Enzo.
O corpo do professor está sendo velado desde o fim da tarde de ontem na sala 1 do Centro Velatório Terra Branca. O sepultamento será hoje, às 11h, no Cemitério da Saudade.
Amigos lamentam perda
Muricy Domingues não marcou só a trajetória da educação de tantos bauruenses por lecionar. Escritor, ele fez parte da Academia Bauruense de Letras e é responsável por volumes que vão desde a metodologia científica a livros didáticos. Também atuou por algum tempo na política.
O ex-prefeito e ex-deputado federal Alcides Franciscato lamentou a morte de Muricy. “Perco um grande amigo de longa data, que participou ativamente de meus mandatos enquanto prefeito e deputado. Um homem de rara inteligência, muito perspicaz e leal aos companheiros de jornada. Minhas condolências à família”.
O também grande amigo e professor, Gerson Trevizani, o Duda, afirma que “Bauru perde um de seus maiores intelectuais”.
Entre os livros escritos por Muricy, ele é o responsável pelo “Bases Metodológicas para o Trabalho Científico”. Organizada com sua filha Maricê, a obra é considerada o carro-chefe da Edusc (Editora da USC).
“Ele era um educador no sentido íntimo da palavra. É uma tristeza muito grande saber da morte dele. Bauru perde um homem íntegro, decente, patriota. Um homem muito moderno e que realmente viveu sempre além do seu tempo”, lamenta Duda.
