Bairros

Não mais as velhas repúblicas

Tisa Moraes com Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Se, no passado, a maioria das repúblicas era formada por casas simples divididas por vários universitários interessados em baratear o preço do aluguel, atualmente eles optam por morar melhor. Seja em apartamentos individuais recém-construídos ou em casas amplas de alto padrão, os estudantes buscam, principalmente, por conforto e boa localização.

Para o delegado do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), Carlos Eduardo Muniz Candia, o fenômeno reflete a melhoria das condições econômicas da população, verificada ao longo da última década. Com mais poder de consumo, os pais destes estudantes tiveram condições de garantir a eles um melhor padrão de vida fora do ambiente doméstico.

Ele ainda explica que, ao longo dos anos, muitos universitários deixaram de lado a opção de dividir residências de médio padrão para viverem sozinhos, ou com mais um ou dois colegas em apartamentos menores, mas com melhor estrutura. As construtoras perceberam o movimento e se adaptaram à demanda rapidamente, disponibilizando centenas de opções de moradias em condomínios verticais.

“Geralmente são prédios menores, próximos às principais avenidas da cidade, por onde os ônibus circulam, ou então às universidades. Hoje, a oferta atende a procura tranquilamente”, considera Candia. Dependendo da localização e do padrão do apartamento, o preço do aluguel pode variar bastante.

 

Preços

Segundo o delegado do Creci, os apartamentos de um dormitório podem custar de R$ 450,00 a R$ 700,00, em média. Já a locação de unidades de dois dormitórios oscila entre R$ 650,00 a R$ 1,2 mil.

Há, no entanto, quem ainda prefira conviver com um número maior de moradores. Para atender a este perfil de estudantes, existem casas de alto padrão com piscina, churrasqueira de alvenaria e até suítes com banheira.


Quem opta por casa, busca conforto e comodidade

Embora profissionais da área considerem que a procura por repúblicas montadas em casas tenha diminuído muito, principalmente as com muitos moradores, até mesmo por causa da resistência dos proprietários dos imóveis em alugá-los para esse público, não é difícil encontrar exemplos em Bauru. Ao dividir o aluguel, o custo cai muito e a procura por estruturas mais luxuosas e espaçosas ganha destaque.

Na região do Jardim Brasil, dez estudantes de engenharia dividem uma residência ampla, que conta com cinco quartos, sendo uma suíte com banheira, além de outros dois banheiros, sala ampla com sacada e piscina e churrasqueira no quintal.

Os dez universitários dividem o aluguel de R$ 2,8 mil mensais, além de custearem o salário da empregada doméstica que cozinha, cuida da manutenção da casa e lava e passa roupas de segunda a sexta-feira.

“Como somos muitos, fica mais barato do que alugar um apartamento para morar sozinho, com a vantagem de poder conviver com várias pessoas todos os dias”, pondera Gabriel de Castro Feitosa, 19 anos, que está há um ano na república.

Os atritos dentro de casa, ele garante, são poucos. Além de economizar o dinheiro dos pais, ele diz que a vida em república também ajuda na hora de estudar. “Os colegas que fazem o mesmo curso sempre dão uma força. Fica mais fácil”, observa.

 

Quando o convívio é indispensável

No Jardim Panorama, outro grupo de jovens rateia o aluguel de R$ 2 mil de uma casa grande, também com piscina e churrasqueira, que foi transformada em república há um ano. Ao todo são oito moradores, com idades entre 20 e 24 anos, que se dividem em três quartos.

Um dos residentes, Sérgio Giraldella Junior, 23 anos, conta que nada substitui a experiência de conviver com tantos amigos. “Eu nunca gostei de morar sozinho. É claro que a economia financeira conta, mas o que mais vale é o aprendizado que esta convivência proporciona”, defende.

 

Festas ainda são problema para vizinhos

Se, para os estudantes, a vida em república representa economia e companheirismo, para os vizinhos, muitas vezes a presença deste tipo de moradia é sinônimo de dor de cabeça.

Morador do Jardim Panorama há seis anos, Daniel Fábio Lourenço Dias procurou o Jornal da Cidade recentemente para relatar seu incômodo em relação às festas frequentes realizadas próximo ao prédio em que vive. “Os eventos, que aconteciam uma vez por mês, agora são semanais. Tem até banda tocando ao vivo e as pessoas tomam toda a rua”, lamenta.

Daniel também denuncia que muitas delas cobram portaria para o ingresso nas festas, exercendo atividade comercial sem alvará da prefeitura. De acordo com ele, além da inércia do poder público, a Polícia Militar nada faz para solucionar o problema. “A perturbação do sossego público pode ser facilmente constatada e a obrigação da polícia é manter a ordem. Para o bem da coletividade, ela deveria mandar interromper a festa, sob risco de os estudantes responderem por crime de desobediência”, cogita.

Segundo a PM, sempre que há uma reclamação, uma viatura é enviada ao local e, se não houver acordo para o conflito, o morador deve registrar boletim de ocorrência para formalizar a queixa.

“Sozinha, a Polícia Militar pouco pode fazer, a não ser pedir para baixarem o som. Mas, depois que a viatura vai embora, o problema pode voltar. Neste caso, o melhor caminho é conduzir as partes até a delegacia para dar início a um processo”, frisa o oficial de relações públicas do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Fabiano Serpa.


Pequenas repúblicas verticais dominam o cenário

Há três realidades quando o assunto são repúblicas de estudantes. As tradicionais casas com até dez ou mais membros, na outra ponta os apartamentos que abrigam apenas um estudante e os imóveis alugados para dois ou três inquilinos, no máximo. E, segundo profissionais do mercado imobiliário, este último perfil é o que mais cresce em Bauru.

“Este perfil intermediário é uma nova configuração e já representa o maior volume dos aluguéis para universitários. Contudo, esta é uma característica regional. Em Bauru há um perfil proativo na hora de desenvolver imóveis para esse tipo de cliente, até por conta da nossa grande população universitária”, aponta o coordenador de Novos Empreendedores na regional da Secovi (Sindicato da Habitação) em Bauru, Bruno Pegorin.

Ainda na visão de Pegorin, a maioria dos universitários migra para os apartamentos por questões como conforto e até segurança, o mesmo ocorre pela opção de dividir o teto com poucas pessoas. “É até uma questão de confiança, porque você está dividindo a sua intimidade com menos pessoas”.

 

Verticais

Na estimativa do profissional, em Bauru, quando o assunto é o universo das repúblicas, as casas não chegam a 10% do volume. Por outro lado, há o número crescente na procura por apartamentos de um dormitório. “Até porque eles foram entregues nos últimos anos já com esse objetivo”, defende.

De alguns anos para cá, houve a migração das casas para os apartamentos e, agora, a formação das pequenas repúblicas verticais - de duas ou, no máximo, três pessoas - tem crescido. 

A estudante de jornalismo Ana Clara Chiavegatti faz parte da estatística dos que optam pelas pequenas repúblicas em prédios. Ela divide um apartamento com outras duas meninas, Juliana Righi e Sara Souza, desde o começo do ano. Antes disso, Ana morou em uma casa com outras sete garotas. No momento da reportagem, as amigas de Ana estavam viajando.

“Não é uma questão de preferência, mas viver com menos pessoas proporciona mais organização”, defende. Para manter a privacidade, cada uma tem o seu quarto. “Assim, todas temos o nosso cantinho particular e sempre temos alguém para conversar, dividir a rotina e os afazeres”.

Ainda segundo Ana, é mais divertido viver com outras pessoas, mas por outro lado, todos ficam sujeitos à rotina uns dos outros, como a louça suja na pia, o lixo que precisa ir para fora... “Um dia vou morar sozinha, em outra fase da vida, já com emprego e meu próprio dinheiro. Isso até por necessidade e crescimento pessoal”, projeta.

 

‘Prefiro morar sozinha’

Apartamentos de estudantes que optam por morar sozinhos, principalmente nas regiões de faculdades, também têm crescido. Para não perder o bom relacionamento com colegas da antiga república e evitar as pequenas batalhas do convívio diário e o estresse doméstico foi que a estudante de jornalismo Marcela Antunes decidiu morar sozinha.

“Eu também queria focar em certos aspectos da minha vida, como o trabalho de conclusão de curso e o estágio”. Para tanto, ela escolheu um apartamento pequeno em uma região movimentada da cidade, de olho na segurança.

“Conforto é bom, mas segurança é bastante importante. Viver perto de amigos que possam me dar carona e em prédios com portaria e câmera são as minhas dicas para quem quer se aventurar a morar só”. Entretanto, Marcela já dividiu um apartamento com duas outras meninas e aponta que, para dar certo, é fundamental encontrar alguém compatível.

“E isso não quer dizer necessariamente um amigo com quem você se dá muito bem. Uma coisa é ser amiga de alguém, outra é morar junto, conviver. É mais fácil encontrar segurança e conforto, porque isso você pode pesquisar, a escolher com quem morar, já que isso depende da sua observação e relação com outras pessoas. E depende, mais ainda, de ter sorte”, acredita.

 

Entre prós e contras

Assim como viver em grupo, morar sozinho exige superar desafios. Contudo, a futura jornalista diz ter encontrado muitos pontos positivos nessa nova experiência. “Na verdade, acho difícil imaginar ter que voltar a morar com alguém no momento”, diz, bem humorada.

Entre as vantagens estão a possibilidade de fazer os próprios horários e ter o seu cantinho do seu jeito. “Se você quer ouvir música de madrugada ou receber sua família e amigos, não tem que se preocupar em incomodar quem mora com você. Sendo assim, você tem muito mais liberdade morando sozinho”.

Em contrapartida, a garota destaca que chegar em casa com vontade de contar as novidades, desabafar ou simplesmente jogar conversa fora com alguém e não ter esse alguém não é bom. “Por sorte, eu acabei me mudando para o prédio ao lado do meu antigo edifício e fica fácil encontrar meus amigos”.

 

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